Não é o volume em que Augusto de Campos organiza a poesia posterior a Viva Vaia e a Despoesia — e recusa, já no título, o conforto de chamar aquilo de “poema” no sentido escolar. Publicado pela Perspectiva, reúne a produção de cerca de uma década, versões estáticas de clip-poemas digitais e um CD-ROM. Em 2005, a obra recebeu o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional como melhor livro de 2003. O prêmio descreve o objeto. Não explica o gesto.
O “não” atravessa a carreira: Poetamenos, Despoesia, o livrinho-xerox de 1990, o verso antigo da angústia “roendo um não de pedra”. Aqui a negação vira formato. Há poemas em cor e movimento, peças pensadas para a tela e para o papel quadrado. O livro não pede que o leitor “acompanhe o eu lírico”. Pede que aceite um anti-livro ainda preso à embalagem do livro — o próprio Augusto admitiu que o códice é embalagem inelutável, sobretudo para a poesia que trabalha na contramão.
O que muda em relação a Viva Vaia
Viva Vaia fecha 1979. Não trabalha o depois: a passagem do cartaz e do objeto para a animação, o holograma, o clip. O fotopoema de abertura, oútis, carrega datas longas (1953-2003) e uma recusa de assinatura: ninguém, o sem-nome. É um bom teste para o leitor. Se a expectativa for recitar estrofes, a página parece fechada. Se a expectativa for montagem, cor, intervalo e ironia com o próprio ofício de poeta, o volume começa a falar.
Há continuidade com o livrinho-xerox de 1990, edição particular feita depois da morte de Omar Guedes, parceiro de Expoemas. A edição Perspectiva amplia o gesto: o não-poema ganha cor, movimento e suporte digital, sem abandonar o papel. Por isso o CD-ROM não é extra de marketing. É a outra metade do livro, a que o offset não segura.
Para quem vale a pena
Faz sentido para quem já entendeu o programa concreto e quer a fase em que Augusto migra de fato para o digital. Faz sentido para quem pesquisa poesia visual brasileira do começo dos anos 2000. Faz menos sentido como primeiro contato — aí Viva Vaia ainda é o chão. Também não é biografia nem ensaio: o ensaio está em outros títulos, de Teoria da Poesia Concreta a Pagu Vida-obra.
O formato quase quadrado (cerca de 23 cm) avisa o corpo: isto se olha na mesa, não se esquece no bolso do paletó. A tetralogia depois se completa com Outro e Pós Poemas, todos pensados como objeto gráfico, não como miolo de romance. Quem compra Não compra um elo dessa cadeia, com a vantagem de reunir no mesmo objeto a página e o clip.
Limite honesto: edições com CD-ROM envelhecem no hardware. O que não envelhece é a tese do volume — a poesia de Augusto continua sendo um trabalho sobre o suporte. Se o computador do leitor não ler o disco, resta a sequência impressa, que já justifica a consulta. O movimento, quando acessível, só confirma o que a página já insinua.




