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Jorge Nunes

Jorginho

Nascimento: 1950 Rio de Janeiro, RJ
Radialista e comentarista esportivo, Jorge Nunes marcou o rádio carioca como “o comentarista do povo” ao unir humor, linguagem simples e paixão pelo Vasco na Rádio Tupi e no Balanço Esportivo.

Jorge Nunes ficou marcado pelo bordão “Ah, moleque!”, mas foi a mistura de humor, análise direta e intimidade com o torcedor que fez dele uma das vozes mais lembradas do rádio esportivo carioca. Nascido no Rio de Janeiro em 16 de março de 1950, ele construiu uma carreira que atravessou décadas de transmissões, passou por jornais, emissoras de rádio e programas de televisão e terminou reconhecida pelo apelido que virou marca: o comentarista do povo.

A trajetória de Jorge Nunes ajuda a entender um período em que o rádio ainda era a principal companhia de quem acompanhava futebol. Ele não se tornou conhecido por uma análise tática sofisticada, mas pela capacidade de traduzir o jogo para quem estava em casa, na fila do ônibus ou no boteco. Essa escolha de linguagem o aproximou de um público que se via representado nas piadas, nas expressões populares e no jeito de tratar o futebol como conversa.

Do Sampaio ao microfone

Jorge Nunes foi criado no bairro do Sampaio, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Na infância, narrava jogos de botão imitando o locutor Waldir Amaral. O sonho de trabalhar com comunicação veio antes da faculdade: ele se formou em Jornalismo pela Universidade Gama Filho, mas já tinha passado por outros ofícios antes de viver do microfone.

Entre 1969 e 1990, trabalhou na Light, a companhia de energia do Rio. Foi funcionário da empresa quando começou a comentar partidas de futebol de salão, em emissoras como a Rádio Mauá e a Rádio Tropical. A primeira oportunidade teria vindo do narrador Garcia Júnior. A estreia em um nicho menor, o futsal, não impediu que o comentarista ganhasse espaço: a linguagem solta chamou atenção e abriu caminho para o futebol de campo.

A coluna em O Povo e o apelido que pegou

Antes de chegar à Rádio Tupi, Jorge Nunes escreveu uma coluna esportiva no jornal carioca O Povo. Foi ali que o apelido ganhou corpo. O texto simples, próximo da conversa de arquibancada, rendeu a ele o título de “comentarista do povo”, expressão que depois passou a acompanhar sua atuação no rádio. A coluna também ajudou a construir uma reputação fora do microfone, ligada à escrita e ao contato com o público.

O apelido não era apenas um rótulo vazio. Ele resumia uma escolha editorial: falar de futebol sem afastar quem não entendia de esquema tático, sem abandonar o repertório de quem acompanha o esporte de perto. Jorge Nunes usava expressões como “Inês é morta” e “casa da mãe Joana”, além de piadas recorrentes com profissões como cientista político. O humor funcionava como porta de entrada para a análise, não como substituto dela.

Rádio Tupi, televisão e a rotina no microfone

Na Rádio Tupi, Jorge Nunes participou de programas como Giro Esportivo, Bola em Jogo e Show da Manhã, além de outras faixas da emissora. A rotina era intensa: o comentarista aparecia em diferentes faixas da programação, do começo da manhã aos domingos, e se tornou uma presença familiar para os ouvintes cariocas. Em 2013, ele revelou que chegou à Tupi como quinto comentarista e que precisou de uma oportunidade para se firmar. O reconhecimento veio depois de um período discreto na emissora.

A televisão também fez parte da carreira. Jorge Nunes participou do programa Debate Esportivo, na antiga TVE, no fim dos anos 1990; do Rio por Inteiro, na Record Rio, em 2002; do Esporte Mix, na Band, em 2003; e do Balanço Esportivo, na CNT, ao lado de Edilson Silva, Maurício Menezes e Ronaldo Castro. Na CNT, o comentarista levou para a bancada o mesmo estilo que o público ouvia no rádio, com piadas e observações fora do script.

O estilo que aproximou o rádio do torcedor

Jorge Nunes era torcedor declarado do Vasco da Gama, e essa paixão aparecia nas conversas e nas brincadeiras. Fora do ar, mantinha hábitos simples. Frequentava a Pelada dos Vagabundos, encontro de jornalistas esportivos realizado nas manhãs de segunda-feira, na Tijuca. Também era visto em conversas de rua no Bairro de Fátima, onde ficava a Rádio Tupi. O irmão, Maurício Nunes, também teve ligação com o futebol: foi treinador de equipes de base do Vasco.

O jeito brincalhão convivia com uma generosidade discreta. Colegas lembram que ele ajudava estagiários e profissionais iniciantes, passando informações e abrindo espaço para quem estava começando. A simplicidade no trato era a mesma que aparecia no microfone: Jorge Nunes não tentava parecer mais importante do que o assunto que comentava. Essa combinação de humor, acessibilidade e conhecimento do futebol carioca explica por que o apelido “comentarista do povo” sobreviveu ao fim de sua carreira.

Algumas marcas do estilo de Jorge Nunes ajudam a entender sua presença no rádio:

  • O bordão “Ah, moleque!”, usado como reação a lances e como saudação ao ouvinte.
  • A preferência por expressões populares, como “Inês é morta” e “casa da mãe Joana”.
  • O hábito de levar o humor para a análise, sem abandonar a leitura do jogo.
  • A proximidade com o torcedor comum, inclusive nas brincadeiras sobre o Vasco.

Os últimos anos e a memória do comentarista do povo

No fim de 2013, Jorge Nunes se afastou das transmissões por problemas de saúde. Ele morreu em 31 de janeiro de 2014, aos 63 anos, no Rio de Janeiro, em decorrência de complicações de uma tuberculose. Ele estava internado no hospital da Unimed-Rio, na Barra da Tijuca. O velório, no Cemitério do Catumbi, reuniu colegas, ouvintes e admiradores. Ele deixou a esposa Kátia Fernandes, conhecida pelos ouvintes como Katinha, e a filha Paula.

A repercussão da morte mostrou o tamanho que o comentarista havia alcançado. Em 2016, o programa Câmera Tupi dedicou sua estreia a Jorge Nunes, com depoimentos e histórias sobre a passagem dele pela emissora. O título de “comentarista do povo” continuou sendo usado por jornalistas e fãs, sinal de que o apelido não dependia mais do jornal em que nasceu.

A carreira de Jorge Nunes também ajuda a situar a passagem do rádio esportivo para a televisão. Enquanto Galvão Bueno se consolidava como narrador na TV, Jorge Nunes se firmava como comentarista de rádio, mais próximo do torcedor que queria entender o jogo sem formalidade. Os dois nasceram no Rio de Janeiro em 1950 e seguiram caminhos diferentes dentro da mesma cobertura esportiva.

Hoje, o nome de Jorge Nunes aparece em reportagens sobre a história do rádio carioca e em homenagens de colegas. A lembrança mais forte, porém, é a de um comentarista que tratava o futebol como conversa de bar, sem perder o respeito pelo ouvinte. É esse jeito que explica por que, mais de uma década depois de sua morte, o bordão “Ah, moleque!” ainda é associado a ele.

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