Em 2013, Alysson Leandro Mascaro publicou Estado e forma política, ensaio sobre teoria do Estado que a Boitempo lançou com elogio de Slavoj Žižek — "a obra mais importante do pensamento político marxista nas últimas décadas", escreveu o filósofo esloveno. O livro deu projeção nacional a um jurista que já era conhecido nos cursos de direito por outro motivo: os manuais que assinava.
Formado, doutor e livre-docente na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, o Largo São Francisco, Mascaro construiu uma carreira de professor e autor de obras didáticas de filosofia, sociologia e introdução ao estudo do direito ao mesmo tempo em que se tornou um dos principais nomes brasileiros da crítica marxista do Estado e do direito. Quem procura o nome dele hoje chega por dois caminhos que se cruzam: os livros que atravessaram gerações de estudantes e as notícias sobre o processo disciplinar que terminou com sua demissão da USP, em 2026.
Quem é Alysson Leandro Mascaro
Alysson Leandro Barbate Mascaro nasceu em Catanduva, no interior de São Paulo, em 1976. É jurista, filósofo do direito, advogado e professor. Toda a formação acadêmica foi feita na USP: graduação em Direito entre 1994 e 1998, doutorado em Filosofia e Teoria Geral do Direito entre 2000 e 2002 e livre-docência concluída em 2006. A partir de 2008, atuou como professor associado do departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito, onde sua pesquisa se concentrou na relação entre direito, Estado e capitalismo.
Além da USP, lecionou na Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde foi professor titular de Direito entre 1999 e 2016, coordenou o curso de graduação em Direito da Fundação Padre Albino, em sua cidade natal, entre 2002 e 2009, e passou pela Universidade Santa Cecília, no litoral paulista. Em 2022, entrou para o corpo docente do mestrado em Direito Médico da Universidade de Santo Amaro (Unisa).
O que Mascaro defende na teoria do direito
A obra de Mascaro se organiza em torno de uma pergunta que atravessa a tradição marxista: como o direito e o Estado se relacionam com as formas sociais do capitalismo? Em Estado e forma política, ele desloca o debate das instituições e das disputas pelo poder estatal para as formas sociais que dão origem ao próprio Estado, em diálogo com autores como Evguiéni Pachukanis e Louis Althusser. A abordagem o aproxima da tradição crítica do direito brasileiro, campo em que seus livros funcionam como porta de entrada e como interpretação própria.
Nos manuais didáticos, essa perspectiva aparece de forma sistemática. Mascaro percorre a história da filosofia jurídica — dos gregos ao pensamento contemporâneo — e os clássicos da sociologia — Comte, Durkheim, Weber e Marx — para chegar às correntes juspositivistas, não juspositivistas e críticas, sem separar teoria e crítica social. É esse formato de curso que explica a presença dos livros dele em bibliografias de graduação há duas décadas.
Os livros que marcaram o ensino jurídico
Mascaro publica em editoras de perfis diferentes, e cada obra cumpre um papel na trajetória:
- Filosofia do Direito (Atlas) — panorama da filosofia jurídica da Antiguidade à contemporaneidade, em 11ª edição (2024);
- Sociologia do Direito (Atlas) — percurso pelos clássicos e pelas sociologias do direito contemporâneas, com capítulos sobre a produção brasileira, em 2ª edição (2023);
- Introdução ao Estudo do Direito (Atlas) — obra de entrada no curso jurídico, atualizada em 9ª edição (2024);
- Estado e forma política (Boitempo, 2013) — ensaio de teoria do Estado que projetou o autor fora do meio jurídico, com edição argentina pela Prometeo Libros (2016);
- Crise e golpe (Boitempo, 2018) — interpretação da crise política brasileira e do impeachment de 2016;
- Althusser e o materialismo aleatório (Contracorrente, 2020) — debate com o filósofo italiano Vittorio Morfino.
Trabalhos anteriores, como Crítica da legalidade e do direito brasileiro (Quartier Latin) e Utopia e direito (2008), continuam citados em pesquisas acadêmicas. O detalhamento de cada obra está nas páginas de projetos deste perfil.
Como ficou conhecido fora da academia
O reconhecimento público veio menos dos cargos e mais dos livros. A apresentação de Estado e forma política por Slavoj Žižek colocou o nome do jurista no circuito de leitores marxistas, e a edição em espanhol ampliou essa circulação na América Latina. A produção seguinte, Crise e golpe, apareceu em um momento de intenso debate sobre o impeachment e a judicialização da política, quando suas análises passaram a ser procuradas também por leitores fora do direito.
Desde 2012, Mascaro mantém o canal Alysson Mascaro no YouTube, com dezenas de milhares de inscritos, onde publica aulas, análises de conjuntura e entrevistas sobre marxismo, crise, ideologia, política e Estado de direito. Também mantém perfil no X (antigo Twitter) desde 2022, e suas obras são discutidas em podcasts e cursos livres pelo país.
As acusações e a demissão da USP
Em dezembro de 2024, a USP afastou Mascaro depois que uma reportagem do The Intercept Brasil veiculou relatos de dez alunos e ex-alunos, todos homens, que o acusavam de assédio sexual em episódios ocorridos entre 2006 e 2024. Nos dias seguintes, veículos como G1, Folha de S.Paulo e Record publicaram outros relatos semelhantes, e a universidade instaurou apuração preliminar.
Em fevereiro de 2025, com o relatório concluído, a USP abriu processo administrativo disciplinar e renovou o afastamento por mais 120 dias. A demissão foi publicada no Diário Oficial do Estado de São Paulo em 11 de fevereiro de 2026, com base no artigo 256, inciso II, do Estatuto dos Funcionários Públicos Civis do Estado, que trata de procedimento irregular de natureza grave, com efeito imediato. Mascaro negou as acusações: em vídeo divulgado quando os primeiros relatos vieram à tona, disse ser vítima de perseguição digital, e sua defesa classificou o caso como um conjunto de "inverdades e intrigas".
Onde encontrar a obra de Mascaro
Os livros acadêmicos estão disponíveis em livrarias e nas páginas das próprias editoras: Atlas/GEN publica os manuais de Filosofia do Direito, Sociologia do Direito e Introdução ao Estudo do Direito; a Boitempo edita Estado e forma política, Crise e golpe e o opúsculo Crise e pandemia (2020); a Contracorrente lançou o volume sobre Althusser. Quem pesquisa teoria do Estado encontra em Estado e forma política o núcleo do pensamento do autor, e nos manuais didáticos a versão em sala de aula desse mesmo percurso.






