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Anna Muylaert

Nascimento: 1964 São Paulo, SP
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Diretora, roteirista e escritora paulistana, Anna Muylaert assina Durval Discos, É Proibido Fumar e Que Horas Ela Volta?, além dos livros de contos e poemas.

Anna Muylaert escreveu e dirigiu Que Horas Ela Volta?, o drama que devolveu Regina Casé ao centro do cinema brasileiro em 2015 e colocou a relação entre patrões e empregadas domésticas no debate público. Antes disso, ela já havia assinado episódios de Mundo da Lua e Castelo Rá-Tim-Bum, dois marcos da TV Cultura, e o longa Durval Discos, que a apresentou como diretora em 2002.

Nascida em São Paulo, em 21 de abril de 1964, formou-se em cinema na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e começou a trabalhar na área ainda nos anos 1980, como crítica e roteirista. A trajetória atravessa televisão, cinema, documentário e literatura, sempre com foco em personagens comuns diante de desigualdade, família e desejo.

Da TV Cultura ao primeiro longa-metragem

Antes de dirigir filmes para adultos, Anna Muylaert ajudou a construir a memória afetiva de uma geração de crianças brasileiras. Ela integrou o grupo de criação de programas infantis da TV Cultura e escreveu roteiros para séries como Mundo da Lua (1991) e Castelo Rá-Tim-Bum (1995), além de ter participado da criação do TV CRUJ, o clube do Disney no SBT, ao lado de Cao Hamburger, em 1997.

Essa base na linguagem infantil aparece em escolhas que acompanham toda a carreira: clareza na condução da história, atenção ao ponto de vista de quem costuma ser ignorado e humor como ferramenta para tratar assuntos difíceis. No fim dos anos 1980 e no começo dos 1990, ela também dirigiu curtas como Rock Paulista (1988) e A Origem dos Bebês segundo Kiki Cavalcanti (1995), que circularam por festivais e ajudaram a preparar a passagem para a direção de longas.

Durval Discos e a estreia em Gramado

Durval Discos chegou aos cinemas em 2002 e levou cinco Kikitos do Festival de Cinema de Gramado, entre eles os de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro. O filme mistura suspense, comédia e música para contar a história de uma loja de discos de vinil, e firmou a diretora como uma das vozes mais originais de sua geração.

No mesmo período, ela também trabalhou como roteirista de projetos dirigidos por outras pessoas, como Desmundo (2002), O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2008), vencedor do Grande Otelo de melhor roteiro original, e Quanto Dura o Amor? (2009).

Que Horas Ela Volta? e o retrato da desigualdade dentro de casa

Originalmente intitulado A Porta da Cozinha, o roteiro partiu de uma experiência concreta: a babá que cuidou do filho de Anna Muylaert havia deixado a própria filha em outro estado para trabalhar na capital paulista. O texto foi reescrito quatro vezes ao longo de mais de uma década, em parceria com Regina Casé, e filmado em fevereiro de 2014 em uma mansão do Morumbi.

No filme, Val é uma empregada doméstica que reconstruiu a vida longe da filha, Jéssica, interpretada por Camila Márdila. A chegada da garota à casa dos patrões desmonta as regras não ditas de convivência entre as classes e expõe o que a simpatia cotidiana esconde. Com Karine Teles, Lourenço Mutarelli e Michel Joelsas no elenco, Que Horas Ela Volta? estreou no Festival de Sundance em 2015, passou pela mostra Panorama da Berlinale, onde recebeu o Prêmio do Público e o prêmio da C.I.C.A.E., e foi escolhido pelo Ministério da Cultura como representante brasileiro na disputa pelo Oscar de filme estrangeiro em 2016.

É Proibido Fumar, Mãe Só Há Uma e Alvorada

Entre o primeiro e o grande sucesso internacional, Anna Muylaert lançou É Proibido Fumar (2009), com Glória Pires e Paulo Miklos, que rendeu a ela o Grande Otelo de melhor direção e de melhor longa-metragem de ficção em 2010, e dirigiu Chamada a Cobrar (2012), inspirado no telefilme Para Aceitá-la Continue na Linha.

Em 2016, voltou ao Festival de Berlim com Mãe Só Há Uma, protagonizado por Naomi Nero, e venceu o Teddy Award do júri de leitores da revista alemã Männer. O longa acompanha o adolescente Pierre, que descobre não ser filho biológico da mulher que o criou e tem a identidade desmontada de uma vez.

Cinco anos depois, a diretora trocou a ficção pelo documentário em Alvorada (2021), codirigido com Lô Politi. Filmado dentro do Palácio da Alvorada, o longa acompanha o cotidiano de Dilma Rousseff durante o processo de impeachment e recebeu quatro indicações no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2022, incluindo melhor longa-metragem documentário e melhor direção.

