Em 1965, Ramos, no Rio de Janeiro, ganhou um hino com música de Pixinguinha e letra de Alberto Lima. O mesmo nome aparece, anos antes, em brasões de bairros e cidades e em centenas de ex-líbris, aquelas marcas pequenas que identificam o dono de um livro.
Alberto Lima nasceu no Rio de Janeiro em 29 de julho de 1898 e morreu na mesma cidade em 1º de agosto de 1971, aos 73 anos. Quem busca o nome hoje quase nunca encontra um romancista de catálogo longo. Encontra um desenhista que fez da heráldica, do ex-líbris e do desenho de símbolos um ofício público, com passagem pelo Ministério da Guerra e por academias de letras.
Quem era e o que o nome ainda responde
O registro público corrente o descreve como desenhista, heraldista e ex-librista. A enciclopédia de literatura brasileira, reproduzida pela biblioteca da UFSC, acrescenta poeta, jornalista e membro da Academia Guanabarina de Letras. A nota biográfica usada no circuito de colecionadores de ex-líbris informa que era filho de José de Almeida Costa Lima e Ana Mendes Ladeira e que fez os primeiros estudos no Liceu de Artes e Ofícios.
Não há site pessoal, rede social nem empresa com CNPJ ligado a ele: a vida pública se encerra em 1971. O que resta verificável está em arquivo, em peça de museu, em símbolo municipal e em uma letra de hino.
Do desenho ao Gabinete Foto-cartográfico
O guia do fundo particular Alberto Lima, no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, descreve um heraldista que criou símbolos, uniformes, emblemas, medalhas e brasões das Forças Armadas, além de brasões de municípios — a chamada heráldica de domínio — e de mais de seiscentos ex-líbris. O mesmo documento registra que ministrou curso de heráldica na Escola de Formação de Oficiais da Polícia do Rio de Janeiro e que atuou como chefe do Gabinete Foto-cartográfico da Secretaria do Ministério da Guerra. Também aponta carreira militar, poesia, desenho e pintura.
A Wikipédia em português o lista ainda como diretor da Oficina de Cartografia do Exército. São cargos próximos no universo gráfico do Exército, cada um registrado à parte, e não convém fundi-los num único título sem o organograma da época. O que as duas leituras sustentam é o mesmo núcleo: desenho oficial a serviço de símbolo, mapa e distintivo.
No meio ex-librista, a biografia publicada por colecionadores acrescenta que foi editor artístico da Revista da Semana e de Nação Armada, colaborou em D. Quixote, Correio da Manhã, Eu Sei Tudo, Cena Muda, O Radical, O Jornal e Excelsior, e integrou a Comissão de Estudos Históricos da Cidade do Rio de Janeiro. A mesma nota atribui a ele mais de 300 capas de livros de história e literatura.
Ex-líbris, clubes e a mostra de 1942
O ex-líbris é uma etiqueta ou vinheta que marca a posse de um livro. No Brasil dos anos 1940 e 1950, essa peça pequena virou objeto de exposição, clube e coluna de jornal. Alberto Lima não ficou na margem desse circuito.
Um estudo publicado na revista Visualidades, da UnB, o coloca ao lado de Manuel Esteves entre os nomes de maior presença no ex-librismo nacional. O texto registra mais de 500 ex-líbris desenhados por ele — o arquivo municipal fala em mais de seiscentos — e a atuação como secretário da Sociedade dos Amadores Brasileiros de Ex-líbris (Sabel), presidente do Clube Internacional de Ex-líbris (Ciel) e da Confederação Interamericana de Ex-líbris, além de membro da Academia Brasileira de Ex-líbris. Entre 1951 e 1958, no Almanaque Eu Sei Tudo, publicou por oito anos seguidos um retrospecto do que havia acontecido com o ex-líbris no ano anterior, inclusive o que se via fora do Brasil. Em coluna do Jornal do Brasil, em 1955, chegou a listar os membros da Academia Brasileira de Ex-líbris.
