Heródoto Barbeiro chegou ao jornalismo pela sala de aula. Formado em História pela Universidade de São Paulo, ele lecionou a disciplina antes de assumir microfones e bancadas que o tornariam uma das vozes mais reconhecíveis do rádio e da televisão brasileira. A trajetória começou na TV Gazeta e na Jovem Pan, passou pela criação da CBN e por 17 anos na TV Cultura, onde apresentou o Roda Viva em duas temporadas. Hoje, aos 80 anos, mantém uma rotina que combina o Jornal Novabrasil São Paulo, uma coluna diária no R7 e o canal Por Dentro da Máquina, no YouTube.
Quem busca o nome dele pode estar atrás de coisas diferentes: a voz que acompanhou gerações no rádio, o mediador de entrevistas políticas, o professor que explica direito e economia no cotidiano ou o autor de livros sobre comunicação e budismo. Essas facetas não são carreiras paralelas. Elas vêm do mesmo hábito, o de partir de uma pergunta concreta e responder com contexto histórico, sem supor que o interlocutor já conhece o assunto.
Da sala de aula ao microfone
Heródoto de Souza Barbeiro nasceu em São Paulo, em 28 de março de 1946, e cresceu no Parque Dom Pedro II, na região central da cidade. Formou-se em História pela USP, onde também fez licenciatura, pós-graduação e mestrado. Lecionou História contemporânea na própria universidade e no Colégio Objetivo. Depois, cursou Direito na FMU e Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero.
A sala de aula veio antes da redação, mas nunca saiu de cena. Colegas de trabalho costumam chamá-lo de professor, e a didática ficou como marca de uma carreira que também passou pelo ensino superior: ele é professor emérito da ESPM. A experiência de explicar processos históricos longos para alunos de diferentes idades ajudaria, mais tarde, a traduzir política, economia e direito para o público do rádio e da televisão.
Na televisão, a estreia aconteceu em meados dos anos 1970, na TV Gazeta, com o programa Show de Ensino, que unia jornalismo e aulas. A passagem pela Jovem Pan veio em seguida, junto com a exigência do diploma de jornalismo. Em 1991, ele participou da criação da CBN, onde foi âncora e gerente de jornalismo do Sistema Globo de Rádio.
CBN, TV Cultura e o Roda Viva
Foi na TV Cultura que Heródoto Barbeiro se tornou uma presença nacional. Ele passou 17 anos na emissora e apresentou o Roda Viva em dois períodos: entre 1994 e 1995 e, novamente, entre 2009 e 2010. No intervalo, comandou o Opinião Nacional, de 1995 a 1999, e o Jornal da Cultura, de 1999 a 2009.
O Roda Viva é um dos programas de entrevista mais antigos da televisão brasileira, e a passagem por ele em duas décadas diferentes mostra como o jornalista acompanhou mudanças no formato e no debate público. A bancada do Jornal da Cultura, por sua vez, colocou-o diante de uma rotina de análise diária, na qual era preciso organizar os fatos do dia e dar sentido a eles em poucos minutos.
A experiência no rádio correu em paralelo. Na CBN, ele apresentou o Jornal da CBN por quase duas décadas, de 1991 a 2010, e também comandou o Mundo Corporativo, programa voltado a temas de gestão, carreira e comunicação empresarial. Essa convivência entre noticiário geral e pauta corporativa ajudaria a explicar a ponte que ele faria depois entre jornalismo e treinamento de porta-vozes.
Record News e a fase atual na NovaBrasil
Em janeiro de 2011, Heródoto deixou a CBN e a TV Cultura para assumir a bancada do Jornal da Record News. Na emissora, foi âncora e editor-chefe do telejornal até 2020. A mudança marcou uma nova etapa: depois de anos em uma emissora pública e em uma rádio de notícias, ele passou a comandar um noticiário nacional em uma rede privada, com outro ritmo de produção e outra relação com o horário nobre.
Desde 2021, ele está na NovaBrasil FM. Em janeiro de 2026, a emissora anunciou a ampliação do trabalho dele na grade: Heródoto segue à frente do Jornal Novabrasil São Paulo, passa a assinar uma coluna diária na edição nacional do jornal e comanda o TH+ Entrevista, programa exibido também nas televisões do Grupo Thathi. A novidade veio junto com a volta do âncora Mauro Tagliaferri e a unificação do noticiário nacional da rádio.
A rotina atual mantém o rádio como centro. É ali que ele faz a leitura diária dos fatos, recebe entrevistados e comenta política e economia. A diferença em relação aos anos 1990 está no alcance: o programa que vai ao ar pelas 15 praças da rede também pode ser acompanhado pelo aplicativo, pelo site da emissora e pelo canal de jornalismo no YouTube.
