Quem pedia o Bosi na livraria da universidade quase nunca queria um ensaio teórico. Queria o volume laranja da Cultrix que cabia na mochila e cobria da carta de Pero Vaz de Caminha ao pós-modernismo. Alfredo Bosi publicou a História concisa da literatura brasileira em 1970 e, sem desenhar um manual escolar, entregou o mapa que gerações de estudantes, professores e vestibulandos passaram a tratar como ponto de partida.
O detalhe que muda a leitura da biografia é outro: esse mapa nacional nasceu de um italianista. Formado em letras neolatinas na USP, doutor em Pirandello e livre-docente em Leopardi, ele só atravessou o corredor rumo à literatura brasileira depois de ter escrito a síntese. Quem busca o nome dele hoje quer saber quem foi o crítico por trás do livro, por que a obra ainda circula e onde a crítica dele encontra Machado de Assis, a colonização e a poesia.
Quem foi Alfredo Bosi
Alfredo Bosi nasceu em São Paulo em 26 de agosto de 1936 e morreu na mesma cidade em 7 de abril de 2021, vítima da Covid-19. Foi crítico, historiador da literatura brasileira, professor emérito da Universidade de São Paulo e membro da Academia Brasileira de Letras, na cadeira 12, de 2003 até a morte.
Filho de Thereza Fazulo, salernitana, e de Alfredo Bosi, paulista de raízes toscanas e vênetas, cresceu numa casa em que o italiano não era abstração de biblioteca. Casou-se com a psicóloga social, escritora e professora do Instituto de Psicologia da USP Ecléa Bosi, com quem teve dois filhos: Viviana, professora de literatura, e José Alfredo, médico. A vida intelectual do casal atravessou a universidade pública paulista por décadas, cada um no próprio campo.
O retrato público que ficou não é o do erudito isolado. Bosi lecionou, editou a revista Estudos Avançados, dirigiu o Instituto de Estudos Avançados da USP, ocupou a ABL e, ao mesmo tempo, militou em direitos humanos e na defesa da universidade pública. A crítica literária, nele, nunca foi só comentário de texto.
Como um italianista escreveu o mapa da literatura brasileira
Em 1955, ingressou no curso de Letras Neolatinas da Faculdade de Filosofia da USP. Licenciou-se, especializou-se em literatura brasileira, filologia românica e literatura italiana e, em 1959, foi escolhido assistente de literatura italiana. No biênio 1961-1962, com bolsa do governo italiano, estudou estética e filosofia da Renascença na Faculdade de Letras da Universidade de Florença.
De volta ao Brasil, retomou a cadeira de literatura italiana com o professor Ítalo Bettarello e a manteve até 1970. Doutorou-se em 1964 com tese sobre a narrativa de Pirandello e, em 1970, tornou-se livre-docente com trabalho sobre mito e poesia em Leopardi. Entre 1963 e 1970, respondeu pela seção Letras Italianas do Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, com artigos sobre Leopardi, Pirandello, Moravia, Buzzati, Manzoni, Ungaretti, Montale, Quasimodo e Pasolini.
A virada acontece no mesmo ano da livre-docência. Publicada a História concisa da literatura brasileira, a literatura brasileira passa a prevalecer no itinerário. Em 1971, transfere-se para o Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP, torna-se titular em 1985 e se aposenta em 2006. A concisa não é um desvio de carreira: é o ponto em que o filólogo formado na Itália aceita o risco de narrar o conjunto da literatura do país.
O que ele entendia por crítica e resistência
Bosi lia Vico, Hegel, Croce, Lukács e Gramsci sem transformar o ensaio em vitrine de citações. O conceito de resistência, que atravessa O ser e o tempo da poesia, Literatura e resistência e trechos de Dialética da colonização, não é slogan. É o modo de ver a literatura como forma que não se deixa reduzir à ideologia dominante, à mercadoria ou ao engajamento raso.
Havia também a rua. Na década de 1970, aproximou-se de um grupo de operários em Osasco. Presidiu o Centro de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns, em Cotia, entre 1982 e 1984, e integrou a Comissão de Justiça e Paz a partir de 1987. Nos anos 1980, publicou na Folha de S.Paulo textos que depois reaparecem, em parte, em Entre a literatura e a história, da Editora 34.
