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Tariq Saleh

Nascimento: 1974 Sapiranga, RS / Beirute
Jornalista brasileiro nascido em Beirute em 1974 e criado em Sapiranga. Atuou como correspondente da BBC no Líbano.

Em junho de 2007, Tariq Saleh passou doze horas sob fogo cruzado no campo de refugiados de Nahr al-Bared, no norte do Líbano, enquanto o restante da imprensa via a batalha de uma colina distante. A BBC Brasil contou o episódio com o nome dele: chegou de carro na noite de sábado, atravessou uma barreira do Exército sem ser notado, dormiu no quintal de uma família que já o tinha acolhido e, de manhã, filmou e fotografou atrás de cortinas, a cerca de 30 metros de uma base de artilharia. Para sair, prendeu coletes à prova de bala no vidro traseiro e na janela lateral. Quem busca o nome em português costuma estar atrás dessa pessoa, não de um apresentador de estúdio.

Não é o cineasta sueco Tarik Saleh, nascido em Estocolmo em 1972 e conhecido pela trilogia do Cairo. O Tariq das reportagens em português nasceu em Beirute em 16 de setembro de 1974, cresceu em Sapiranga e passou mais de quinze anos baseado na capital libanesa. A pergunta prática é outra: como um gaúcho de sobrenome árabe virou correspondente no Líbano, para quais redações trabalhou e o que fez quando a rotina de noticiário deixou de caber.

O que a assinatura da BBC Brasil mostra

O vínculo mais fácil de ler, matéria por matéria, é com a BBC Brasil, então parte do BBC World Service. Em dezembro de 2007, no blog Novo em Folha, ele já se apresentava como correspondente brasileiro no Líbano e descrevia o convite de Edson Porto para atuar como colaborador fixo da BBC em Beirute. Anos depois, a assinatura “de Beirute para a BBC Brasil” continua em peças que não se repetem.

Em 13 de maio de 2008, a nota é política: Saad Hariri alerta que o Líbano caminha para uma guerra civil, no meio dos choques entre o Hezbollah e forças pró-governo. Em 9 de março de 2014, o assunto muda de escala. Tariq entrevista o lutador Gabriel Tayeh, de São Leopoldo, que representava os territórios palestinos no reality de MMA Desert Force. As lutas aconteciam em países árabes; o atleta morava e treinava no Brasil. A reportagem só existe porque havia alguém em Beirute capaz de enxergar, no mundo árabe, uma história gaúcha.

Nahr al-Bared explica o método por trás dessas assinaturas. O Exército libanês atacava o Fatah al-Islam dentro do campo, e a imprensa tinha sido levada para longe. Dados oficiais da hora falavam em mais de cem mortos entre civis, soldados e militantes. Tariq disse à BBC que o número podia ser maior e que o campo estava inteiramente destruído.

Sapiranga, engenharia e o embarque sem emprego

A infância pública não é a de uma criança em abrigo. Ao Jornal Repercussão, em fevereiro de 2022, ele contou que deixou o Líbano com a família aos oito anos e foi morar em Sapiranga, a Cidade das Rosas. A frase que ficou na reportagem é direta: cresceu ali, as escolas e os amigos de infância estão ali, e ele se considera sapiranguense. O avô palestino tinha emigrado para o Rio Grande do Sul no fim da década de 1950. Nasceu em Beirute porque os pais trabalhavam no Líbano naquele período. As duas cidades explicam o repórter que depois circulou em árabe e em redação gaúcha.

O gatilho profissional, no relato que deu à Folha aos 33 anos, foi um filme. Aos 13 assistiu The Killing Fields, Os Gritos do Silêncio, de Roland Joffé, de 1984, e desde então quis fazer jornalismo internacional. Gostava de história e geografia, sobretudo Oriente Médio, África e América Latina. Por questão familiar, entrou primeiro em engenharia civil. O corte que ele marca é 1995, quando se completava um ano do genocídio em Ruanda: leituras e documentários o tiraram do desvio.

Antes da faculdade, a preparação que ele descreve é prática: fotografia avançada, línguas e leitura, de romance a livro-reportagem. Morou na Inglaterra depois do ensino médio, entre 1992 e 1993, e voltou para concluir os estudos. O inglês de trabalho veio dessa estadia. O árabe já circulava em casa; algumas palavras aprendeu no próprio Líbano. O espanhol estudou no Brasil. Na apuração, disse usar sobretudo árabe e inglês, dentro de um conjunto de quatro línguas: português, inglês, árabe e espanhol.

Na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, a Unisinos, cursou jornalismo. No primeiro semestre já trabalhava como fotógrafo e repórter numa agência experimental da própria universidade. O diretor de redação da Zero Hora, Marcelo Rech, chamou-o em seguida para um período na editoria internacional, em Porto Alegre. A editoria de mundo, portanto, não começou no Oriente Médio. Começou numa redação do Rio Grande do Sul.

