Arlindo Cruz compôs "Lição de Malandragem" e viu, em pouco tempo, uma dúzia de canções próprias ganharem disco antes de ser conhecido como intérprete. A roda de samba do Cacique de Ramos, no subúrbio do Rio de Janeiro, foi o laboratório onde "Grande Erro" chegou à voz de Beth Carvalho, "Novo Amor" foi gravada por Alcione e um compositor de Madureira começou a mudar o repertório do pagode brasileiro.
Nascido em Piedade em 14 de setembro de 1958, Arlindo Domingos da Cruz Filho foi cantor, compositor, cavaquinista e banjista. Em 36 anos de carreira, lançou 23 álbuns — nove com o Fundo de Quintal, cinco em parceria com Sombrinha e nove em carreira solo —, venceu mais de 26 prêmios, assinou 19 sambas-enredo vitoriosos e recebeu cinco indicações ao Grammy Latino. Ele morreu em 8 de agosto de 2025, aos 66 anos, no Rio de Janeiro, depois de oito anos de recuperação de um acidente vascular cerebral sofrido em 2017.
Piedade, Madureira e o primeiro cavaquinho
Arlindo nasceu em Piedade e foi criado em Madureira, bairro que apareceria mais tarde em versos e na identidade de sua obra. A música entrou em casa pelas mãos da família: a mãe, Aracy Marques da Cruz, tocava pandeiro; o pai, o policial civil Arlindo Domingos da Cruz, dedilhava o cavaquinho; o tio tocava violão nas festas domésticas. Aos sete anos, ele ganhou o primeiro cavaquinho e já tirava canções de ouvido.
Na adolescência, estudou teoria, solfejo e violão clássico na escola Flor do Méier e começou a trabalhar como músico por volta dos 13 anos, tocando ao lado de nomes como Candeia. Aos 15, passou a estudar na Escola Preparatória de Cadetes do Ar, em Barbacena, Minas Gerais, onde continuou ligado à música no coral da escola e venceu festivais de canto em Barbacena e Poços de Caldas. De volta ao Rio, trabalhou na Caixa Econômica Federal e, no início dos anos 1980, deixou a rotina de funcionário para mergulhar na roda de samba do Cacique de Ramos. Seu irmão, o compositor Acyr Marques, seguiu caminho parecido no meio musical.
Cacique de Ramos e doze anos de Fundo de Quintal
No Cacique de Ramos, Arlindo Cruz conviveu com Jorge Aragão, Beth Carvalho, Beto sem Braço, Ubirany, Almir Guineto, Zeca Pagodinho e Sombrinha, sambistas que estavam reinventando o pagode a partir daquela quadra. As composições dele começaram a circular rápido: no primeiro ano na roda, doze canções foram gravadas por outros intérpretes.
Em 1981, já reconhecido como compositor, recebeu o convite para substituir Jorge Aragão no grupo Fundo de Quintal. Ficou no conjunto por doze anos e ajudou a definir o repertório de uma das fases mais criativas do samba carioca, assinando canções como "Seja Sambista Também", "Só Pra Contrariar", "Castelo de Cera" e "O Mapa da Mina".
Carreira solo e a dupla com Sombrinha
Em 1993, Arlindo deixou o Fundo de Quintal para seguir sozinho. O primeiro álbum solo, "Arlindinho", saiu naquele ano e recebeu boa crítica, embora tenha vendido pouco. O reconhecimento comercial viria com a parceria firmada com Sombrinha, outro egresso do grupo. Juntos, gravaram "Da Música" (1996), que vendeu cerca de sessenta mil cópias, "Samba É Nossa Cara" (1997), "Pra Ser Feliz" (1998) e "Hoje Tem Samba" (2002). Do período saiu "O Show Tem Que Continuar", composição da dupla com Luiz Carlos da Vila.
