Inclassificável: Memórias da Estrada nasceu de uma recusa. Uma editora grande não quis publicar o texto de Mel Fronckowiak porque achava difícil classificá-lo. Pedro Cézar, cineasta, poeta e surfista, tirou o título dessa negativa. A Rubra, selo então no começo, fez dela a primeira autora da casa. O livro saiu em 2013, no ano em que ela deixou a Record e encerrou o ciclo mais barulhento da carreira.
Não é autobiografia de estrela teen nem diário de gravação. A própria página da editora avisa que o registro não se pretende um diário de bordo. É uma elaboração sobre o que ela via na turnê da banda Rebeldes: cidade, sotaque, cansaço, plateia e o hábito de anotar no meio do deslocamento. Crônica e poema dividem as 96 páginas. Quem espera confissão de bastidor de novela vai achar outra coisa. Quem lê poesia curta e relato de estrada encontra o miolo do livro.
O que foi escrito no ônibus
Mel integrava Rebeldes, o grupo formado com o elenco de Rebelde, e passou cerca de um ano e meio entre câmera e palco. A turnê cruzou cerca de 40 cidades, com algo em torno de 70 shows. A cobertura da época fala de um ônibus colorido que chamava atenção na chegada. Foi nesse intervalo que ela escreveu. Em depoimento reproduzido no lançamento, disse que em cada lugar havia uma história, um sotaque e uma atmosfera, e que escrever foi o modo de lidar com isso. Quando as notas ganharam forma, virou livro.
O contexto ajuda a separar o título de um romance de estreia. Ela não estava numa mesa estável montando um enredo. Estava na mesma operação que levava seis integrantes de novela a shows para plateias adolescentes. A revista TPM, ao perfilar Mel, falou em apresentações de até 65 mil pessoas. O livro guarda esse trânsito, não a ficha da personagem Carla Ferrer.
Quem assina em volta do texto
O prefácio é de Dulce María, atriz e cantora mexicana do RBD e da versão mexicana de Rebelde. Dulce já tinha publicado Dulce Amargo, em 2008, sobre a própria turnê internacional. A escolha não é enfeite de celebridade: as duas escreveram a partir de estrada, plateia jovem e grupo musical nascido de novela. A orelha é de Pedro Cézar, o mesmo que sugeriu o título.
A ficha física, repetida pela editora e pelas notas de lançamento, é objetiva. Primeira edição, 2013. Brochura. 96 páginas. Formato 14 por 21 centímetros. ISBN 978-85-67107-00-4. Idioma português. A Rubra ainda mantém a página do título, com a sinopse que apresenta Mel como pelotense e o livro como estreia escrita durante a turnê.
Lançamento, pré-venda e a marca de 10 mil
A pré-venda começou em julho de 2013 pelo site da editora. Os 500 primeiros compradores receberiam exemplar autografado. Reportagens do lançamento falaram em mais de 4 mil exemplares vendidos só nessa etapa. O evento oficial foi em 24 de agosto de 2013, na Livraria Cultura do Shopping Fashion Mall, no Rio de Janeiro.
A turnê do livro não repetiu a turnê da banda, mas também saiu do eixo. O calendário publicado na época incluía Brasília, São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte, Porto Alegre na Feira do Livro, e passagens por Pelotas, Passo Fundo, Recife e Olinda, além da Fliporto Nova Geração e da Livraria Cultura do RioMar. Em novembro de 2013, o SRzd registrou a marca de 10 mil exemplares vendidos. É um número de época, não um total atualizado. Serve para mostrar que o título saiu do círculo imediato de fãs e circulou em livraria e feira.
Para quem o livro faz sentido
O leitor mais óbvio é quem acompanhou Rebelde e quer o outro lado da estrada, escrito por uma das seis vozes, sem transformar isso em biografia oficial do grupo. Há um segundo leitor, menos óbvio, que a resenha de lançamento no Skoob já apontava: gente que gosta de poesia e desconfia de livro de atriz. O volume é curto de propósito. Dá para ler numa sentada e ainda assim não funciona como brinde de turnê. A editora insiste na leveza e na rima no meio de uma experiência densa. Esse é o contrato público do texto.
- Proposta: crônicas e poemas da turnê, não memoir de celebridade.
- Origem: notas feitas em cerca de 40 cidades, ao longo de cerca de 70 shows.
- Edição: Rubra, 2013, 96 páginas, ISBN 978-85-67107-00-4.
- Vozes em volta: prefácio de Dulce María e orelha de Pedro Cézar.
- Onde achar: página da Rubra. Exemplares usados também aparecem em sebos.
Na carreira de Mel, o livro fica entre a saída da Record, em maio de 2013, e o contrato com a Band, em 2014, quando ela passa a se dedicar à apresentação. Não houve, no que está documentado, um segundo título para formar catálogo. Inclassificável continua sendo a obra escrita. Caçadora de Palavras, projeto que ela movia no Twitter para incentivar poesia entre jovens, e um verso emprestado à marca de camisetas Poeme-se mostram o mesmo interesse por palavra fora da página, sem virar outro livro.
Quem for atrás do exemplar deve tratar a página da Rubra como a rota da editora e conferir disponibilidade na hora. Sebo resolve parte da procura por um título de 2013 que não está numa prateleira permanente de best-seller. O que não muda é o conteúdo: 96 páginas de estrada, escritas por quem cantava de dia e anotava o que a cidade fazia com o grupo à noite.

