Aluizio Abranches dirigiu quatro longas-metragens em dezesseis anos e transformou o amor e a família no eixo de uma obra que atravessou circuitos de festival e salas comerciais. A estreia veio em 1999, com Um Copo de Cólera, adaptação da novela de Raduan Nassar levada ao Festival de Berlim. De lá para cá, o cineasta carioca reuniu elencos de peso em produções que discutiram vínculos familiares, desejo e violência sem abrir mão de circulação internacional.
Nascido no Rio de Janeiro em 1961, Aluizio Abranches formou-se em cinema pela London Film School e em economia pela Universidade Cândido Mendes. As duas áreas moldam a forma como conduz seus projetos: filmes autorais de produção controlada, com equipes de prestígio e estratégia de lançamento pensada para além do mercado brasileiro. O percurso começou nos curtas-metragens, passou pela produção de Carlota Joaquina e desembocou na adaptação literária que definiu sua assinatura.
Formação entre economia, Londres e os primeiros curtas
Antes de dirigir longas, Aluizio Abranches assinou curtas-metragens como Duplo Três, O Pulo do Gato e A Porta Aberta (1989), exercícios que antecipam sua predileção por personagens em conflito íntimo. Chegou a integrar a equipe de produção de Carlota Joaquina, filme de Carla Camurati que reabriu o mercado do cinema brasileiro nos anos 1990, mas deixou o projeto após quatro meses para se dedicar ao próprio caminho.
O passo seguinte foi decisivo: após uma conversa com o escritor Raduan Nassar, conseguiu os direitos de adaptação de Um Copo de Cólera. Para viver o casal protagonista, escalou Júlia Lemmertz e Alexandre Borges depois de assistir aos dois atuando juntos em uma montagem de Hamlet. A parceria com Lemmertz se repetiria em outros dois longas, tornando-se uma das mais longevas do cinema nacional recente.
Um Copo de Cólera e a estreia no Festival de Berlim
Um Copo de Cólera chegou aos cinemas em 1999 e condensou em poucas horas a relação entre um ex-ativista e uma jornalista: o que começa em clima de sensualidade descamba em acusações quando um estrago feito por saúvas na cerca viva expõe as fissuras do casal. O roteiro de Flávio R. Tambellini manteve a tensão do texto original, e o filme estreou no Festival Internacional de Berlim com boa recepção.
Na Itália, distribuído pela Teodora Film, permaneceu em cartaz por um ano. No Brasil, recebeu seis indicações ao Grande Prêmio BR do Cinema Brasileiro de 2000, nas categorias de Melhor Filme Brasileiro, Melhor Atriz, Melhor Lançamento, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora e Melhor Fotografia. Ruth de Souza e Marieta Severo completam o elenco, que consolidou o nome do diretor como uma nova voz do cinema de autor brasileiro.
As Três Marias e a tragédia shakespeariana no sertão
O segundo longa, As Três Marias (2002), levou para o sertão de Pernambuco uma estrutura de tragédia: uma matriarca movida pela vingança convoca as três filhas a contratar matadores para resolver o acerto de contas entre famílias rivais. O roteiro é de Heitor Dhalia e Wilson Freire, e o elenco reúne Marieta Severo, Júlia Lemmertz, Maria Luísa Mendonça e Luíza Mariani, com participações de Wagner Moura, Lázaro Ramos, Carlos Vereza e Tuca Andrada.
A estreia mundial aconteceu no Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2002, e o lançamento brasileiro ficou com a Imagem Filmes, em agosto do mesmo ano. O filme recebeu elogios pelo elenco, pelos efeitos e pela produção, ainda que a recepção comercial tenha sido modesta. Vieram quatro indicações ao Grande Otelo de 2003, entre elas Melhor Atriz para Marieta Severo e Júlia Lemmertz, e seis nomeações ao Prêmio Guarani, incluindo Melhor Filme. Wagner Moura ganhou o prêmio de Melhor Ator no Cine Ceará.