MTV ao Vivo, Esquenta! e o salto nacional
A virada de chave veio em 2009. O projeto "MTV ao Vivo: Arlindo Cruz", gravado em São Paulo, vendeu cem mil cópias e transformou o compositor respeitado no meio em nome popular em todo o país. Antes disso, em 2007, o álbum de estúdio "Sambista Perfeito" já havia lhe rendido a primeira indicação ao Grammy Latino e o apelido que o acompanharia pelo resto da vida.
De janeiro de 2011 até o fim do programa, em 2017, Arlindo comandou a banda fixa do "Esquenta!", da TV Globo, apresentado por Regina Casé — e compôs o tema da atração em parceria com Gilberto Gil. No mesmo período, lançou "Batuques do Meu Lugar" (2013), gravado no Terreirão do Samba, e "Herança Popular" (2014), seu último álbum solo, que alcançou a décima posição nas paradas do iTunes e disputou o Grammy Latino de Melhor Álbum de Samba/Pagode.
Em 2015, dividiu o álbum "Na Veia" com o cantor Rogê e venceu o Prêmio da Música Brasileira na categoria Melhor Músico de Samba. No ano seguinte, criou com o filho Arlindinho o projeto "2 Arlindos", que rendeu apresentações e um álbum de quinze faixas em 2017 — interrompido pelo AVC que sofreu em março daquele ano.
Samba-enredo, Estandartes e a ligação com o carnaval
Arlindo Cruz foi um dos compositores mais vitoriosos das disputas de samba-enredo do carnaval carioca. A primeira vitória foi em 1989, no Império Serrano, com o enredo "Jorge Amado, Axé Brasil". Em 1996 e 1997, assinou os sambas da escola da Serrinha; nos anos 2000, venceu nas quadras do Império, da Acadêmicos do Grande Rio, da Unidos de Vila Isabel e da Leão de Nova Iguaçu. Recebeu quatro Estandartes de Ouro, em 2001, 2006, 2012 e 2013.
- 23 álbuns lançados em 36 anos de carreira;
- 19 vitórias em disputas de samba-enredo por quatro escolas;
- cinco indicações ao Grammy Latino;
- mais de 26 prêmios, entre eles o Prêmio da Música Brasileira de 2015.
O AVC, os últimos anos e o legado
Em 17 de março de 2017, Arlindo Cruz sofreu um AVC hemorrágico em casa, quando se preparava para viajar a São Paulo para um show. Apesar dos tratamentos e de breves altas hospitalares, nunca voltou aos palcos. Morreu em 8 de agosto de 2025, no Hospital Barra D'Or, no Rio, por falência múltipla de órgãos.
A morte mobilizou o mundo do samba e a cidade. A prefeitura do Rio decretou luto oficial e anunciou que o futuro Parque Piedade levará o nome do cantor; o ritual fúnebre foi realizado na quadra do Império Serrano e o sepultamento, no Cemitério Parque Jardim da Saudade. Escolas de samba, a LIESA e o Ministério da Cultura prestaram homenagens, e o presidente Lula resumiu o consenso do meio: Arlindo era, "em essência, o sambista perfeito". Em 2023, o carnaval carioca já havia homenageado o compositor com uma representação dele de banjo em punho em um carro alegórico.
Onde encontrar a obra de Arlindo Cruz hoje
Quem quiser entrar na discografia pode começar pelos registros ao vivo, que mostram o sambista em ambiente de roda, e pela biografia lançada em 2025. Os álbuns continuam disponíveis em serviços de streaming, como o Spotify e o Deezer, e o canal oficial no YouTube reúne clipes, apresentações e registros de carreira.
Para quem quer entender a importância dele dentro da música brasileira, os discos feitos com Sombrinha e o repertório gravado no Fundo de Quintal funcionam como porta de entrada: é ali que estão as canções que outros intérpretes transformaram em sucesso antes que o próprio Arlindo assumisse, com a voz e o cavaquinho, o lugar de protagonista.






