Em 1955, a Gazeta de Notícias abriu vaga e Adísia Sá passou no teste. Maria Adísia Barros de Sá tinha se bacharelado em filosofia no ano anterior e foi para a polícia. A redação de Fortaleza ainda não tinha mulher no quadro profissional. Ela ficou nesse jornal até 1970.
Quem procura o nome não cai numa apresentadora de horário nobre nem numa romancista de livraria de aeroporto. Cai na pessoa que atravessou jornal, rádio, sala de aula e sindicato no Ceará por sete décadas: a primeira mulher a fazer ombudsman na imprensa nordestina, professora titular da UFC e da Universidade Estadual do Ceará, autora de livros que vão da metafísica ao relato de uma ouvidoria. Em 7 de novembro de 2025, o jornalista Eliomar de Lima registrou os 96 anos dela. Nasceu em Cariré, em 7 de novembro de 1929.
De Cariré ao teste da Gazeta
Cariré fica no norte do Ceará, às margens do rio Acaraú, a 287 quilômetros de Fortaleza. O nome de registro é Maria Adísia Barros de Sá. Livro sobre o jornal O Estado, disponível no repositório da UFC, nomeia os pais: Hermínia Barros de Sá, a Dona Mimosa, e José Escolástico de Sá, o Seu Zeca. A família passou uma temporada em Sobral antes da capital.
A redação não foi o primeiro texto assinado. Antes de se profissionalizar, ela manteve a coluna O Julgamento de Eva no O Estado, sobre política e o noticiário do momento. Também escreveu sobre educação e vida universitária na Gazeta, como representante do centro acadêmico da Faculdade Católica de Filosofia. O teste de 1955 é que trocou a colaboradora pela repórter. Dali saiu a primeira mulher a integrar uma redação de jornal no Ceará e a primeira repórter policial do estado.
A filosofia entrou na sala antes do lead
O bacharelado de 1954, em filosofia pura, foi na Faculdade Católica de Filosofia do Ceará. A licenciatura veio em 1962, pela Faculdade de Filosofia da UFC. Em 1976, a Universidade Federal Rural de Pernambuco conferiu o doutorado em fundamentos de filosofia e comunicação. O dado aparece no Portal dos Jornalistas e na entrevista que a Fenaj publicou, em 2006, pelo Observatório da Imprensa, quando ela recebeu o Prêmio Luiz Beltrão de Maturidade Acadêmica.
O magistério começou no fim da década de 1950. Em 1969 passou a dar metafísica e ficou em sala até 1984, ano da aposentadoria como professora titular da UFC e da UECE. Entre 1973 e 1976 lecionou na Universidade de Fortaleza. O mesmo perfil registra aula de comunicação social na Academia da Polícia Militar General Edgard Faço.
Na UFC, participou da implantação do primeiro curso de jornalismo do Ceará, na segunda metade dos anos 1960, no reitorado de Antônio Martins Filho. Figura como membro fundadora e professora assistente, depois titular no Departamento de Comunicação Social e Biblioteconomia. Em 1973 coordenou, em Fortaleza, o 2º Congresso Brasileiro de Ensino e Pesquisa em Comunicação. A parte de educação na trajetória dela é essa cátedra, não um curso avulso.
O que ela fez no O Povo, no rádio e na televisão
Depois da Gazeta, os veículos têm data. Esteve no O Unitário entre 1970 e 1972. No O Estado, de 1972 a 1976, assumiu a chefia da redação depois do sequestro de Venelouis Xavier Pereira, durante a ditadura. Já tinha sido secretária de redação e assinava a coluna Linha de Frente, no rodapé da página 7. Passou pelo O Dia. No O Povo, a partir de 1984, escreveu sobre educação. Dez anos depois mudou de cadeira.
Em 1994 inaugurou a função de ombudsman no jornal O Povo. Foi a primeira mulher a ocupar esse posto na imprensa do Nordeste. Voltou ao cargo em outros mandatos, entre eles 1997 e 2000. A Secretaria da Cultura do Ceará fala em quatro mandatos e no título de ombudsman emérita, dado no início de 2014 também pelo trabalho na rádio. Na Rádio O Povo/CBN estreou em 1984, foi diretora-executiva em 1992 e 1993 e ombudsman em 1998 e 1999.
Na televisão, o primeiro programa foi o semanal Vida Universitária, na TV Ceará. Depois veio comentarista: TV Jangadeiro, de 1990 a 1991; TV Com, de 1996 a 1997; TV Manchete, em 1998; TV Fortaleza em seguida. Não há site pessoal nem perfil oficial confirmado em rede social. A cara pública está no veículo e na entidade de classe.
- 1955: entra na Gazeta de Notícias, primeira mulher numa redação de jornal no Ceará e primeira repórter policial do estado.
- 16 de maio de 1956: sindicalização apontada pelo Portal dos Jornalistas como a da primeira mulher sindicalizada no Ceará.
- 1994: abre a ouvidoria do O Povo, primeiro ombudsman feminino da imprensa nordestina.
- 2013: recebe a Medalha da Abolição do governo do Ceará.
