Cid Gomes se tornou, em 4 de outubro de 2026, o primeiro senador reeleito do Ceará desde a criação da reeleição no país. Engenheiro civil nascido em Sobral, ele somou 3.033.562 votos, garantiu uma das duas vagas do estado no Senado e atravessou uma eleição que colocou o irmão Ciro Gomes, candidato ao governo, em chapa adversária pela primeira vez desde o fim dos anos 1980.
Antes de chegar ao Senado, Cid passou por dois mandatos de governador, oito anos como prefeito de Sobral, duas legislaturas na Assembleia Legislativa e uma temporada curta e barulhenta no Ministério da Educação. Sua trajetória recente também carrega um episódio que marcou a política de segurança do estado: em 2020, foi atingido por dois tiros ao avançar com uma retroescavadeira contra o portão de um batalhão da Polícia Militar em Sobral.
Sobral, engenharia e a Assembleia aos 32 anos
Cid Ferreira Gomes é filho do defensor público José Euclides Ferreira Gomes Júnior, que presidiu a prefeitura de Sobral, e da professora Maria José Santos Ferreira Gomes. Cresceu em uma casa que daria origem a uma das famílias mais presentes na política cearense: os irmãos Ciro, Ivo e Lia também construíram carreiras públicas.
Formado em engenharia civil pela Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza, presidiu o centro acadêmico e passou pelo movimento estudantil. A primeira disputa eleitoral veio em 1988, como candidato a vice-prefeito de Sobral na chapa de José Linhares Ponte, o Padre Zé, derrotada nas urnas. Entre 1989 e 1990, foi coordenador político regional no Ceará, a convite do governador Tasso Jereissati.
Em 1990, elegeu-se deputado estadual pelo PSDB com 21.895 votos e virou líder do partido na Assembleia Legislativa no ano seguinte. Reeleito em 1994 com 45.570 votos, chegou à presidência da Casa em 1995, aos 32 anos, como o parlamentar mais jovem a ocupar o posto. Venceu a eleição para prefeito de Sobral em 1996 com mais de 64% dos votos, interrompendo uma alternância entre as famílias Prado e Barreto que durava desde 1963. Foi reeleito em 2000, com mais de 68%.
Nos oito anos de prefeitura, construiu escolas, ampliou o ensino fundamental para nove anos cinco anos antes da regra nacional e reorganizou as finanças do município, que passou a ter a terceira maior arrecadação de impostos do Ceará. As políticas de alfabetização aplicadas em Sobral seriam ampliadas depois para todo o estado. Em 2005, fora do cargo, mudou-se para Washington, onde trabalhou como consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento.
Os dois mandatos no governo do Ceará
Na eleição de 2006, Cid derrotou o governador Lúcio Alcântara no primeiro turno, com 2.411.457 votos, 62,38% dos válidos. Quatro anos depois, foi reeleito também em turno único, com 2.436.940 votos e 61,27%. O governo combinou uma agenda de educação e obras de infraestrutura. Entre as frentes que a gestão apresenta como entregas do período estão:
- o PAIC, Programa Alfabetização na Idade Certa, levado aos 184 municípios cearenses, com capacitação de professores e acompanhamento da aprendizagem;
- as Escolas Estaduais de Educação Profissional, que integraram o ensino médio à formação técnica;
- o Cinturão das Águas e o Eixão das Águas, para ampliar a segurança hídrica do estado;
- o Complexo Industrial e Portuário do Pecém e o Cinturão Digital, de fibra óptica;
- o Centro de Eventos do Ceará, os metrôs de Sobral e do Cariri e os aeroportos de Aracati e Jericoacoara;
- o início da expansão da energia eólica no litoral cearense.
Em março de 2007, o governo nomeou os integrantes do Conselho Estadual de Segurança Pública, previsto na Constituição estadual, e preparou a infraestrutura para a Companhia Siderúrgica do Pecém, que começou a operar em 2016, e para uma refinaria da Petrobras que não chegou a ser construída. Em dezembro de 2013, um vídeo gravado por uma moradora de Itapipoca mostrou o governador mergulhando em uma adutora para conter um vazamento. Ao comentar o episódio em 2023, ele disse que fez esse tipo de operação cerca de 20 vezes, para abrir e fechar válvulas do abastecimento.
O período também teve atritos com categorias do funcionalismo. Em 2011, durante uma greve de professores, Cid afirmou que a docência deveria ser escolhida por vocação e que quem buscasse remuneração maior poderia procurar o ensino privado. A declaração provocou críticas; em 2015, ele disse que suas palavras haviam sido distorcidas e que defender a vocação não excluía a necessidade de boa remuneração.
