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Mila Moreira

Marilda Alves Moreira da Silva

Nascimento: 1946 São Paulo, SP / Rio de Janeiro, RJ
Marilda Alves Moreira da Silva ficou conhecida como Mila, modelo da Rhodia e atriz da Globo de Marron Glacê (1979) a A Lei do Amor (2016).

Em 1960, numa AABB de São Paulo, um concurso do jornal Última Hora interrompeu uma tarde de patins. O regulamento pedia 16 anos. Marilda Alves Moreira da Silva tinha 14, morava perto da Estação da Luz e entrou mesmo assim: a prima garantiu que ela não ganharia. Eram 236 candidatas. Mila Moreira saiu Miss Luzes da Cidade, com uma viagem a Nova York de prêmio e um nome que não era o de batismo.

Quem procura Mila hoje quase sempre quer encaixar duas carreiras que, na época, não conversavam. Primeiro a manequim da Rhodia, reconhecida pelo furinho no queixo nos desfiles da Fenit. Depois a atriz que a TV Globo passou a escalar como mulher elegante, socialite, modista ou agenciadora. A ponte entre as duas foi estreita: um júri improvisado no programa do Chacrinha e um autor, Cassiano Gabus Mendes, que já a conhecia de família.

Por que Marilda virou Mila

Ela nasceu em 18 de maio de 1946, na capital paulista, filha de imigrantes portugueses. O pai, tratado nas entrevistas como Senhor Moreira, tocava um hotel pequeno que hospedava mascates. A mãe, dona Ilda, cuidava da casa. Marilda não gostava do próprio nome. Contou ao Globo que viviam perguntando se era parente do Kid Morengueira. O apelido Mila veio do romance Mila 18, de Leon Uris, e foi esse o nome que entrou na ficha de modelo e, anos depois, na abertura das novelas.

O concurso não foi um plano de carreira. O Globo reconta a cena com as palavras dela: a vizinha a levou para patinar, o júri reunia jornalistas, o estilista Dener e a figurinista Maria Augusta, e o abraço das pessoas avisou o resultado antes de qualquer discurso. Dois anos depois ela já estava no time da Rhodia. A Folha registra que, aos 14, ela se passou por maior de 16. O passaporte da fama, nesse caso, começou com uma idade emprestada.

Rhodia, Fenit e a agência que não vingou

Na Feira Nacional da Indústria Têxtil de 1963, Mila desfilou pela Rhodia ao lado de Ully e Mailu, com roupas de Clodovil Hernandes e de Dener, coreografia de Ismael Guiser. O mesmo grupo mostrou coleção no Mappin. A tecelagem usava aquelas passarelas para vender fio sintético como moda, não como substituto barato de tecido. Quem hoje percorre nomes da moda brasileira daquela década encontra o mesmo circuito: empresa, estilista, manequim e revista no mesmo palco.

O Globo anotou que, no auge, ela chegou a estampar 70 capas de revista em um ano. Em entrevista, Mila falou de fotografar na Itália, no Japão, no Líbano e em Portugal, e de voltar para desfilar pelo Brasil. A mãe, desconfiada da profissão, foi junto numa das primeiras viagens e só então aceitou o ofício. Ficou cerca de onze anos na Rhodia. Por volta dos 27, ela mesma se descreveu como velha para a passarela.

A saída não foi imediata para a televisão. Com a modelo Ully, montou uma escola de manequins no Rio de Janeiro. Em 1974, ao lado do fotógrafo Luiz Tripolli, abriu uma agência. Ela descreveu o negócio, em entrevista à Folha, como a primeira agência de modelos do Brasil. Ninguém levou a sério. O Globo registra que a sociedade não segurou. Veio um período fora e, no fim da década, um relacionamento em Chicago que ela encerrou antes de voltar.

Do Chacrinha para Marron Glacê

Cassiano Gabus Mendes era casado com a irmã de Luis Gustavo, ator com quem Mila tinha sido casada entre 1971 e 1973. No retorno ao Brasil, em 1979, Cassiano arranjou para ela um trabalho de produtora na Rede Bandeirantes. No mesmo ano, entrou às pressas como jurada substituta num programa de Chacrinha. Cassiano viu o vídeo e a chamou para Marron Glacê, novela dele na Globo.

Érica Bertioga Santana era secretária da personagem de Yara Cortes: jovem, viúva, paixão do garçom Nestor, de Armando Bógus. Na abertura, o crédito saiu só como Mila. Ela contou depois, no Vídeo Show, o clima da estreia: não era comum modelo fazer televisão, e a expectativa de parte dos colegas era a de esperar para criticar. A frase dela compara o olhar da época ao de quem acha que a novata rouba vaga de quem estudou para ser atriz. O teste, descreveu à Folha, a fez tremer do fio de cabelo até o dedão do pé. Saiu contratada.

