Feliz Ano Novo é o livro que a ditadura tentou tirar de circulação e, ao fazer isso, cravou na memória pública. Lançado em 1975, o volume de contos foi proibido em 15 de dezembro de 1976 por despacho do ministro da Justiça Armando Falcão, sob a alegação de matéria contrária à moral e aos bons costumes. Exemplares foram apreendidos. O texto só voltou a circular em 1989, depois de o autor vencer a União na Justiça.
O conto que dá nome ao livro é o cartão de visitas mais cruel da obra: um bando invade a festa de réveillon da classe alta. Entediados, armados, drogado o humor, eles transformam a virada do ano em carnificina. Não há redenção. Não há pedagogia. Há a frase nua de quem olha a desigualdade brasileira e recusa eufemismo.
Por que este livro ainda é o primeiro da fila
Porque junta três coisas que o leitor busca ao mesmo tempo: a linguagem direta de Fonseca, o retrato de classe e o episódio histórico da censura. Não é “o livro proibido” como fetiche. É o livro em que a prosa brutalista — o rótulo que Alfredo Bosi usou naquele mesmo ano — aparece inteira. Contos como os de “Passeio Noturno” mostram o avesso simétrico da invasão: o homem rico que sai de carro à noite para atropelar gente desconhecida, como alívio de rotina.
A censura leu obscenidade. O que o volume realmente expõe é a continuidade entre o crime da rua e o crime do condomínio. Pobres e ricos, no Rio de Fonseca, compartilham o vazio e a brutalidade; só muda o endereço. Essa tese não vem em ensaio. Vem em cena.
Para quem faz sentido
- Quem quer o ponto de entrada mais citado da obra, inclusive em leitura escolar e universitária.
- Leitores de conto contemporâneo que suportam violência explícita sem anestesia narrativa.
- Quem pesquisa ditadura, censura e literatura brasileira dos anos 1970 a partir do texto, não do resumo.
- Quem já ouviu o nome e precisa de um único objeto para decidir se segue.
O processo, o retorno e a edição de agora
Fonseca não engoliu a apreensão em silêncio. Acionou a União por perdas materiais e danos morais. O litígio atravessou a década de 1980 e terminou com condenação do Estado e volta do livro às livrarias em 1989. Esse fato importa para a leitura: o volume que se compra hoje carrega a história da interdição, mas o texto não precisa dela para funcionar. Funcionava em 1975. Continua funcionando porque a fratura que descreve não foi arquivada.
A edição da Nova Fronteira em circulação é a rota natural para o leitor em português do Brasil. Há outras capas e coleções; o que muda é o objeto, não a obra. Uma edição integral basta. Quem quiser o autor em dose ainda mais raivosa segue para O Cobrador. Quem quiser o fôlego de romance segue para Agosto. Este volume resolve a pergunta “por onde começar o conto”.
Como ler sem transformar em lenda
Leia o conto-título, mas não pare nele. O livro ganha força no conjunto: a festa invadida, o atropelamento noturno, a linguagem de quem recusa metáfora bonita para o que é feio. Se a expectativa for conforto de fim de ano, o título é armadilha. Se a expectativa for entender por que a literatura brasileira do século XX teve de passar por essa prosa para falar da cidade, o volume entrega exatamente isso — curto, denso, impossível de domesticar com moral da história.