Antes disso, em 16 de maio de 1942, o Museu Nacional de Belas Artes abriu a 1ª Exposição Brasileira de Ex-líbris, com 1.304 itens. O relato do próprio museu inclui Alberto Lima tanto entre os dezessete colecionadores participantes quanto na comissão organizadora, ao lado de Oswaldo Teixeira, então diretor da casa, Clado Ribeiro de Lessa, Floriano Bicudo Teixeira, Garcia Júnior, Nuno Smith de Vasconcellos e Paulo José Pires Brandão, presidente da Sabel.
- Mais de seiscentos ex-líbris, segundo o Arquivo Geral da Cidade do Rio.
- Secretário da Sabel e presidente do Ciel e da Confederação Interamericana de Ex-líbris.
- Retrospectos anuais no Almanaque Eu Sei Tudo, de 1951 a 1958.
- Comissão organizadora da exposição de 1942 no Museu Nacional de Belas Artes.
Brasões de cidades e a letra do Hino de Ramos
Na heráldica de domínio, o nome dele se prende a símbolos que a cidade ainda usa ou guarda. A Wikipédia atribui a Alberto Lima o desenho do brasão de Vila Isabel, em 1962, descrito como o primeiro brasão de domínio do antigo Estado da Guanabara, e o tratamento heráldico de brasões de Nova Iguaçu, Teresópolis, Ponte Nova e São João del Rei. Reportagem local da Ilha do Governador também credita a ele o brasão daquela região administrativa, com golfinhos, as datas de 1568 e 1961 e a coroa mural da cidade-capital.
A outra peça que leva o nome para fora do desenho é musical. Em 1965, nos 80 anos do bairro de Ramos, Pixinguinha compôs o Hino de Ramos. O Diário do Rio registra a letra como de autoria do professor Alberto Lima, com o verso “Ramos, Ramos, nós te adoramos”. Pixinguinha morava no bairro. A letra, nesse caso, não é um livro de poemas: é um texto cívico de bairro, feito para ser cantado.
Na literatura, a produção conhecida não se organiza como uma obra única de livraria. Há poesia, trovas e o ofício de letrista, mas o volume que a documentação pública descreve com mais precisão é gráfico: ex-líbris, capas, brasões, uniformes e emblemas. Tratar Alberto Lima só como poeta apaga o desenho. Tratar só como desenhista apaga a letra que Pixinguinha musicou.
O que o arquivo e o museu ainda mostram
O fundo CP/AL do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro reúne 2,92 metros lineares de documentação, com datas-limite de 1834 a 1974, doado e hoje parcialmente disponível para consulta. O conjunto inclui recortes de O Globo, Jornal do Brasil, Correio da Manhã, O Cruzeiro e dezenas de outros periódicos, além de poemas, diplomas, fotografias, projetos de brasões, material sobre a bandeira do Brasil, o Hino Nacional e o próprio conjunto de ex-líbris. É o rastro de escritório de quem vivia de símbolo impresso.
No Museu Paulista, o acervo online guarda o Mapa do Roteiro da FEB na Campanha da Itália, datado de 1945, em papel, com 66 por 77,5 centímetros, número de inventário 1-06680-0000-0000, na coleção João Baptista de Campos Aguirra. O catálogo grafa o título com a forma “Reoteiro” e aponta Alberto Lima como autor, com o Gabinete Fotocartográfico do Ministério da Guerra como agente da peça. Há uma segunda folha do mesmo conjunto. O mapa não resume a carreira, mas mostra o cargo de chefe daquele gabinete virado objeto que ainda se consulta.
Um retrato de perfil, publicado em 9 de fevereiro de 1947 no suplemento Letras e Artes, de A Manhã, e datado de 1946, é a imagem pública mais estável do rosto. O homem de terno e gravata, visto de lado, é o Alberto Lima que os arquivos descrevem: desenhista carioca, não homônimo posterior de poeta maranhense, engenheiro de celulose ou autor de outros países que também assinam Alberto Lima.


