Antes de virar o microfone que o Brasil inteiro ouve em dia de Major, Alexandre Borba Chiqueta já tinha fundado time, virado técnico de MIBR e se afastado dos esports — e voltado do fundo do poço com uma live na Twitch. O apelido Gaules não nasceu de um branding de marketing: nasceu na lan house do Tatuapé e atravessou duas décadas de Counter-Strike brasileiro.
Quem digita o nome hoje quer saber quem é o streamer por trás da “tribo”, como ele chegou ao topo da Twitch e o que liga o jogador dos anos 2000 ao presidente de time na Kings League. O perfil abaixo junta origem, virada digital, transmissão e projetos públicos com o que é confirmável em fontes abertas.
Quem é Gaules
Alexandre Borba Chiqueta nasceu em 2 de dezembro de 1983, em São Paulo. Streamer, youtuber, ex-jogador e ex-treinador de Counter-Strike, ele se tornou um dos maiores nomes de transmissão ao vivo do Brasil ao comentar partidas e manter canal quase permanente na Twitch.
A marca pública gira em torno da comunidade que ele chama de tribo: audiência de CS, de esportes e de conversa longa. Além do streaming, Gaules aparece em parcerias de transmissão com ligas e emissoras, em ações filantrópicas documentadas pela imprensa e como presidente do g3x FC na Kings League Brasil.
Lan house, g3nerationX e a escola do competitivo
No começo dos anos 2000, ainda adolescente, Gaules frequentava a lan house Monkey Tatuapé. Queria entrar no time principal, pediu vaga com insistência e, depois de ser colocado em um elenco júnior, montou o próprio caminho. Em 27 de julho de 2001 fundou a g3nerationX (g3x) com companheiros da mesma lan — núcleo que disputaria seletivas nacionais e voos internacionais.
Com a g3x, chegou à final mundial da World Cyber Games em Seul na posição de 7º–8º lugar e viveu uma fase de domínio no cenário brasileiro de Counter-Strike 1.6. Títulos como LatinCup (2004), WCG Brasil (2005) e CPL World Season 2006: Brazil marcaram a organização. A bagagem de líder de time, e não só de rifler, já apontava o papel que ele assumiria depois: organizar, treinar e puxar estrutura.
MIBR, DreamHack e o papel de treinador
Em 2007, a g3x migrou para a MIBR em um arranjo que uniu rivais históricos. Gaules chegou a ceder a própria vaga de jogador titular para reforçar o elenco e assumiu a função de treinador — movimento que ele e a imprensa de esports associam à profissionalização do cargo no Brasil.
Na DreamHack Winter 2007, a MIBR foi campeã invicta. O time ainda disputou a seletiva BYOC com máquinas alugadas e espaços apertados antes da chave principal: detalhe que virou parte da narrativa pública da conquista. Pouco depois, Gaules se afastou do competitivo de ponta para estagiar e trabalhar na Samsung, na área de informática, ainda formando-se em marketing.
Saída, volta aos esports e o colapso de 2017
Na Samsung, ajudou a articular parcerias e patrocínios ligados a games. Depois de acompanhar a delegação brasileira na WCG 2010, deixou a empresa e voltou ao mercado de esports com projetos como a Seleção Brasileira de Games, a Brazil Gaming League e a Mega Arena X5 — frentes de organização, produção e evento.
Em 2017, afastado de sócios e de estabilidade financeira, enfrentou depressão severa e tentou o suicídio em dezembro daquele ano. O episódio é público: ele mesmo o narrou em entrevista à ESPN e virou ponto de partida da retomada. Sem emprego, sem moradia estável e com poucos apoios, pediu ajuda a velhos companheiros da g3x e decidiu transmitir na Twitch “como quem vai morrer no dia seguinte”.
Twitch, tribo e o salto de audiência
A partir de 2018, o canal de Gaules deixou de ser gambiarra de sobrevivência e virou referência de CS em português. A ESPN o chamou de maior fenômeno da Twitch brasileira daquele período. Em 2019, entrou no top 10 mundial de streamers mais assistidos da plataforma; em 2020, chegou a ser o segundo mais assistido do mundo em minutos totais, atrás de xQc, e quebrou sucessivos recordes de espectadores simultâneos em transmissões de ESL e BLAST — picos reportados na casa das centenas de milhares.
O formato mistura narração de campeonatos, reruns, jogos variados e presença quase 24 horas. A “tribo” virou identidade: comunidade que acompanha Major, futebol e conversa, e que ele descreve publicamente como rede de apoio mútuo. Em 2020 venceu o Prêmio eSports Brasil como Melhor Streamer e Personalidade do Ano; depois acumulou prêmios e indicações em iBest, Cubo de Ouro e até The Game Awards (Criador de Conteúdo do Ano, indicação em 2021).
- Twitch: canal principal de lives e retransmissões de Counter-Strike e esporte.
- YouTube: cortes, gameplays e arquivo da casa de CS em português.
- Comunidade “tribo”: base de fãs e linguagem própria do canal.
- Transmissões oficiais: parcerias com ESL, DreamHack, Globo, NBA, Fórmula 1 e futebol estadual em diferentes fases.
Além do CS: NBA, F1, futebol e parcerias
Gaules não ficou preso ao servidor de dust2. Em 2021 foi anunciado como o primeiro a realizar transmissões oficiais da NBA na Twitch no recorte brasileiro e, no mesmo ano, transmitiu corrida de Fórmula 1. Em 2022 fechou acordo para jogos do Campeonato Carioca e, no ecossistema de streaming esportivo, dividiu a atenção do público com nomes como Casimiro Miguel em noites de futebol na web.
No mesmo período, entrou no time de atletas e players da Red Bull, foi head de gaming do KaBuM! e manteve renovações de contrato com a Twitch — inclusive com ação promocional na Times Square em 2021. Há também o podcast Fenômenos, lançado com Ronaldo Nazário, com convidados do esporte e do entretenimento (incluindo nomes como Neymar na programação anunciada).
g3x FC, filantropia e o que ele representa hoje
A marca g3x voltou no futebol 7 da Kings League Brasil com o g3x FC, time do qual Gaules é presidente ao lado de Kelvin. O projeto reúne a lógica de comunidade do streaming com competitividade e espetáculo de arena — extensão natural de quem já construiu organização de esports nos anos 2000.
Na filantropia, a imprensa registrou doações e lives beneficentes durante a pandemia de COVID-19 (incluindo valores ligados a recorde de audiência e repasses a projetos como a CUFA), ações com Greenpeace e SOS Pantanal, e arrecadações pontuais para crises regionais. O fio comum é o uso da live como caixa de ressonância: audiência alta, chamada direta, prestação de contas em rede.
Hoje, buscar Gaules é buscar o elo entre o CS clássico brasileiro e a cultura de streaming de massa. Jogador que virou técnico, técnico que virou empresário de eventos, empresário que recomeçou no quarto com webcam — e transformou a retomada em uma das maiores audiências de live do país.