O Ministério da Educação e a saída em 2015
Em dezembro de 2014, Dilma Rousseff o escolheu para chefiar o Ministério da Educação no segundo mandato presidencial, com nomeação publicada em 1º de janeiro de 2015. No cargo, o piso nacional dos professores foi reajustado em 13,01%, de R$ 1.697 para R$ 1.917,78. Cid defendeu avaliações mais rigorosas dos cursos e dos estudantes no Fies e disse que o governo deveria evitar financiar instituições de ensino de baixa qualidade; depois das declarações, as ações da Kroton caíram cerca de 6%.
A passagem pelo ministério durou menos de três meses. Em março de 2015, durante visita à Universidade Federal do Pará, ele afirmou que entre 300 e 400 deputados preferiam um governo fragilizado para pressionar por vantagens. Convocado pela Câmara dos Deputados, discutiu com o presidente da Casa, Eduardo Cunha, em 18 de março, e o acusou de praticar achaques, em referência à delação do doleiro Alberto Youssef. No mesmo dia, pediu exoneração; a saída foi publicada no Diário Oficial em 19 de março de 2015.
Senado, volta ao PSB e reeleição em 2026
Eleito senador em 2018 pelo PDT, com 3.228.533 votos, 41,62% dos válidos, ele teve a maior votação de um candidato ao Senado no Ceará até aquela eleição. No primeiro ano de mandato, apresentou 18 proposições e relatou 19 matérias, além de defender a criação de uma comissão parlamentar de inquérito sobre invasões de celulares de autoridades. Assumiu a liderança do PDT no Senado em 2021 e foi reconduzido ao posto em 2023, ano em que se tornou vice-presidente das comissões de Educação, de Desenvolvimento Regional e de Relações Exteriores e o primeiro presidente da comissão temporária sobre hidrogênio verde.
Em 4 de fevereiro de 2024, voltou ao PSB após divergências internas no PDT, acompanhado por mais de 40 prefeitos. O partido passou a reunir mais de 60 prefeituras no Ceará, o maior número entre as legendas do estado. Cid passou boa parte de 2025 e do início de 2026 dizendo que não tentaria a reeleição e defendendo o nome do deputado federal Júnior Mano. A candidatura foi confirmada em julho de 2026, depois de um apelo do presidente Lula em reunião com o governador Elmano de Freitas e com o senador Camilo Santana; Júnior Mano aceitou e ficou com a primeira suplência.
Relator do projeto que cria o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata, ele defendeu a instalação de data centers no Ceará e citou a disputa pelo data center da TikTok como uma conquista do estado. É autor de uma proposta de emenda à Constituição que atribui ao Conselho Nacional de Justiça a fiscalização do Supremo Tribunal Federal; na campanha, disse que a Corte precisa ser refundada e admitiu o impeachment de ministros em casos de escândalo. Também defendeu mais efetivo e inteligência para a Polícia Federal no combate ao crime organizado e a regionalização da saúde.
Em 4 de outubro de 2026, foi reeleito com 3.033.562 votos, 31,22% dos válidos, ao lado de Luizianne Lins, que ficou com a outra vaga do Ceará. O novo mandato vai de 2027 a 2035.
A ruptura com Ciro Gomes
A eleição de 2026 foi a primeira desde o fim dos anos 1980 em que Cid e o irmão Ciro Gomes apareceram em chapas opostas. A ruptura entre os dois começou em 2022 e dividiu a família: ao lado de Cid ficou a deputada estadual Lia Gomes; com Ciro, os irmãos Ivo, ex-prefeito de Sobral, e Lúcio Gomes. Durante a campanha, Cid disse que continuava do mesmo lado da vida pública e que foi o irmão quem mudou de posicionamento.
O episódio da retroescavadeira
Em 19 de fevereiro de 2020, Cid foi atingido por dois tiros ao avançar com uma retroescavadeira contra o portão do 3º Batalhão da Polícia Militar, em Sobral, ocupado por policiais que participavam de um motim por reajuste salarial. A informação inicial, de que havia sido ferido por balas de borracha, foi corrigida depois para tiros de arma de fogo. Os projéteis ficaram alojados no corpo, e os médicos informaram que ele não corria risco de morte. O movimento terminou sem anistia, com mais de 200 policiais afastados. Até abril de 2023, 25 haviam sido expulsos, 118 absolvidos e 212 ainda respondiam a processos administrativos na Corregedoria.
Quem pesquisa o nome hoje encontra um político que atravessou praticamente todos os degraus da vida pública cearense, da educação de Sobral ao Senado, e que segue como uma das principais lideranças do estado. O mandato mantém o site cidgomes.com.br, com Instagram, Facebook e YouTube oficiais, além do perfil no Senado, que reúne gabinete, proposições e prestação de contas. A trajetória também ajuda a entender o peso da família Gomes na política do Ceará nas últimas três décadas.