Quando o sangue sobe à cabeça: a Anna Muylaert escritora

Os filmes não são a única forma de escrita da diretora. Em 2020, ela publicou Quando o sangue sobe à cabeça, livro de seis contos editado pela Lote 42, com histórias sobre mulheres que escreveu nos anos 1990 para desenvolver a própria voz autoral antes de se firmar no cinema. Antes disso, havia lançado o livro de poemas Vai!, pela Massao Ohno.

A literatura ocupa um lugar curioso na trajetória: foi escrevendo contos e personagens femininas diversas que Muylaert testou temas que depois apareceriam nas telas, como culpa, desejo, maternidade e a dificuldade de ser ouvida. Para quem acompanha o cinema autoral brasileiro, os livros funcionam como um laboratório criativo — histórias que a diretora precisou colocar em texto antes de levá-las às telas. A ponte entre a ficção literária e o roteiro aparece também na prosa direta da autora, que prefere cenas concretas a reflexões abstratas.

O Clube das Mulheres de Negócios e A Melhor Mãe do Mundo

Em O Clube das Mulheres de Negócios (2024), Anna Muylaert imagina um Brasil distópico em que as mulheres ocupam todos os espaços de poder e os homens vivem em posição submissa. O filme, escrito com Gabriel Mendonça e Suzana Pires, acompanha o fotógrafo Jongo, vivido por Luís Miranda, dentro de um clube de campo frequentado por figuras como Cristina Pereira, Irene Ravache, Louise Cardoso e Ittala Nandi. A sátira estreou no 52º Festival de Gramado, onde recebeu o prêmio especial do júri pelo desempenho do elenco, e chegou aos cinemas em novembro de 2024 pela Vitrine Filmes.

Já A Melhor Mãe do Mundo (2025) parte de outro cenário: Gal, interpretada por Shirley Cruz, foge com os filhos em uma carroça depois de ser ignorada pela polícia ao denunciar os abusos do marido, vivido por Seu Jorge. O filme, roteirizado com Grace Passô e Mariana Jaspe, teve estreia mundial na mostra Berlinale Special, do Festival de Berlim, e mostra a diretora revisitando o tema da mãe que precisa se reinventar para proteger quem ama.

Para os próximos anos, ela prepara Geni e o Zepelim, adaptação da canção de Chico Buarque, com Ayla Gabriela e Seu Jorge no elenco — a primeira adaptação ficcional da música para o cinema.

Prêmios e reconhecimento público

Ao longo de mais de três décadas, o trabalho de Anna Muylaert acumulou prêmios em festivais brasileiros e internacionais. Alguns marcos:

  • Cinco Kikitos no Festival de Gramado de 2002 por Durval Discos, incluindo Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro;
  • Candangos de melhor longa-metragem e melhor roteiro por É Proibido Fumar no Festival de Brasília de 2009;
  • Grande Otelo de Melhor Direção e Melhor Longa-metragem de Ficção em 2010 e 2016;
  • Prêmio do Público da Panorama e da C.I.C.A.E. na Berlinale 2015 por Que Horas Ela Volta?;
  • Teddy Award do júri de leitores no Festival de Berlim 2016 por Mãe Só Há Uma.

Em 2012, recebeu a Ordem do Mérito Cultural, no grau de Cavaleira. A diretora também integra a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, responsável pela organização do Oscar, e costuma participar de debates, festivais e iniciativas de formação de público.

Como acompanhar o trabalho de Anna Muylaert

Anúncios de novos filmes, exibições e participações em festivais aparecem com frequência nos perfis oficiais da diretora no Instagram e no Facebook. Suas obras circulam entre o cinema, as plataformas de streaming e as livrarias — os títulos mais recentes seguem disponíveis em serviços como Globoplay, Prime Video, Netflix e Apple TV, e os livros podem ser encontrados em livrarias brasileiras e no site da editora Lote 42.

Quem chega até aqui em busca de uma introdução costuma começar por Que Horas Ela Volta?, que resume os temas centrais da obra, e depois seguir para Durval Discos, Mãe Só Há Uma e os contos de Quando o sangue sobe à cabeça. O conjunto forma um retrato coerente de uma cineasta que fala de desigualdade sem panfleto, com humor seco e olhar atento às personagens que a sociedade prefere não ver.

Projetos de Anna Muylaert

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Que Horas Ela Volta?
Que Horas Ela Volta?
Filme de 2015 escrito e dirigido por Anna Muylaert, com Regina Casé, que discutiu as relações entre patrões e empregadas domésticas no Brasil.
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Mãe Só Há Uma
Mãe Só Há Uma
Drama de 2016 escrito e dirigido por Anna Muylaert, vencedor do Teddy Award no Festival de Berlim, sobre um adolescente em busca de identidade.
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Alvorada
Alvorada
Documentário de 2021 dirigido por Anna Muylaert e Lô Politi sobre o cotidiano de Dilma Rousseff durante o processo de impeachment.
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