Nem Sofá, Nem Culpa é o livro em que Luisa Micheletti passa a assinar ficção com o nome do meio. Na capa da edição da Laranja Original está Luisa Cretella Micheletti. Quando o livro estreou, ela disse que o Cretella marcava um pedaço que a televisão não tinha entregue ao público.
A origem é o blog que a MTV pedia que as apresentadoras mantivessem. Crônica de ofício virou, por sugestão do editor, matéria de oficina. Durante cerca de um ano os textos foram retrabalhados até caber em conto. O que era relato ganhou distância, troca de pessoa e, num caso, um narrador que não é humano: um gato. A autora comentou que partiu dos próprios gatos e também de bichos de Franz Kafka e do gato de Edgar Allan Poe. Outro conto abre nas memórias de infância na Vila Ida. O conjunto, na edição de estreia, reúne sete contos e um posfácio.
Duas edições, um livro só
A primeira edição saiu em 2017 pela Touro Bengala, com lançamento na Plana, festival de publicações no prédio da Bienal, no Ibirapuera. Tinha pouco mais de cem páginas. Em 2018 a Laranja Original relançou o livro durante a FLIP. É essa edição, com o padrão visual da editora, que segue à venda na página da casa. Não são dois livros. São duas encadernações da mesma estreia, e a segunda é a que a editora ainda oferece.
O material de base, segundo a própria autora em entrevistas da época, veio de angústia, relação, viagem, desejo e encontro. Quase tudo foi ficcionalizado. Algumas experiências mudaram de dono dentro do texto. Ela descreveu o resultado como mais próximo de si do que a imagem de apresentadora, inclusive na parte esquisita, cinzenta, menos obrigada a ser simpática.
Para quem o livro serve
Não é romance de formação nem livro de memórias com nome de capítulo biográfico. É conto curto de uma estreante que já tinha anos de voz pública e quase nenhum livro. Quem compra por causa da MTV encontra outra dicção. Quem compra por causa da literatura encontra uma autora no primeiro degrau, ainda ligada ao que viveu, mas já filtrada por oficina e por edição.
O lançamento coincidiu com a entrada dela em Novo Mundo, em que viveu Noémie. Os dois trabalhos saíram juntos no calendário e não se explicam. A novela pedia uma bailarina francesa na corte. O livro pedia a pessoa que escrevia de madrugada a partir do blog. Ler um para entender o outro é o caminho errado. Os dois mostram só que 2017 foi o ano em que a atriz e a autora ocuparam o mesmo mês.
O que não esperar
- Não é a biografia da VJ nem o diário do camarim.
- Não repete, em forma de conto, o arco de Noémie ou de Luciana em Malhação.
- A edição à venda na Laranja Original é o relançamento de 2018, não a brochura da Touro Bengala de 2017.
Dentro da carreira, Nem Sofá, Nem Culpa é a porta da prosa. Soror, no ano seguinte, seria a porta do teatro autoral. Dentro do Outro, em 2020, a da poesia. São Paulo, Terra Encantada, em 2026, a do livro infantil. Este conto fica no começo dessa sequência, ainda perto do blog e já longe do clipe.