Do Começo ao Fim e o trânsito internacional
Em Do Começo ao Fim (2009), Aluizio Abranches escreveu e co-produziu ao lado de Fernando Libonati e Marco Nanini uma história sobre dois meio-irmãos que desenvolvem uma relação afetiva incomum desde a infância e se tornam amantes na vida adulta. João Gabriel Vasconcellos e Rafael Cardoso vivem os protagonistas, com Fábio Assunção, Júlia Lemmertz e Jean Pierre Noher no elenco. O diretor concebeu o projeto como uma história de amor e tratou o tema com discrição narrativa, escolha que rendeu ao filme longa repercussão.
Lançado em 27 de novembro de 2009 com apenas nove cópias, o longa atingiu 100 mil espectadores e entrou na lista dos dez filmes brasileiros mais vistos do ano. Passou por mais de 30 festivais, foi exibido em cinemas de mais de 30 países e teve lançamento em DVD de forte desempenho comercial — na França, a primeira tiragem se esgotou em duas semanas. O filme marcou a terceira parceria do diretor com Júlia Lemmertz.
Bem Casados e a virada para a comédia
A comédia entrou na filmografia em Bem Casados (2015). Alexandre Borges interpreta Heitor, um fotógrafo de casamentos que conhece Penélope, mulher independente e sensual disposta a impedir o casamento do próprio amante — papel de Camila Morgado. O filme retoma a parceria do diretor com Alexandre Borges, iniciada em Um Copo de Cólera, e desloca o olhar sobre relações afetivas para o terreno leve da comédia romântica brasileira.
O elenco ainda traz Bianca Comparato, Christine Fernandes, Fernando São Thiago, Letícia Lima, Luíza Mariani e João Gabriel Vasconcellos, entre outros nomes. A produção foi lançada pela Imagem Filmes e chegou aos cinemas em dezembro de 2015.
Teatro, ação social e os projetos recentes
Fora do cinema, o diretor assinou em 2023 uma livre adaptação de A Tempestade, de William Shakespeare, para o teatro. A montagem troca o gênero do protagonista: Próspero vira Próspera, vivida por Julia Lemmertz, e a peça passa a conduzir a trama pelo ponto de vista feminino, dando voz a personagens que no texto original existem apenas como menção. A adaptação é assinada por Aluizio Abranches e Fernando São Thiago, com direção de Abranches, e a temporada carioca aconteceu no Teatro Poeira.
O cineasta também mantém atuação voluntária na ActionAid, organização internacional dedicada a projetos de combate à pobreza e à violência contra mulheres no Brasil. A frente social não aparece nos créditos dos filmes, mas é parte do retrato público de quem enxerga a arte como forma de discutir tolerância — tema que atravessa sua obra.
Como acompanhar o trabalho de Aluizio Abranches
Os longas do diretor circulam em festivais, mostras de cinema brasileiro e edições em DVD. Para quem quer seguir a trajetória de perto, o perfil oficial no Instagram reúne registros de gravações, temporadas de teatro e novidades de produção. As fichas técnicas completas podem ser consultadas no IMDb.
- Um Copo de Cólera (1999) — longa de estreia, adaptação da novela de Raduan Nassar exibida no Festival de Berlim.
- As Três Marias (2002) — tragédia de vingança no sertão pernambucano, com elenco premiado e indicações no Grande Otelo e no Prêmio Guarani.
- Do Começo ao Fim (2009) — drama afetivo com ampla circulação internacional e mais de 30 festivais percorridos.
- Bem Casados (2015) — comédia romântica estrelada por Alexandre Borges e Camila Morgado.
- Tempestade (2023) — adaptação teatral de Shakespeare com direção dele e Julia Lemmertz no papel principal.
Quatro longas, uma estreia em Berlim, uma adaptação literária que virou marco e a passagem pela comédia e pelo teatro resumem as escolhas de um diretor que prefere histórias de vínculo afetivo a fórmulas de gênero. Aluizio Abranches segue sendo buscado por quem quer entender a linhagem autoral do cinema brasileiro que ganhou o mundo a partir dos anos 2000.