Formado, aceitou um posto que ele mesmo descreveu como bem pago e infeliz: assessor de imprensa e diretor de comunicação na prefeitura da cidade em que tinha crescido. Ficou cerca de dois anos fora de redação. A guerra de 2006 entre Hezbollah e Israel foi a decisão. Esperou o fim dos combates, tirou vistos, juntou dinheiro, procurou veículos brasileiros e embarcou. Não havia contrato esperando no aeroporto. A frase que a Folha usou como título é a dele: sem emprego, com pouco dinheiro, mas com esperança.

Como a Folha e a BBC entraram

Os três primeiros meses em Beirute foram de poucos artigos sem pagamento. Ele descreve a desvantagem de chegar como freelancer: quem vem em nome de um veículo grande abre porta; quem chega sem organização esbarra em burocracia, em fonte com medo e em área que só se atravessa com permissão militar.

O primeiro sim de uma redação brasileira veio da editoria de mundo da Folha. Ele credita a abertura a uma editora que cita pelo primeiro nome, Cláudia. O caminho até a BBC passou por uma prima no Egito e pelo repórter Paulo Cabral, baseado no Cairo. Cabral foi ao Líbano, pediu ajuda para ir ao sul de Beirute, na área do Hezbollah, e o recomendou ao editor-chefe. Edson Porto convidou Tariq como correspondente colaborador fixo. Em 2009, o papel público deixa de ser só o Líbano: ele passa a ser descrito como um dos correspondentes da emissora para o Oriente Médio.

O diferencial que ele reivindica é a língua, não a tela. Fonte oficial que fala inglês qualquer repórter estrangeiro alcança. O que muda a matéria, no argumento dele, é ouvir taxista, vendedor, professor e barman, e filtrar o que dizem. O árabe encurtava essa distância. Também marcou um limite anterior à faculdade: não deixar a origem palestina nem a religião da família virarem linha de reportagem. Disse defender a causa palestina e recusar o que chamou de jornalismo militante radical, aquele que só procura o fato útil a um lado. No Líbano, onde ele contava dezoito comunidades religiosas reconhecidas pelo Estado, dizer que não tinha religião formal virava conversa repetida. O sobrenome já bastava para que o encaixassem como muçulmano.

Quinze anos em Beirute e a volta de 2021

Em 4 de agosto de 2020, a explosão no porto de Beirute pôs o nome de novo numa redação brasileira de televisão. A BandNews o entrevistou a partir da cidade, no dia do desastre.

A saída dessa base está contada com data pelo Jornal Repercussão. Foram mais de quinze anos fora de Sapiranga. Nos últimos, estava radicado em Beirute, numa emissora espanhola, com rotina de televisão mais pesada do que a de texto. Ele disse que esses quinze anos “valeram por trinta” e que, antes da pandemia, já queria deixar a região. Não era, necessariamente, um plano de voltar ao Brasil. Queria projetos mais longos, não o noticiário diário. A emissora estudava mudar a sede da equipe para Istambul ou Jerusalém. Ele tomou o plano como hora de mudança pessoal. A pandemia acelerou o que já estava encaminhado.

Voltou a Sapiranga em setembro de 2021. O jornal foi explícito: não era estadia definitiva, e sim transição. Não há site pessoal, livro ou rede verificada que indique uma redação fixa depois dessa data.

Tampouco há curso, manual ou turma aberta com o nome dele. A orientação que deu em 2007 a quem quisesse cobrir conflito foi direta: estudar sobrevivência, ler os manuais de Repórteres sem Fronteiras e do Comitê de Proteção a Jornalistas, e aprender a lidar com censura, barreira militar e milícia. Disse já ter sido detido por militares no Líbano. Repórter que entra em pânico, na frase dele, não tem segunda chance.

O que dá para afirmar sem misturar homônimo

  • Nasceu em 16 de setembro de 1974, em Beirute, e foi morar em Sapiranga aos oito anos.
  • Cursou jornalismo na Unisinos depois de passar por engenharia civil e por um período na Inglaterra.
  • Trabalha em português, inglês, árabe e espanhol. No Líbano, árabe e inglês eram as línguas da apuração.
  • O vínculo mais documentado é o de colaborador da BBC em Beirute, com matérias assinadas para a BBC Brasil a partir de 2007.
  • Em setembro de 2021 voltou a Sapiranga, em transição, depois de mais de quinze anos baseado no Líbano.

A fotografia entrou antes do crachá de correspondente. Ele estudou fotografia avançada na preparação para a faculdade, e as imagens de Nahr al-Bared saíram creditadas a ele na BBC Brasil. Outros perfis em que a imagem é ofício, e não ilustração de capa, estão na página de fotografia.

O mapa de leitura continua sendo a entrevista de 2007 à Folha, o relato da BBC sobre Nahr al-Bared e a conversa de 2022 com o Jornal Repercussão. É ali que estão o embarque sem contrato, as doze horas no campo e a explicação, na voz dele, de por que o noticiário diário tinha prazo.

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