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Menino sem passado

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Memórias de Silviano Santiago (2021) sobre 1936–1948: Formiga, perda da mãe, gibis e cinema na infância mineira.

Menino sem passado não abre a vida pública do crítico. Cobre 1936 a 1948: Formiga, a morte da mãe quando o menino tinha um ano e meio, o pai, os gibis, o cinema, a cidade de trinta mil habitantes atravessada pela Segunda Guerra via papel impresso. Silviano Santiago publicou o volume em 2021 pela Companhia das Letras, com 464 páginas, como primeiro movimento de um projeto memorialístico anunciado em entrevistas.

O título já avisa o método. Sem a mãe, o passado familiar não se transmite em narrativa contínua. O que resta é acaso, imagem, filme, gibi — e a decisão tardia de escrever isso em prosa de memorialista, não de ensaísta.

O recorte e a matéria

O período vai do nascimento em Formiga à mudança para Belo Horizonte, em 1948. A perda da mãe é o tema dominante, dito pelo próprio autor em entrevista à Pesquisa FAPESP: a vida inicial foi acidentada, e o contato com arte — sobretudo cinema e histórias em quadrinhos — pesou mais do que o “real” da cidade pequena. Os gibis, mesmo os de qualidade duvidosa, viram fonte de mundo: a guerra chega a Minas pelo desenho e pela legenda, não pelo front.

Não é livro de fofoca intelectual nem de lista de mestres. Quase não há o Santiago professor. Há o menino que ainda não é o doutor da Sorbonne. Essa recusa de antecipar a glória é o que impede o texto de virar prefácio da biografia oficial.

Para quem este volume faz sentido

  • leitores já familiarizados com a ficção de Santiago que querem a infância sem tratar a obra como chave alegórica obrigatória;
  • quem estuda memórias, escrita de si e infância na literatura brasileira;
  • mineiros e leitores de Formiga e Belo Horizonte interessados no interior de Minas nos anos 1940;
  • quem prefere começar pelo chão biográfico antes de Em liberdade ou Stella Manhattan.

Como se relaciona com o resto da obra

O romance Machado olha o escritor no fim; Menino sem passado olha o autor no começo. Entre os dois há décadas de ensaio, campus e ficção. A memória de 2021 não “explica” Stella nem o entre-lugar. Oferece outra velocidade de frase, mais próxima do relato do que da tese. Quem lê os três movimentos — infância, arquivo apócrifo, velhice de Machado — vê o mesmo interesse pelo tempo da vida, não só pelo tempo da nação.

A edição da Companhia das Letras é a rota usual de compra no Brasil, em papel e digital na Amazon. Como nos demais títulos, o preço oscila e não entra aqui como dado fixo. Vale o aviso de gênero: são memórias, portanto recorte e composição, não ata cartorial da infância.

Quem abre o volume atrás da chave de Stella Manhattan ou do entre-lugar provavelmente se decepciona. O menino de Formiga ainda não é o professor de Buffalo. O ganho está justamente nisso: ver a prosa quando ela ainda conta rua, gibi e ausência, antes de virar conceito. O que o livro entrega, e entrega com clareza, é o chão mineiro de onde saiu o intelectual que depois recusaria o nacional como ponto de partida absoluto.

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Romance de Silviano Santiago (1985) com protagonista trans em Nova York, exílio e ditadura. Reedição da Companhia das Letras.
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Em liberdade
Em liberdade
Romance de Silviano Santiago (1981) em forma de diário de Graciliano Ramos após a prisão. Jabuti de romance; reedição de 2022.
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Machado
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Romance de Silviano Santiago (2016) sobre os últimos anos de Machado de Assis. Jabuti de Romance e Livro do Ano em 2017.
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