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Ignácio de Loyola Brandão
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O Menino que Vendia Palavras

Educação Livro
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Infantil da Companhia das Letrinhas, Jabuti de Livro do Ano em 2008: um menino de Araraquara que negocia o significado das palavras.

O Menino que Vendia Palavras conta a história de um garoto que descobre um comércio insólito: trocar o significado das palavras por fotografia de navio, picolé, chiclete, figurinha. O pai dele, culto e dicionarista da vida real, é a fonte a que os amigos recorrem. O negócio, feito às escondidas, vira aula de língua, vaidade, afeto e leitura. Ignácio de Loyola Brandão escreveu o livro a partir da própria infância em Araraquara, nos anos 1940, quando o pai montou uma biblioteca caseira com mais de quinhentos volumes e o menino chegou a trocar palavras por bola de gude.

Publicado pela Companhia das Letrinhas, com ilustrações de Mariana Newlands, o volume de 64 páginas levou o Prêmio Jabuti de 2008 nas categorias Infantil e Livro do Ano de Ficção — feito raro para um livro pensado em criança e, ao mesmo tempo, capaz de convencer o júri adulto. Também recebeu o prêmio da Fundação Biblioteca Nacional como melhor infantojuvenil em 2007. A capa vermelha, o menino de traço simples e o selo de Livro do Ano dizem o recorte: este não é o Loyola da censura; é o Loyola da palavra como objeto de desejo.

No enredo, “epitélio”, “alforje”, “lunático”, “gorgolão”, “enfado” e “pantomima” viram moeda. O humor é leve. A lição não vem pregada em verso de cartilha: o menino percebe que conhecer palavras ajuda a explicar ideia, a namorar, a ler história, a se orientar. Quem ensina em sala encontra um pretexto concreto para vocabulário. Quem chega pela biografia do autor encontra a chave da casa — o ferroviário de Araraquara, a crítica de cinema precoce, o jornalista que nunca largou o gosto de nomear as coisas com precisão.

Para quem e por quê

O livro conversa com crianças em idade de alfabetização avançada (a indicação de leitura costuma cair entre 7 e 11 anos) e com adultos que ainda se lembram de dicionário como tesouro. Há adaptação teatral de Pedro Brício. O objeto principal, porém, continua sendo o livro ilustrado — formato próximo do quadrado, leitura rápida, relançamento de 2016 ainda em circulação. Não compete com Zero nem com Não Verás País Nenhum. Completa o retrato: o mesmo escritor que estilhaçou a ditadura também defendeu, para criança, que a língua é moeda e abrigo.

Para famílias e escolas, esta é a porta de entrada mais amável da obra. Para quem já leu a distopia, é o contraponto necessário: o país sem água de um lado; do outro, um menino vendendo “gorgolão” no bairro. O Jabuti de Livro do Ano não transforma o volume em obrigação escolar. Transforma-o em evidência de que Loyola não tem um único registro. Quem só conhece o autor pela censura de Zero perde metade da conversa se não cruzar esta rua de Araraquara.

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