O tipo elegante, e a hora em que ele rachou

Cassiano a reconvocou quase como elenco de casa. Em Plumas e Paetês (1980), escrita com Sílvio de Abreu, Dorinha era a modelo mais experiente, mentora das mais novas e apoio de Marcela, de Elizabeth Savala. Em Elas por Elas (1982), Marlene era uma das sete amigas do núcleo central, ao lado de Eva Wilma, Aracy Balabanian, Esther Góes, Sandra Bréa, Maria Helena Dias e Joana Fomm. Em Champagne (1983), Fernanda era a interesseira que não conseguia fisgar o solteirão de Nuno Leal Maia. A parceria seguiu em Que Rei Sou Eu? (1989), como a aia Zmirá, em Meu Bem, Meu Mal (1990), como a secretária Bianca Paiva, e em O Mapa da Mina (1993), a última novela de Cassiano, no papel de Carlota.

Houve desvios de emissora no meio do caminho. Em 1983 fez Luba, modelo de alta-costura, em Sabor de Mel, de Jorge Andrade, na Bandeirantes. Em 1986 foi Íris Prado Veiga em Mania de Querer, na Manchete. De volta à Globo, o figurino de mulher chique continuou a caber: Cristina, a decoradora de Corpo a Corpo (1984); a socialite Mumu de Bambolê (1987); Carla, em A Próxima Vítima (1995); Marilu, a fofoqueira da piscina em Anjo Mau (1997); Grace, gerente de boutique em Sabor da Paixão (2002).

O tipo rachou em papéis tardios, e é aí que a ficha de “sempre a rica” fica incompleta.

  • Urânia, em Ciranda de Pedra (2008): trambiqueira, presidente do grêmio da Vila Mariana, em guerra com Memé.
  • Stela Sanches, no remake de Ti Ti Ti (2010), de Maria Adelaide Amaral: personal stylist e colunista da Revista Moda Brasil. Na versão de 1985, Mila tinha aparecido como ela mesma.
  • Miriam, em O Astro (2011): namorada de Adolfo, de Reginaldo Faria, dona de um cassino que a polícia fecha.
  • Gigi Ferreira, em A Lei do Amor (2016): ex-modelo e sócia da agência em que a protagonista começa. Foi o último trabalho dela na televisão.

No cinema, o rastro é mais curto e menos comentado do que a novela. Fez Tigrana em Os Saltimbancos Trapalhões (1981) e The Queen em Dias Melhores Virão (1989). Em 2016 apareceu como ela mesma no documentário Arte na Moda: Coleção MASP Rhodia. Lenita, outro documentário em que entra como ela mesma, saiu em 2023, depois da morte.

O que ela dizia da própria vida

Os casamentos públicos estão datados e não pedem romance de arquivo. Luis Gustavo, de 1971 a 1973. Um engenheiro paulista, de 1974 a 1977, sem nome publicado nas biografias de referência. O designer austríaco Hans Donner, de 1983 a 1986. João Carlos Balaguer, de 1999 a 2005, pai da atriz Joana Balaguer. Entre os namoros que ela mesma citava estão o produtor Ronaldo Bôscoli, no auge da bossa nova, o ator Gracindo Júnior e o ator Eduardo Conde. Em entrevistas, repetia que mantinha amizade com os ex.

Não teve filhos. A explicação que deu é prática: trabalhava demais, viajava demais e, na época, não se sentia segura na relação nem no dinheiro. Em 1982, aos 36 anos e no ar em Elas por Elas, disse ao Globo que ser feliz era estar viva e que o resto acontecia. Na mesma conversa, afirmou que não tinha feito faculdade e que só se formara em contabilidade. Obituários de 2021 passaram a chamá-la de formada em psicologia, sem curso, cidade ou diploma localizáveis. As duas frases continuam no noticiário. Nenhuma das duas vem com documento.

A última semana

Morreu na madrugada de 6 de dezembro de 2021, aos 75 anos, internada no Hospital CopaStar, em Copacabana. O hospital confirmou a morte ao Globo e disse que não tinha autorização para detalhar o quadro. A Folha registrou, por pessoa próxima da família, uma gastroenterite em Paraty antes da internação de emergência. O velório foi no Cemitério Memorial do Carmo, no Caju. Naquela semana, a coluna da Folha anotou que ela se preparava para uma homenagem de um estilista belga em São Paulo e para passar o Réveillon em Nova York.

O contrato com a Globo, ela explicou em 2016, já não era fixo: era por obra. A frase que deixou nessa entrevista cabe melhor do que qualquer elogio póstumo. Tinha encontrado, disse, uma profissão para a vida inteira. O último papel televisionado, Gigi, era justamente uma ex-modelo dentro de uma agência. A carreira fechou no mesmo ofício em que tinha começado, só que do outro lado do camarim.

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