No Instituto de Estudos Avançados, foi vice-diretor, diretor entre 1997 e 2001 e editor de Estudos Avançados de 1989 a 2019. Coordenou o programa Educação para a Cidadania, a Comissão de Defesa da Universidade Pública e a Cátedra Lévi-Strauss, em convênio com o Collège de France. Presidiu a comissão que elaborou o Código de Ética da USP. A universidade, para ele, não era palco: era instituição a defender.
Por que ainda se lê Bosi para entender Machado de Assis
Quem chega a Machado pelo vestibular encontra ciúme, ironia e narrador pouco confiável. Quem chega a Machado por Bosi encontra outra pergunta: o que resta da personagem quando a crítica sociológica já classificou o tipo social? Em Machado de Assis: o enigma do olhar, vencedor do Prêmio Jabuti de ensaio em 2000, e depois em Brás Cubas em três versões, ele recusa reduzir Cotrim, Guiomar, Estela ou Bentinho a alegorias de classe.
A leitura é útil porque conversa com a página de Machado de Assis sem repetir a ficha dos romances. Bosi insiste que há o tipo e há a pessoa, que o naturalismo do século XIX cristalizava de antemão o que Machado deixava oscilar. Para o leitor de hoje, isso evita dois erros simétricos: tratar o autor só como conteúdo escolar e tratar a crítica só como julgamento moral das personagens.
Livros que explicam a autoridade
A concisa é a porta mais procurada, mas não esgota o crítico. Uma lista curta ajuda a separar o mapa da obra que aprofunda o método:
- História concisa da literatura brasileira (Cultrix, 1970): panorama da colônia às tendências contemporâneas, reiteradamente reeditado.
- O ser e o tempo da poesia (1977; Companhia das Letras): teoria da lírica e o ensaio “Poesia-resistência”, Prêmio APCA de 1978.
- Dialética da colonização (Companhia das Letras, 1992): colonização, culto e cultura; Jabuti de Ciências Humanas em 1993 e Prêmio Casa-Grande & Senzala.
- Machado de Assis: o enigma do olhar (1999): ensaios machadianos, Jabuti de ensaio em 2000.
- Literatura e resistência (Companhia das Letras, 2002): a crítica levada ao campo da atitude cultural e política dos escritores.
Há ainda Céu, inferno, Ideologia e contraideologia, O conto brasileiro contemporâneo e prefácios a Vieira, Lima Barreto, Cecília Meireles, Lygia Fagundes Telles e Otto Maria Carpeaux. Cada título cumpre uma função: a concisa organiza o percurso; a dialética interpreta o Brasil; a poesia e Machado mostram o crítico no texto.
Reconhecimento público e o que ficou depois de 2021
Além dos Jabutis e da APCA, Bosi recebeu a Ordem de Rio Branco no grau de comendador, em 1996, e a Ordem do Mérito Cultural, em 2005. Foi professor emérito da USP em 2009 e professor emérito do IEA em 2013. Foi fellow da Guggenheim, professor convidado da École des Hautes Études en Sciences Sociales e ocupou a Cátedra Sérgio Buarque de Holanda em Paris.
Na ABL, eleito em 20 de março de 2003, sucedeu o cardeal Lucas Moreira Neves na cadeira 12. Na entrevista à revista Pesquisa FAPESP, tratou a eleição como ponte entre a Academia fundada por Machado e a universidade. Não era pose: o crítico que passou a vida na USP entrou na casa de Machado sem abandonar a sala de aula nem a revista do IEA.
Depois da morte, o IEA, a Companhia das Letras, a USP e a imprensa repetiram a fórmula “um dos maiores críticos literários do Brasil”. A fórmula é justa e insuficiente. O que permanece em circulação é mais concreto: um mapa da literatura brasileira que ainda se consulta, uma leitura da colonização que não sublima o bandeirante nem o senhor de engenho, e um método de ler poesia e Machado sem reduzir o texto a tese. Para quem chega agora, o caminho honesto é esse: começar pela concisa se precisa de panorama; ir à dialética se quer o Brasil; abrir a poesia ou o Machado se quer o crítico de perto.