A coluna no R7 e o canal Por Dentro da Máquina
No portal R7, Heródoto Barbeiro mantém uma coluna com textos quase diários. Em outubro de 2026, os assuntos iam de mudança de fachada de condomínio e renegociação de dívida bancária a teto salarial de juízes, doação de sangue, juros no Brasil e número de deputados. O formato é de explicação: uma dúvida prática vira ponto de partida para contextualizar uma regra, uma instituição ou um debate público.
No YouTube, o canal Por Dentro da Máquina existe desde 4 de março de 2015. São 442 vídeos e cerca de 18,9 mil inscritos. O nome resume a proposta: mostrar como funcionam as instituições, o orçamento público, o Congresso, as eleições e os mecanismos do poder. Os vídeos costumam partir de uma pergunta do noticiário e recuar no tempo para explicar de onde vem a regra ou o conflito.
Essa mesma abordagem apareceu no II MidiaCom, em Campina Grande, em outubro de 2026. Ao lado de Milton Jung, Heródoto defendeu que ética, isenção, credibilidade e busca da verdade continuam sendo o centro do jornalismo, qualquer que seja a plataforma. Ele também afirmou que as redes sociais acabaram com o oligopólio da comunicação e que o rádio segue vivo porque é um veículo essencialmente auditivo.
Livros, budismo e media training
Heródoto Barbeiro é autor de dezenas de livros. A produção começa nos anos 1970, com obras didáticas de História, e atravessa manuais de jornalismo, comunicação corporativa, política e budismo. Entre os títulos mais conhecidos estão Falar para Liderar, Mídia Training, Manual de Jornalismo, O Budista e o Cristão, escrito com Frei Betto, e 100 Anos de Rádio no Brasil.
Em 2026, ele publicou Budismo: um modo de viver, pela Amarilys, com prefácio de Monja Coen, e Entre Gols e Votos, pela Harbra, escrito com Gustavo Korte e Walkiria dos Santos. No mesmo ano, lançou A arte de ser escolhido, com Fernando Vítolo, sobre comunicação em campanhas eleitorais. Os três livros saem em um intervalo de poucos meses e mostram frentes distintas: filosofia, comportamento político e comunicação profissional.
O budismo não é um tema periférico na vida dele. Praticante há mais de três décadas, Heródoto recebeu o título de monge leigo na tradição zen sōtō. A experiência aparece em obras como Buda, Mito e Realidade e O Budista e o Cristão, e ajuda a explicar por que ele trata temas como meditação, ética e impermanência sem separá-los da vida cotidiana.
Na comunicação corporativa, ele comanda treinamentos de media training para executivos e porta-vozes. A página oficial do serviço descreve sessões com entrevista de abertura, alinhamento de mensagem-chave, palestra sobre relação com a mídia, simulação de entrevistas e gravação para feedback. Entre as empresas que já contrataram o treinamento estão Honda, Jacto, GM, Banco do Brasil e Santander. O trabalho é uma extensão prática dos manuais que ele publicou.
Reconhecimento
Ao longo da carreira, Heródoto recebeu o Prêmio Líbero Badaró de Jornalismo, em 1992, o Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo, em 2001, e a Ordem do Mérito Militar, no grau de Cavaleiro especial, em 2004. Também acumula prêmios da APCA e do Comunique-se.
Uma trajetória em datas
- 1946 — nasce em São Paulo, no Parque Dom Pedro II;
- anos 1970 — começa na TV Gazeta e na Jovem Pan;
- 1991 — participa da criação da CBN;
- 1994-1995 e 2009-2010 — apresenta o Roda Viva;
- 1999-2009 — comanda o Jornal da Cultura;
- 2011-2020 — é âncora e editor-chefe do Jornal da Record News;
- 2021 — chega à NovaBrasil FM;
- 2026 — amplia o trabalho na NovaBrasil e publica novos livros.
Por que ele continua sendo buscado
Aos 80 anos, Heródoto Barbeiro não depende de uma única mídia. Ele está no rádio todas as manhãs, escreve para o portal do R7, grava vídeos para o YouTube e mantém uma agenda de palestras e treinamentos. Quem acompanha o trabalho dele em uma dessas frentes costuma encontrá-lo nas outras com o mesmo repertório de historiador e a mesma disposição para explicar o que está por trás da notícia.
Para quem quer entender a política brasileira, o funcionamento das instituições ou a relação entre mídia e poder, a trajetória dele oferece uma porta de entrada incomum. Não se trata apenas de um apresentador que leu muito sobre história. Trata-se de alguém que ensinou história antes de narrá-la no rádio e que continua usando a mesma ferramenta: contexto antes da opinião, explicação antes do comentário.




