Ademar José Gevaerd (Maringá, 1962 – Curitiba, 2022) foi o editor que deu à ufologia brasileira projeção internacional. À frente da Revista UFO, ele passou quase quatro décadas investigando relatos de objetos voadores não identificados, organizando arquivos e cobrando do poder público a liberação de documentos militares sobre o tema.
Antes de viver da pesquisa, Gevaerd foi professor de Química. Deixou a sala de aula em 1986 para se dedicar integralmente à ufologia, assunto que acompanhava desde a adolescência. Casos como o objeto em forma de charuto com luzes nas extremidades relatado por torcedores no estádio Morenão, em Campo Grande, em março de 1982, ajudaram a convencê-lo de que os relatos mereciam apuração metódica, e não tratamento de curiosidade.
Quem foi Ademar José Gevaerd
Nascido em 19 de março de 1962, em Maringá, no norte do Paraná, Gevaerd começou a se envolver com ufologia por volta dos 13 anos. Aos 21, em 1983, fundou em Curitiba o Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores (CBPDV), entidade que reuniu pesquisadores e associados e passou a servir de base para a produção editorial dele.
Em 1985 lançou a revista Ufologia Nacional & Internacional, que durou pouco, mas abriu caminho para a Revista UFO, publicada pela primeira vez em março de 1988, em Campo Grande (MS). A publicação se tornaria o centro da carreira dele e uma das mais longevas do segmento em todo o mundo.
O que a Revista UFO representou para o tema
Mensal e de circulação paga, a Revista UFO publicou investigações de campo, entrevistas com testemunhas, pilotos e militares e séries especiais como UFO Documento e UFO Especial. A revista também organizou expedições e deu espaço a debates sobre ciência, astronomia e documentos oficiais, o que rendeu a Gevaerd convites para congressos no exterior.
Mesmo depois de a circulação impressa ser interrompida durante a pandemia de covid-19, em 2020, o título voltou a ser publicado de forma independente. Após a morte do fundador, a direção passou para o filho, Daniel Gevaerd, com a editoria a cargo de Thiago Luiz Ticchetti.
Operação Prato, Varginha e a campanha pelos arquivos
Uma das contribuições mais citadas de Gevaerd é a entrevista que ele obteve, na década de 1990, com o coronel Uyrangê Hollanda, comandante da Operação Prato, investigação conduzida pela Força Aérea Brasileira em 1977 na região de Colares, no Pará. O depoimento ajudou a tornar o caso conhecido dentro e fora do Brasil.
Gevaerd também acompanhou de perto o episódio de Varginha (MG), em 1996, quando moradores relataram ter visto criaturas e movimentação militar na cidade. Com base em testemunhas, ele sustentou que o caso envolvia a captura de seres e aeronaves, versão nunca confirmada oficialmente. Na época, defendia que ufólogos separassem indícios verificáveis de boatos e fraudes.
Em 1996, fundou a Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU). Em 2004, a comissão lançou a campanha "UFOs: Liberdade de Informação Já", que pressionou o governo federal a abrir documentos militares sobre avistamentos. A mobilização levou representantes do grupo a reuniões com a Aeronáutica e o Ministério da Defesa e resultou na liberação de milhares de páginas, encaminhadas ao Arquivo Nacional, tornando o Brasil um dos países com mais registros oficiais do tipo disponíveis ao público.
Como Ademar Gevaerd trabalhava
Gevaerd defendia que investigações ufológicas fossem tratadas como apuração jornalística: ouvir testemunhas, checar documentos e confrontar versões. Ficou conhecido por criticar fraudes e sensacionalismo, inclusive dentro do próprio meio. Denunciou falsificações de imagens de OVNIs e chamou de deliberada uma fraude com discos voadores sobre o Haiti que circulou no YouTube no fim dos anos 2000. Essa postura rendeu a ele aliados e críticos, mas consolidou a Revista UFO como veículo de referência para quem queria acompanhar o assunto com algum critério.
Em 2007, os escritórios da Revista UFO foram invadidos e computadores com arquivos da publicação foram levados. Gevaerd tratou o episódio como tentativa de intimidar o trabalho da revista e disse que a reação seria ampliar a divulgação das investigações.
Agroglifos, exopolítica e atuação internacional
Além dos casos clássicos, Gevaerd investigou os agroglifos que começaram a aparecer em lavouras brasileiras a partir de 2008, com registros em Ipuaçu (SC) e Prudentópolis (PR). O trabalho virou o livro Agroglifos no Brasil, publicado em 2021.
No fim da carreira, ele voltou o foco para a exopolítica, campo que discute as implicações políticas e sociais de um eventual contato com civilizações extraterrestres. Em 2017, fundou o Instituto Brasileiro de Exopolítica (IBEXO) e, no ano seguinte, participou da criação da International Coalition for Extraterrestrial Research (ICER), rede que reúne pesquisadores de vários países.
Gevaerd também representou o Brasil em organizações do exterior. Ainda nos anos 1980, foi convidado pelo astrônomo J. Allen Hynek para representar no país o Center for UFO Studies (CUFOS), e a partir de 1993 dirigiu no Brasil a Mutual UFO Network (MUFON). Palestrou em dezenas de países e apareceu em documentários e programas do Discovery Channel, National Geographic e History Channel.
Quais projetos ficaram ligados ao nome dele
- Revista UFO — publicação mensal fundada em 1988 e referência na investigação de OVNIs no Brasil;
- Agroglifos no Brasil — livro de 2021 sobre as formações que surgiram em lavouras brasileiras;
- CBPDV — Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores, criado em 1983;
- Comissão Brasileira de Ufólogos — fundada em 1996, articulou a campanha pela abertura dos arquivos militares;
- Fórum Mundial de Ufologia — encontro realizado em Brasília em 1997, com pesquisadores de vários países.
Morte e legado
Gevaerd sofreu uma queda em casa em 30 de novembro de 2022 e morreu em 9 de dezembro daquele ano, aos 60 anos, no Hospital Pilar, em Curitiba. A morte interrompeu uma agenda de palestras e projetos editoriais, mas não encerrou a estrutura que ele ajudou a construir: a Revista UFO seguiu circulando sob nova direção, e o acervo acumulado em décadas continua sendo consultado por pesquisadores do tema.
Para quem acompanha o assunto, a obra dele funciona como porta de entrada e registro histórico. Décadas de pesquisa de campo, transcrições de entrevistas e documentos oficiais formam um material que atravessa gerações e mantém o debate sobre OVNIs no Brasil conectado a métodos de apuração verificáveis, aproximando o tema da ciência e da checagem de fontes.