No sindicato, o cargo não foi figurativo. Dirigiu a Associação Cearense de Imprensa, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Ceará e integrou a Comissão Nacional de Ética da Fenaj, onde também representou a entidade junto à Confederação dos Trabalhadores em Comunicação e Publicidade. Foi a primeira presidente da seção cearense da Associação Brasileira de Ouvidores e vice-presidente da regional Nordeste. Em 2014, a Secult a apresentava como presidente da ACI. Na nota dos 96 anos, em 2025, a ACI tratou-a como ex-presidente.
Livros de ofício, não uma estante de romance
A bibliografia acompanha o emprego. Nos anos 1970 predominam a metafísica e o ensino: Metafísica para quê? (1971), Fenômeno metafísico (1973), Introdução à filosofia (1975), Vanguarda: produto de comunicação, pela Vozes (1977), e Ensino de jornalismo no Ceará (1979). Biografia de um sindicato, pelas Edições UFC, em 1981, conta a entidade da categoria no estado. Ela organizou ainda Ensino de filosofia no Ceará e, com Expedito Teles e Marcondes Rosa, Fundamentos científicos da comunicação.
O Jornalista Brasileiro, pela Fundação Demócrito Rocha, reconstrói a Federação Nacional dos Jornalistas. A edição de 1999 tem 640 páginas e ISBN 978-8586375279. Comunicação é o homem saiu em 1986. Clube dos Ingênuos, de 1998, relata três anos como ombudsman do O Povo. Traços de União, de 1999, trata da família do fundador desse jornal. Em 2004, com Fátima Vilanova e Roberto Maciel, veio Ombudsmen/ouvidores: transparência, mediação e cidadania.
A ficção chega mais tarde e com endereço cearense. Capitu conta Capitu, de 1992, passa a voz à personagem de Dom Casmurro. Em busca de Iracema, de 2012, pela Armazém da Cultura, leva o advogado Moacir, apresentado como descendente de Martim Soares Moreno, pelos lugares do romance de José de Alencar: a bica do Ipu, a lagoa de Messejana, o intervalo entre 1960 e 1964. Cleto Pontes assina no volume o ensaio Em busca do eterno retorno. Com ele, Adísia também publicou Três mulheres no divã de Freud, em 2009. Quem lê esses títulos ao lado de outros nomes de literatura precisa manter a proporção: o romance explica uma fase, não substitui a redação.
Homenagens com data e instituição
Os títulos de cidadania têm ano: Fortaleza em 1993, Maranguape em 1995, Mossoró em 2002. Em 1983, o Prêmio Estado do Ceará na categoria ensaios e estudos científicos. Em setembro de 2006, o Prêmio Luiz Beltrão de Maturidade Acadêmica. Registros biográficos incluem ainda o troféu Sereia de Ouro.
Em 2004, as Faculdades Nordeste instalaram a Cátedra Adísia Sá de Jornalismo, voltada à ética na comunicação. Em 2005, Luíza Helena Amorim lançou Adísia Sá, uma biografia, pela Omni, de Fortaleza: 128 páginas nascidas de monografia, livro sobre ela, não dela. Em 2009, o jornal O Estado, do Ceará, e o Instituto Venelouis Xavier Pereira criaram o Concurso Cultural Adísia Sá de Jornalismo para estudantes de Fortaleza. É o diário cearense, não o paulista de título parecido.
Em 2013, o governo do Ceará entregou a Medalha da Abolição. No ano seguinte, a Casa de Juvenal Galeno, mantida pela Secretaria da Cultura, pôs a fotografia dela na galeria de honra, na Rua General Sampaio, no centro de Fortaleza. O texto oficial da época a descreve aos 84 anos, professora emérita da UFC, primeira ombudsman do O Povo e então presidente da ACI.
1968, no Justiniano de Serpa
Há um capítulo que a lista de prêmios não cobre. Em 1968, ano do AI-5, Adísia Sá dirigia o Colégio Estadual Justiniano de Serpa, antiga Escola Normal, em Fortaleza. Em maio, expulsou Mirtes Semeraro de Alcântara Nogueira, presidente do grêmio do turno da tarde. O protesto estudantil que se seguiu ficou conhecido como Revolta das Saias e está ligado à saída dela da direção.
Artigo de 2024 sobre o movimento naquele colégio situa o conflito na cobrança de taxa de matrícula e na expulsão, e aponta no Arquivo Público do Estado do Ceará o relatório que ela enviou ao secretário de polícia, com documentos anexos. Na biografia de Luíza Helena Amorim, Adísia é citada dizendo que a direita a via na esquerda e a esquerda a via na direita. Relatos biográficos também a acusam de ter entregue alunas à repressão da ditadura. A expulsão e o relatório à polícia aparecem documentados. A acusação de delação segue como controvérsia pública, sem uma sentença citada nesses relatos.
Não há CNPJ público de empresa pessoal ou editora no nome dela. Os livros saíram pela UFC, pela Vozes, pela Fundação Demócrito Rocha e pela Armazém da Cultura. A edição de 1999 de O Jornalista Brasileiro segue localizável na Amazon. O restante aparece mais em sebo e biblioteca do que em vitrine contínua.
O ofício, medido em redação, é este: repórter de polícia em 1955, professora de metafísica até 1984, autora da história da Fenaj e ouvidora do O Povo a partir de 1994. A mesma pessoa dirigiu o Justiniano de Serpa em 1968 e saiu do cargo no rastro da Revolta das Saias.

