Antes de virar sinônimo de documentário no YouTube, Felipe Castanhari era o animador 3D que, numa busca frustrada por vídeos sobre a cultura pop da infância, resolveu gravar ele mesmo. Nasceu dali o Canal Nostalgia: um espaço que misturou história, ciência e memória coletiva e ajudou a popularizar o formato de vídeo-aula com edição de cinema no Brasil.
Felipe Mendes Castanhari nasceu em Osasco, na Grande São Paulo, em 20 de dezembro de 1989. Quem digita o nome dele costuma querer entender como um designer gráfico e youtuber saiu do quarto com câmera emprestada e chegou à Netflix com a série Mundo Mistério, sem abandonar o tom de conversa e a curiosidade que marcaram a primeira década do canal.
Origem, formação e o salto do estúdio para o YouTube
Com ascendência portuguesa e italiana — o sobrenome familiar original é Castagnaro —, Felipe cresceu em Osasco e construiu a base profissional no design e na animação. Trabalhava como animador 3D no departamento de pós-produção de uma agência de publicidade em São Paulo quando, no fim de 2011, abriu o Canal Nostalgia. A motivação era simples e bem documentada: ao pesquisar no YouTube referências da infância nos anos 1990, não encontrou o tipo de vídeo que queria assistir.
O primeiro episódio saiu com câmera emprestada de uma amiga e o quarto como cenário. Os números iniciais foram modestos. O empurrão veio com o vídeo sobre a TV CRUJ, que ultrapassou as dezenas de milhares de visualizações e mostrou que havia demanda por relembrar e explicar fenômenos da televisão e da cultura popular brasileira. A partir do quinto vídeo, Felipe ampliou a equipe e se associou ao roteirista Fábio de Almeida, organizando a marca como negócio e não só como hobby.
Essa virada importa porque explica o método. O Nostalgia não nasceu como “canal de fofoca” nem como aula formal: nasceu da vontade de recontar o que formou uma geração — séries, desenhos, fatos históricos e curiosidades científicas — com ritmo de narrativa e visual de quem veio do motion design.
Canal Nostalgia: história, ciência e cultura pop em escala
Com o tempo, o Canal Nostalgia se consolidou como referência de conteúdo educacional no YouTube Brasil. Temas de história, ciência, cultura pop e atualidades passaram a conviver no mesmo catálogo, sempre com a assinatura de Castanhari na apresentação e na direção. Em marcos públicos do próprio canal e de coberturas da imprensa, o projeto chegou à casa dos milhões de inscritos e acumulou mais de um bilhão de visualizações ao longo da trajetória.
Em 2016, a Forbes Brasil o incluiu entre os trinta jovens mais promissores do país. Em dezembro de 2019, entrou no ranking do instituto QualiBest entre os maiores influenciadores digitais brasileiros. Os prêmios da época também o acompanharam: indicações a Meus Prêmios Nick e Prêmio Jovem Brasileiro em 2017, e ao MTV MIAW em 2018.
O canal também atravessou crises típicas da plataforma. Em 2014, strikes de estúdios americanos quase o derrubaram do ar por uso de trechos de obras em um vídeo sobre Os Simpsons. Houve apelo da comunidade e de outros criadores — entre eles nomes ligados ao universo nerd brasileiro — até a retirada das notificações. O episódio virou parte da biografia pública: a tensão entre fair use, entretenimento e direitos autorais no YouTube em português.
Em 2016, o vídeo sobre a ditadura militar brasileira gerou reação forte de segmentos da extrema-direita. Castanhari defendeu a tentativa de imparcialidade e, ao mesmo tempo, admitiu em entrevista ao Estado de S. Paulo que o material carregava pontos de vista pessoais. O caso ilustra o preço de levar história recente para um público massivo de adolescentes e jovens adultos.
Da TV à Netflix: Mundo Mistério e outras telas
Além do YouTube, Felipe transitou por televisão e streaming. Apresentou a série baseada no Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, no History Channel, em 2017 — produção da qual depois se distanciou publicamente, dizendo não ter tido controle editorial pleno e recusando a segunda temporada sem poder dirigir o conteúdo. Em 2018, comandou Castanhari Brasil na MTV e o documentário Onde Estão os Alienígenas?.
O marco de maior alcance veio em 4 de agosto de 2020, com a estreia de Mundo Mistério na Netflix: série educacional criada e apresentada por ele, com oito episódios que misturam dramaturgia e documentário para explorar mistérios de ciência e história — do Triângulo das Bermudas à peste bubônica, viagens no tempo e aquecimento global. A produção contou com elenco e convidados de peso na dublagem e na performance, entre eles Guilherme Briggs.
No cinema, apareceu em Internet — O Filme (2017) e em Turma da Mônica: Lições (2021). Em 2019, lançou o livro Almanaque Nostalgia pela editora Planeta, extensão em papel do universo que construiu no canal.
Como Castanhari se posiciona na divulgação e na internet brasileira
Felipe se encaixa no grupo de criadores que usaram o YouTube para levar ciência e história a quem não abre manual técnico. Ao lado de nomes como Átila Iamarino e Sérgio Sacani — cada um com recorte próprio —, ele ajuda a entender por que a audiência brasileira abraçou o formato de “aula com cara de vídeo”. A diferença do Nostalgia está no ponto de partida: memória afetiva e cultura pop como porta de entrada para fatos e contexto.
Há também o lado de marca pessoal e de empresa criativa. O contato profissional público do Instagram aponta para a Play9, e o ecossistema do canal mantém presença no Spotify, no Instagram, no Facebook, no TikTok e no X. Em 2020, no início da pandemia de COVID-19, convocou outros youtubers a ajudar a divulgar informação sobre o vírus — outro sinal de que a audiência o enxergava como ponte entre entretenimento e responsabilidade pública.
- Canal Nostalgia — principal obra audiovisual, no ar desde 2011, com foco em história, ciência e cultura pop.
- Mundo Mistério — série original da Netflix (2020), com oito episódios educacionais.
- Almanaque Nostalgia — livro de 2019 pela Planeta, com mais de quatrocentas páginas e ilustrações.
- Presença multiplataforma — YouTube, Netflix, Instagram, TikTok, Spotify e participações em TV e cinema.
O que buscar quando o assunto é Felipe Castanhari
Para quem chega agora, o caminho mais direto é o Canal Nostalgia no YouTube e a série Mundo Mistério na Netflix. As redes oficiais usam o handle @fecastanhari no Instagram, Facebook, TikTok e X. A biografia pública combina três camadas: o artesão de vídeo que veio do design, o apresentador que traduz temas densos sem jargão de academicismo vazio, e o criador que testou o limite entre humor, história e polêmica política no Brasil dos anos 2010 e 2020.
Felipe Castanhari não é só “o cara da nostalgia”. É um dos nomes que provaram que conteúdo educacional em português pode competir em escala com o entretenimento puro — e que a memória da infância, bem editada, ainda é uma das portas mais eficientes para curiosidade, estudo e conversa pública.



