Carlos Alberto Sardenberg entra no ar quando boa parte do país almoça e, há mais de duas décadas, faz sempre a mesma coisa: transformar juros, inflação, câmbio e mercado em conversa que qualquer ouvinte consegue acompanhar. Âncora do CBN Brasil desde outubro de 2000 e colunista do jornal O Globo, ele construiu no rádio um estilo reconhecível: explicar economia sem economês, com clareza que serve tanto ao investidor experiente quanto a quem só quer entender o que acontece com o salário e a poupança.
A trajetória de Sardenberg se organiza em três tempos: as redações dos anos de ditadura, a passagem por dentro do governo durante o Plano Cruzado e mais de três décadas de comentário econômico no rádio e na televisão.
Filosofia na USP, ditadura e a estreia no jornalismo
Nascido em Botucatu, no interior de São Paulo, em 25 de abril de 1946, filho de um bancário e de uma professora, Sardenberg cursava Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) quando a repressão política virou sua vida de cabeça para baixo. Ele dava aulas em um cursinho pré-vestibular, o Cursinho do Grêmio, e viu os cursos preparatórios serem considerados subversivos pela polícia. Sem poder dar aula e sem conseguir concluir a graduação, precisou arrumar outro trabalho. Foi parar em um jornal de bairro de Pinheiros e, em 1969, chegou a O Estado de S. Paulo — contratado depois de reescrever matérias de teste para o editor Saul Galvão.
Na redação do Estadão, passou de copidesque a subeditor de Internacional, aproveitando o inglês, o francês e o espanhol que lia, e depois a repórter especial. É desse período a reportagem "O Regime na Encruzilhada", de 1975, que expôs as divergências internas do governo militar sobre a abertura política e rendeu a Sardenberg o convite para trabalhar na revista Veja. Ele ainda passaria por IstoÉ antes de trocar as redações pela assessoria de comunicação.
Do governo de São Paulo ao Plano Cruzado
Em 1982, Sardenberg participou da campanha de Franco Montoro ao governo de São Paulo e, com a vitória, assumiu a coordenação de comunicação da Secretaria da Fazenda, na equipe de João Sayad. Quando Sayad foi chamado para o governo federal, o jornalista o acompanhou a Brasília: entre 1985 e 1987, foi Coordenador de Comunicação Social do Ministério do Planejamento e participou do lançamento e da divulgação do Plano Cruzado, o pacote que congelou preços em 1986 e tentou derrubar a inflação no governo José Sarney.
Com o fracasso do plano, saiu do governo em 1987 para não voltar. Ainda trabalhou na reitoria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), na definição de cursos de pós-graduação em jornalismo, e em 1988 retomou a carreira de comentarista de economia na TV Gazeta, em um espaço comprado pelo jornal Gazeta Mercantil. Vieram o Jornal do Brasil, onde assinou a coluna Informe Econômico, a Folha de S.Paulo, uma passagem pelo SBT e a direção de jornalismo da Rede Bandeirantes. Na TV Cultura, apresentou o Roda Viva, um dos principais programas de entrevistas do país.
O rádio como casa: CBN desde 1991
A virada definitiva para o rádio aconteceu em 1991, ano de fundação da CBN, quando Sardenberg foi convidado a comentar economia na emissora que nascia com uma proposta nova: falar de dinheiro com quem não é especialista. "Procuro fazer de forma tecnicamente correta, de acordo com a ciência econômica, mas de um modo que as pessoas entendam", resumiu ele, em depoimento ao Memória Globo, sobre o método que desenvolveu ali.
Desde outubro de 2000, é o âncora do CBN Brasil, noticiário que ocupa o horário do almoço na emissora. Foi à frente dele que comandou coberturas marcantes, como a dos atentados de 11 de setembro de 2001, quando passou a ligar para fontes em Nova York enquanto as notícias chegavam pelas agências e pela televisão. O programa virou podcast, e os comentários diários de Sardenberg circulam em plataformas de áudio sob o nome Linha Aberta.
GloboNews, Jornal da Globo e a coluna em O Globo
Na televisão, Sardenberg chegou à GloboNews em 1998, a convite da diretora Alice-Maria: começou entrevistando economistas e empresários no Jornal das Dez e virou comentarista de economia do canal. A partir de 2006, levou o mesmo papel para o Jornal da Globo, na TV aberta, e, em 2008, publicou a primeira coluna no jornal O Globo, inicialmente sobre economia e, depois, misturando análise política ao assunto. Em novembro de 2022, deixou a GloboNews e o Jornal da Globo — e seguiu no rádio e na coluna, que mantém até hoje.
Livros: do Plano Cruzado às finanças pessoais
A bibliografia de Sardenberg acompanha suas obsessões públicas: a economia brasileira, a defesa do liberalismo e a convicção de que dinheiro é assunto para todo mundo. O primeiro livro nasceu da experiência no governo; os últimos, das conversas no ar.
- Aventura e Agonia: Nos Bastidores do Cruzado (Companhia das Letras, 1987), relato por dentro da criação e do desgaste do Plano Cruzado;
- O Assunto é Dinheiro (Saraiva, 2006), escrito com Mara Luquet a partir dos diálogos do programa na CBN, sobre orçamento, investimentos e finanças pessoais;
- O Assunto é Tecnologia (Saraiva, 2007), com Daniela Braun, sobre internet, inovação e os efeitos da tecnologia na economia;
- Neoliberal, Não. Liberal: Para Entender o Brasil de Hoje e de Amanhã (Editora Globo, 2008), ensaios sobre liberalismo, democracia e os rumos do país;
- O Assunto é Bolsa (Saraiva, 2010), também com Mara Luquet, introdução ao mercado de ações com glossário, tabelas e gráficos.
Em Neoliberal, Não. Liberal, Sardenberg resume a posição que defende há décadas: "Procuro mostrar que o liberal tem que ser completo, liberal na economia, liberal na política; o regime capitalista tem que ter democracia, senão não funciona." Os livros da série O Assunto é seguem a lógica do rádio — perguntas diretas, respostas sem jargão — e transformaram quadros do programa em porta de entrada para temas que assustam o leitor comum.
Prêmios, palestras e onde acompanhar Sardenberg
Ele é um dos maiores vencedores do Prêmio Comunique-se, com dez troféus: três na categoria Âncora de Rádio, cinco como Comentarista Econômico de mídia falada e dois na mídia escrita. Pelas vitórias consecutivas, recebeu o título de Grande Mestre da Comunicação. No prêmio Os + Admirados da Imprensa de Economia, Negócios e Finanças, promovido pelos portais Jornalistas&Cia e Maxpress, foi eleito o jornalista de economia mais admirado do país em 2019, depois de anos figurando entre os primeiros colocados.
Além do jornalismo, Sardenberg participa de palestras e eventos sobre conjuntura, cenário político e perspectivas econômicas, com contato pelo portal oficial, onde também publica artigos. No rádio, integra a bancada de comentaristas econômicos da CBN ao lado de colegas como Míriam Leitão, e mantém perfis públicos no X e no Instagram. Quem quer entrar no debate econômico brasileiro pelas mãos de quem o cobre desde 1969 pode começar pela página de economia ou pela seleção de educação financeira do site.






