O editor olhou para o original de Mentes Inquietas e disse que déficit de atenção não vendia. Queria convencer Ana Beatriz Barbosa Silva a escrever sobre compulsão por compras. Ela rasgou o contrato, vendeu o Peugeot 205 e mandou imprimir três mil exemplares. Em um mês, a psiquiatra conta à Folha de S.Paulo que o livro chegou a vinte mil cópias.
Quem busca o nome hoje quase nunca está atrás dessa cena de 2003. Está tentando nomear um vizinho sem culpa, entender um filho que não para ou conferir se a médica do PodPeople é a mesma autora de Mentes Perigosas. O recorte público é este: psiquiatra formada no Rio de Janeiro, escritora de comportamento humano e presença constante em televisão, livros e redes.
Formação na UERJ e o diagnóstico que veio fora da grade
Ana Beatriz Barbosa Silva nasceu no Rio de Janeiro em 1966. Graduou-se em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e fez residência em psiquiatria na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O site oficial registra ainda o título de professora honoris causa pela UniFMU, em São Paulo.
O diagnóstico de TDAH não veio de um consultório brasileiro. Aos 19 anos, já na faculdade, ela viajou a um congresso em Chicago. Perdeu a palestra de depressão em adolescentes porque leu o horário errado. Entrou, por acaso, numa apresentação do médico John Ratey sobre déficit de atenção. Ao final, marcou consulta com o próprio palestrante. Ratey, segundo o relato que ela deu à Folha em 2010, resumiu o quadro com a frase que virou marca: “Ana Beatriz, você é TDAzéssima.”
Ela descreve a infância com desatenção, impulsividade e dislexia. O pai, professor de português, corrigia o diário até o texto ficar vermelho e brincava que ainda bem que a filha não seria escritora. A mãe elogiava o conteúdo e pedia atenção aos acentos. Esse contraste aparece no depoimento público como o chão da futura autora, não como milagre de superação.
O tratamento medicamentoso, no mesmo relato, durou cinco anos no início. Depois, ela passou a recorrer à medicação em momentos pontuais, como a finalização de um livro. Não é receita para o leitor: é o que ela conta sobre o próprio caso.
Como Mentes Inquietas saiu do consultório para as livrarias
Publicado em 2003, Mentes Inquietas nasceu da recusa em trocar o tema. A primeira editora queria compulsão por compras; o TDAH, na avaliação comercial da época, não vendia. O caminho escolhido foi artesanal: impressão paga com a venda do carro, distribuição pela internet e pela clínica. A Folha registrou 200 mil exemplares da obra até 2010.
A série que veio depois transformou transtornos em títulos de prateleira. Mentes e Manias, Mentes Insaciáveis, Mentes com Medo, Mentes Perigosas, Mentes Depressivas e Felicidade ampliaram o mesmo método: linguagem acessível, casos clínicos e um recorte para o leitor leigo. Em 2009, a revista Veja listou dois de seus livros entre os mais vendidos de não ficção no Brasil.
No site, a autora informa mais de 2,5 milhões de livros vendidos. O número é a cifra pública que ela apresenta hoje; o que se pode cravar com fonte de imprensa, no começo da carreira, é o salto de três mil para vinte mil cópias em trinta dias e a permanência nas listas no fim da década de 2000.
- Medicina na UERJ e residência em psiquiatria na UFRJ
- Diagnóstico de TDAH aos 19 anos, em Chicago, com John Ratey
- Mentes Inquietas em 2003, depois de recusar trocar o tema
- Mentes Perigosas em 2008, o título que mais se busca
- Consultoria para novelas da TV Globo e cartilha antibullying do CNJ em 2010
Mentes Perigosas, televisão e a cartilha do CNJ
Se Mentes Inquietas explica por que ela escreve, Mentes Perigosas: o psicopata mora ao lado explica por que o nome atravessou a clínica. Lançado em 2008, o livro popularizou no Brasil uma leitura da psicopatia como presença cotidiana — no trabalho, na família, na escola — e não só como figura de filme. A apresentação oficial da edição da Principium inclui um estudo sobre Ted Bundy e menções a casos brasileiros de grande repercussão, como Isabella Nardoni e Eloá Cristina Pimentel.
A mesma década a colocou na televisão. A biografia pública registra consultoria para a construção de personagens em novelas da TV Globo, entre elas Caminho das Índias e A Força do Querer. Em 2010, o Conselho Nacional de Justiça publicou a cartilha antibullying de sua autoria, voltada a profissionais da educação. No mesmo ano, ela sentou na bancada do Roda Viva, da TV Cultura.
Essa passagem da clínica para o horário nobre explica a busca atual: o público chega atrás de um nome que traduz TDAH, psicopatia e bullying sem jargão de congresso. A contrapartida é o risco de tomar o livro de divulgação por manual de diagnóstico. A própria autora, na entrevista de 2010, criticou o excesso de rótulo de TDAH em crianças cujo comportamento tinha outras causas.
Livros, PodPeople e o que ela discute agora
A bibliografia oficial inclui ainda Mentes que amam demais, sobre o chamado jeito borderline de ser; Mundo Singular, sobre autismo; Mentes Consumistas; e Felicidade: ciência e prática para uma vida feliz, de 2022, em que ela sai do catálogo de transtornos para discutir neurotransmissores, filosofia e hábitos. Há também a estreia em ficção com Horizonte Vertical.
Desde 2023, o eixo digital é o PodPeople. O site oficial apresenta o programa como o maior podcast de saúde mental da América Latina e aponta cursos online, palestras e redes — Instagram, YouTube, TikTok e Facebook — como canais permanentes. A médica fala de TDAH em mulheres, ansiedade, psicopatia e, em textos recentes do próprio site, de anabolizantes e saúde mental.
Quem navega por psicologia e saúde encontra o mesmo tipo de figura: profissional de consultório que virou autora de massa. No caso dela, o diferencial público não é um método com nome de marca, e sim a série Mentes e a biografia de quem escreveu sobre TDAH depois de receber o diagnóstico no meio de um congresso.
O processo de Mentes Ansiosas
A trajetória editorial também inclui uma condenação. O psiquiatra Tito Paes de Barros Neto ajuizou ação alegando que Mentes Ansiosas, lançado em 2011 pela Objetiva, plagiava trechos de Sem medo de ter medo, de 2006. O Tribunal de Justiça de São Paulo suspendeu a comercialização em liminar e, anos depois, manteve a condenação por danos morais e materiais. A Folha noticiou indenização de R$ 20 mil por danos morais; uma perícia apontou 28 trechos reproduzidos, parcial ou conceitualmente, na primeira edição, e quatro na segunda.
A defesa argumentou que as semelhanças seriam comuns à literatura médica. O livro foi relançado depois com outro selo. Outra denúncia, envolvendo Corações Descontrolados e a psiquiatra Ana Carolina Barcelos Cavalcante Vieira, levou a editora a interromper vendas em 2013; a segunda edição saiu sem o trecho contestado e voltou às livrarias no mesmo ano, segundo a Folha.
Esses episódios não apagam o alcance de Mentes Perigosas nem o papel dela na conversa brasileira sobre TDAH. Impõem, porém, um critério de leitura: a autoridade pública existe, a obra circula, e o processo está nos autos da imprensa. Quem chega hoje pelo Instagram ou pelo podcast encontra a mesma médica que vendeu o carro para imprimir o primeiro livro — agora com milhões de exemplares e um histórico judicial que faz parte do dossiê, não da lenda.





