Em novembro de 1971, o papa Paulo VI nomeou Antônio Afonso de Miranda bispo de Lorena. Três anos depois, a Canção Nova registra que ele incentivou o padre Jonas Abib a fundar a comunidade, depois de tê-lo chamado para evangelizar jovens usando os meios de comunicação como púlpito. Quem procura o nome hoje quase sempre chega por esse gesto, ou pelo fato de ele ter morrido em 2021, aos 101 anos, então o bispo mais idoso do Brasil.
Dom Antônio Affonso de Miranda, grafia usada pela CNBB e pelas dioceses, foi sacerdote sacramentino, advogado, diretor de jornal e autor de mais de quarenta livros. A vida pública dele cabe em cargos de Igreja, seminário e catequese, não em um canal pessoal.
Quem foi Dom Antônio Afonso de Miranda
Nasceu em 14 de abril de 1920 em Cipotânea, Minas Gerais. A CNBB, no texto do centenário, lembra a cidade como berço de dezenas de padres e de vários bispos ao longo de menos de um século. Em 1929 a família mudou-se para Mercês, também na Zona da Mata mineira. Morreu na manhã de 11 de outubro de 2021, no Hospital Albert Sabin, em Juiz de Fora. O sepultamento foi no dia seguinte, no Santuário Arquidiocesano de Nossa Senhora das Mercês.
Pertencia à Congregação dos Missionários de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, os sacramentinos, sigla SDN. O lema episcopal registrado na Wikipédia é De uno pane, “de um só pão”. A frase conversa com o nome da congregação e com os livretos dele sobre a Eucaristia.
Do seminário de Manhumirim à ordenação em Belo Horizonte
Em 1º de fevereiro de 1933, ainda menino, entrou no seminário da congregação em Manhumirim. Ali foi aluno do fundador, padre Júlio Maria De Lombaerde, cujo processo de beatificação a CNBB menciona. Fez o noviciado na sede da congregação entre dezembro de 1937 e dezembro de 1938, começou a filosofia no mesmo ambiente em 1940 e, em 1942, foi para o Seminário do Coração Eucarístico de Jesus, em Belo Horizonte, onde concluiu a teologia em 1945.
Recebeu a ordenação presbiteral em 1º de novembro de 1945, em Belo Horizonte. A Diocese de Lorena lista, em seguida, cargos concretos: diretor da Escola Apostólica de Manhumirim, redator e diretor do jornal O Lutador, retomada do Seminário São Rafael em Dores do Indaiá entre 1949 e 1952, e o governo da própria congregação.
Superior geral aos 32 anos
Em 1952, aos 32 anos, foi eleito superior geral dos sacramentinos e sucedeu o fundador. O jornal O São Paulo registra que a idade exigiu aprovação de Roma e que ele foi o primeiro superior geral da congregação. Ficou no cargo até 1961. Depois voltou a dirigir o Seminário São Rafael, foi vigário e pároco em Dores do Indaiá de 1965 a 1971 e, entre 1966 e 1971, diretor do Colégio Estadual Francisco Campos.
A diocese fixa esse trecho de 1965 a 1971 como vigário e pároco. Notas de falecimento falam em dezesseis anos de paróquia, em três períodos. O número maior não vem discriminado nas páginas diocesanas. O que fica sem disputa é o retorno a Dores do Indaiá na década de 1960 e a saída para o episcopado em 1971.
No mesmo intervalo estudou Direito na Universidade do Espírito Santo, em Vitória, de 1965 a 1969, e licenciou-se em Filosofia em 1971 pela Faculdade Salesiana de São João del Rei. A CNBB o apresenta como jornalista e advogado. O dado fechado pela diocese é o curso de Direito em Vitória e a direção do O Lutador.
Lorena, Campanha e Taubaté
A ordenação episcopal foi em 27 de dezembro de 1971, em Mercês. A posse em Lorena ocorreu em 23 de janeiro de 1972. Foi o quinto bispo daquela diocese e permaneceu até 6 de janeiro de 1977. Além do governo local, a Diocese de Lorena o lista na comissão representativa do Regional Sul 1 da CNBB, no conselho administrativo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo entre 1972 e 1977 e como delegado brasileiro na Conferência de Puebla, em 1979.
Em 11 de julho de 1977 tornou-se bispo coadjutor da Campanha, com direito à sucessão, e administrador apostólico, porque a doença de Dom Othon Motta impedia o governo da diocese. Não chegou a ser o bispo diocesano da Campanha. Em 6 de agosto de 1981, João Paulo II o nomeou bispo de Taubaté, para suceder Dom José Antônio do Couto. A renúncia, aos 75 anos, foi aceita em 22 de maio de 1996. Ele seguiu como administrador apostólico até a posse de Dom Carmo João Rhoden, em 17 de agosto daquele ano.
- Lorena: nomeação em novembro de 1971, posse em janeiro de 1972, saída em 6 de janeiro de 1977.
- Campanha: coadjutor e administrador apostólico de 1977 a 1981.
- Taubaté: bispo diocesano de 1981 a 1996 e, depois, emérito.
- Ordenação presbiteral em 1º de novembro de 1945 e ordenação episcopal em 27 de dezembro de 1971.
O encargo que a Canção Nova reconhece como origem
O texto da CNBB sobre o centenário é direto: no primeiro governo, em Lorena, ele chamou o padre Jonas Abib e o designou para evangelizar a juventude, com os meios de comunicação como púlpito. A assessoria da Canção Nova, citada pelo G1, situa em 1974 o incentivo à fundação da comunidade e trata esse auxílio como a herança deixada à diocese de Lorena. A comunidade cresceu em Cachoeira Paulista, com rádio, televisão e um complexo de eventos. O bispo não virou apresentador nem responsável pela emissora. O vínculo documentado é o encargo pastoral dado a Jonas Abib.
O que ele publicou
A CNBB fala em mais de quarenta livros, entre teologia, mariologia, catequese, formação moral, pastoral e um volume de poemas, e o inclui na Academia Taubateana de Letras. Em entrevista da Diocese de Taubaté, ele citou dois títulos antigos: uma vida do fundador da congregação e Maria, mãe da Divina Graça. Em 2002, a Diocese de Lorena registra Nossa Senhora da Piedade: Lorena de Minha Saudade, coletânea de homilias na catedral da padroeira, de 1977 a 2000.
Outra linha, curta e de prateleira, saiu pela Editora Santuário na coleção “O que é preciso saber”, com um volume para cada sacramento ou tema. Dois seguem identificáveis no comércio: O que é preciso saber sobre a Eucaristia e O que é preciso saber sobre a Renovação Carismática. São livretos de formação, não tratados de faculdade. No centenário, o jornalista Henrique Faria lançou Dom Antônio Affonso de Miranda, SDN – Crônica do menino que virou bispo. Esse livro é de outro autor e não entra no que o bispo escreveu.
Quem cruza o nome com a literatura de formação religiosa encontra um autor de paróquia e de seminário, não um romancista. O miolo da obra é explicação de sacramento, de Maria e de vida pastoral.
Os últimos anos em Mercês
Depois da renúncia, morou em Taubaté, na companhia do sucessor, até 27 de maio de 2019. Sem condições de exercer o ministério como antes, transferiu-se para Mercês e passou a viver com as irmãs Maria José e Maria Therezinha. A assessoria informou que ele se manteve lúcido até os 100 anos. Em novembro de 2020 sofreu uma queda no quarto, fraturou o fêmur e foi operado no Hospital Albert Sabin. Não se recuperou. