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O manto da noite

Livro
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Romance de 2022 em que a Cordilheira dos Andes ganha voz e uma protagonista cruza o continente em busca de raízes, tempo circular e identidade.

O manto da noite abre com uma memória em trânsito: uma menina de três anos no avião, a Cordilheira nevada na janela, o espanhol como único idioma, e nenhuma certeza de destino. A Companhia das Letras reproduz essa imagem no material do livro, e ela não é só gancho. É o contrato do romance de 2022 em que Carola Saavedra transforma a cadeia de montanhas em personagem e a busca por raízes indígenas numa travessia que mistura prosa, diário e teatro. O volume foi indicado ao Prêmio Oceanos de 2023.

A protagonista cruza os Andes a pé. Mais ao sul está o destino. Ela procura o passado ancestral e a própria identidade: quem é a filha de uma colonização violenta? A Cordilheira fala. “Somos um continente de mortos”, diz a montanha. Plantas, rio e terra também têm voz, num princípio que a crítica indígena Julie Trudruá Dorrico descreveu sem rodeios: “Aqui a Cordilheira é gente. Isto não é uma metáfora, é um princípio indígena empregado na linguagem.” O romance recusa a farsa de uma identidade nacional singular e trata a máquina colonial como ferida que recomeça.

O que acontece quando o tempo deixa de ser reta

Nada neste livro é somente o que diz ser. A protagonista acompanha a avó morta pelas ruas de Madrid, vira puma, aparece como Caliban numa caravela, surge como autora de um livro perdido num Rio de Janeiro distópico sob bombardeio. Natalia Borges Polesso, na orelha crítica, pediu confiança nas vozes que guiam a ficção: narradoras se precipitam, correm de mãos dadas, amam em tempos distintos. Não são fragmentos soltos. São um exercício de conexão. O tempo é circular. O futuro se reescreve. Quem esperar enredo de viagem realista vai tropeçar. Quem aceitar cosmogonia, metamorfose e história do continente no mesmo fôlego encontra o livro mais ousado da autora até aqui.

A agente literária descreve diálogo com Hayao Miyazaki e Haruki Murakami, e também com Ailton Krenak e Davi Kopenawa. Essa lista não é nomeação vã. O romance quer o onírico japonês e o pensamento indígena latino-americano na mesma frase, sem diluir nenhum dos dois em “inspiração”. Carola Saavedra, que pesquisa arte e literatura indígena na Universidade de Colônia, não transforma a ficção em paper. Transforma o paper em risco narrativo. O resultado é curto — 160 páginas, lançamento em 4 de novembro de 2022, ISBN 978-65-592-1145-6, capa de Ale Kalko — e concentrado.

Para quem este romance foi escrito

Para quem quer literatura brasileira contemporânea que encare ancestralidade sem folclore de vitrine. Para quem já leu Flores azuis e desconfia que a autora caberia para sempre no jogo epistolar: este livro prova o contrário. Para quem lê Krenak e pergunta o que a ficção ainda pode fazer com terra, mortos e memória. O Rascunho falou em originalidade, identidade, solidão, memória e ancestralidade. O Globo destacou a voz capaz de dizer o indizível, com subjetividades inconscientes das identidades latino-americanas. Nada disso garante leitura fácil. Garante leitura necessária para quem busca exatamente esse impasse.

  • Imagem inicial: a menina no avião, a Cordilheira nevada, o espanhol como única língua.
  • Princípio: a montanha, o rio e as plantas têm voz e subjetividade.
  • Forma: prosa, diário e teatro em 160 páginas.
  • Reconhecimento: indicação ao Prêmio Oceanos 2023.

Como chegar ao livro

A edição em português é da Companhia das Letras. Há volume físico e e-book. A Amazon brasileira lista o título O manto da noite com o ISBN da edição. Não confundir com ensaios (O mundo desdobrável) nem com a poesia (Um quarto é muito pouco), publicados no mesmo período por Relicário e Quelônio. Este é o romance. A frase que a própria autora deixa no material da editora serve de bússola: “Quanto a mim, ficarei onde sempre estive, atravessando a Cordilheira.”

Quem começa por aqui encontra a Carola Saavedra mais recente: menos o mistério das cartas, mais o continente falando. Quem prefere entrar pela obra premiada de 2008 e só depois chegar aos Andes também está no caminho certo. Os dois livros conversam pelo deslocamento. Só mudou a escala — do apartamento para a cordilheira, da carta extraviada para a terra que lembra das guerras travadas sobre seu corpo.

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