Na noite de 30 de abril de 1981, Andrea Neves da Cunha ajudou a socorrer um homem ferido no estacionamento do Riocentro, no Rio de Janeiro, e o acompanhou até um hospital. O episódio entraria para a história como o Atentado do Riocentro: o ferido era o capitão Wilson Dias Machado, um dos militares envolvidos na ação que terminou com a explosão de uma bomba dentro do próprio carro. Andrea tinha 22 anos, cursava jornalismo e só anos mais tarde, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, relatou o que havia visto.
A cena é um recorte improvável de uma trajetória que se confunde com a política brasileira. Nascida em Belo Horizonte em 15 de fevereiro de 1959, Andrea é filha de Inês Maria Neves da Cunha e de Aécio Ferreira da Cunha, neta de Tancredo Neves — o presidente eleito em 1985 que morreu antes de tomar posse — e irmã de Aécio Neves, ex-governador de Minas Gerais. Jornalista formada pela PUC-Rio, passou por redações, campanhas eleitorais e gabinetes, organizou livros sobre a memória do avô e presidiu o Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas) entre 2003 e janeiro de 2014.
Origem e formação
Andrea Neves fez o curso primário no Colégio Sacré-Coeur de Jesus, em Belo Horizonte, e o secundário no Colégio São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro. Formou-se em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) em 1985, ano em que integrou a delegação brasileira do Encontro Internacional da Juventude, realizado em Cuba, onde foi oradora oficial em uma solenidade com a presença de Fidel Castro.
Na universidade, militou no movimento estudantil e fez campanha pela anistia de exilados políticos, além de participar do Movimento Jovem Pró-Tancredo, no Rio de Janeiro. Também tomou parte nas manifestações das Diretas Já e, no início dos anos 1980, visitou a Nicarágua durante o período sandinista. Ainda naquela década, trabalhou como pesquisadora no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getulio Vargas, em uma equipe que ajudou a organizar o acervo de Getúlio Vargas.
De redações e campanhas à gestão pública
O início da carreira profissional foi no jornalismo. Andrea colaborou como freelancer na Revista de Domingo, do Jornal do Brasil, e na Revista Pais & Filhos. Em 1986, coordenou a publicação do livro "São João del Rei". Em 1990, entrou para a administração pública como secretária-adjunta de Cultura do governo de Minas Gerais, na gestão de Hélio Garcia, função em que esteve à frente da coordenação das comemorações dos 200 anos da morte de Tiradentes.
A partir de 2003, com a chegada do irmão ao governo mineiro, ela integrou o Grupo Técnico de Comunicação do Estado de Minas Gerais, núcleo que reunia responsáveis pela comunicação de órgãos da administração direta e de empresas públicas para definir diretrizes de prestação de contas à população. A ligação com a política eleitoral vem de mais longe: Andrea participou de campanhas do PSDB em Minas desde 1994 e, em 2014, atuou na comunicação da campanha nacional do partido e na campanha estadual.
Em 2013, foi incluída pelo portal iG na lista dos 60 nomes mais poderosos do Brasil.
O que Andrea Neves fez no Servas
Andrea Neves presidiu o Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas) entre 2003 e janeiro de 2014. A entidade, sem fins lucrativos e ligada ao governo estadual, articula programas de assistência social, voluntariado e mobilização da sociedade civil. Na gestão dela, o Servas ganhou visibilidade com iniciativas que combinavam resposta a emergências, formação de jovens e apoio a municípios.
- Movimento Minas Solidária — articulação criada após as chuvas de 2003, com 2,1 milhões de donativos distribuídos em 201 municípios e 953 moradias construídas em 60 cidades;
- Valores de Minas — programa de oficinas de teatro, dança, circo, música e artes plásticas para cerca de 500 alunos da rede pública por ano;
- Vozes do Morro — projeto de valorização da produção musical das comunidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte;
- Campanha Volta — parceria com a Polícia Civil para localizar pessoas desaparecidas, que ajudou a encontrar mais de 3 mil pessoas em pouco mais de três anos;
- Proteja Nossas Crianças — campanha lançada em 2008 contra a exploração sexual de crianças e adolescentes;
- Centro Mineiro de Referência em Resíduos (CMRR) — espaço de apoio a prefeituras e empresas na transformação de resíduos em trabalho e renda.
Além dos programas, o período foi marcado pela ampliação do Vitavida, que produziu mais de dez milhões de refeições desidratadas, e pelo apoio à criação de brinquedotecas em hospitais públicos e filantrópicos mineiros.
Livros e a memória de Tancredo Neves
A produção editorial é um dos eixos mais consistentes da trajetória de Andrea Neves. Em 1986, ela coordenou a publicação de "São João del Rei". Em 2005, concebeu e organizou a obra "Tancredo Neves, um Homem para o Brasil", que reúne fotografias, documentos e iconografia sobre a vida pública do avô. Em 2010, durante as comemorações do centenário de Tancredo, trabalhou com o jornalista Mauro Santayana na organização de uma coletânea de discursos do ex-presidente.
Esse trabalho de memória dialoga com a literatura de não ficção e com a pesquisa sobre a história política brasileira, temas que também aparecem em projetos que ela coordenou, como o programa de arte-educação Valores de Minas, ligado à educação pública.
Investigações, prisão e absolvição
Em 18 de maio de 2017, Andrea Neves foi presa na Operação Patmos, 41ª fase da Operação Lava Jato, por suspeita de ter pedido dinheiro ao empresário Joesley Batista, dono do grupo JBS, em nome do irmão. Ela foi levada para a Superintendência da Polícia Federal em Belo Horizonte e depois transferida para uma penitenciária na cidade.
A Justiça absolveu Andrea das acusações: a decisão da 7ª Vara Criminal de São Paulo foi confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3) em julho de 2023, que reconheceu a inocência dela e a impropriedade da prisão. Ela também foi citada na delação do ex-deputado Pedro Corrêa, em 2016 — que o próprio declarante disse, em 2022, pretender anular — e na delação do ex-executivo da Odebrecht Benedicto Júnior; nesse caso, o Supremo Tribunal Federal rejeitou a denúncia por falta de provas em 2022.
Em outubro de 2014, uma reportagem do UOL apontou que Andrea coordenou a aplicação de recursos publicitários do governo de Minas no mesmo período em que veículos de imprensa de propriedade da família recebiam verbas de anúncios do estado.
Perguntas frequentes sobre Andrea Neves
Quem é Andrea Neves?
Andrea Neves da Cunha é uma jornalista brasileira, nascida em Belo Horizonte em 1959. Foi presidente do Servas de 2003 a 2014 e é conhecida pela atuação na comunicação política de Minas Gerais e pela organização de livros sobre Tancredo Neves.
Andrea Neves é parente de Tancredo Neves e de Aécio Neves?
Sim. Ela é neta de Tancredo Neves e irmã de Aécio Neves. A relação familiar marcou a trajetória dela na política mineira e nos projetos de memória do avô.
O que Andrea Neves fez no Servas?
Presidiu a entidade por quase 11 anos, coordenando o Movimento Minas Solidária, o programa Valores de Minas, o projeto Vozes do Morro, a Campanha Volta e outras iniciativas de assistência social e formação de jovens.
Quais livros Andrea Neves organizou?
Entre as obras ligadas a ela estão "São João del Rei" (1986), "Tancredo Neves, um Homem para o Brasil" (2005) e a coletânea de discursos de Tancredo publicada no centenário do político, em 2010.




