Flicts é uma cor que não encontra lugar. Nem no arco-íris, nem nas bandeiras, nem nas coisas pintadas do mundo. O livro de 1969 conta isso com pouquíssimas palavras e o máximo de cor — um poema gráfico, não um contão com começo, meio e fim de fábula escolar. Foi o primeiro livro infantil de Ziraldo, onze anos antes do Menino Maluquinho, e continua a ser o título que adultos descrevem como “o mais bonito” e crianças entendem sem precisar de explicação longa.
A pergunta que o solitário Flicts faz — “Eu posso ser seu amigo?” — é o gancho que segura o livro há mais de meio século. Quem compra hoje quase sempre quer a edição comemorativa de 50 anos da Melhoramentos, fac-similar à primeira, com a crônica de Carlos Drummond de Andrade no lançamento e comentários de Rachel de Queiroz, Millôr Fernandes e do primeiro editor, Fernando de Castro Ferro.
O que a história faz, sem enrolar
Flicts percorre o mundo em busca de um lugar. As outras cores já têm função, bandeira, fruto, céu, sangue, folha. Ele não encaixa. O desfecho — a lua — ficou marcado na cultura brasileira também por um fato extra-literário: a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil deu o livro aos astronautas da Apollo 11, e Neil Armstrong escreveu a Ziraldo: “A lua é Flicts.” A frase não inventa o livro; só confirma o que a última página já tinha desenhado.
Não há moral pregada em cartaz. Há exclusão, teimosia e um destino que não era o óbvio. Por isso o título atravessa faixa etária: a criança acompanha a cor; o adulto lê solidão e diferença. Em 2004, a edição italiana recebeu o prêmio Andersen da revista Andersen e da Libreria dei Ragazzi, de Milão. A edição comemorativa brasileira ganhou o Prêmio Especial Edição Comemorativa da FNLIJ.
Para quem e em que momento
A Melhoramentos indica a partir dos cinco anos. Funciona especialmente:
- como primeiro livro de Ziraldo para quem ainda não leu o Maluquinho;
- em sala de aula, quando o tema é cor, diferença ou pertencimento;
- como presente de objeto — a edição de 50 anos é livro-álbum, não folheto;
- para adulto que quer o Ziraldo artista gráfico, não só o autor do menino com panela.
Não é livro de capítulo. É leitura de uma sentada, com as páginas grandes pedindo mesa, colo ou chão. Quem espera diálogo de gibi ou reviravolta de aventura pode achar “pouco texto”. O pouco texto é o método.
Como esta edição se diferencia
A edição comemorativa de 50 anos, organizada com Adriana Lins e Guto Lins, reproduz a primeira edição e acrescenta o entorno histórico: Drummond, amigos, o editor original. Não é um remake nem uma reescrita. Quem já tem um Flicts antigo na estante pode querer esta pela documentação; quem nunca leu deve começar por ela, porque junta o livro e o contexto sem transformar a leitura num trabalho escolar.
Se a dúvida for Maluquinho ou Flicts, a diferença é de temperatura. O Maluquinho é rua, escola, confusão, tempo passando. Flicts é silêncio, cor e um personagem que não cabe. Os dois são Ziraldo. Só o segundo explica por que o cartunista político também é autor de um dos livros visuais mais duradouros da literatura infantil brasileira.





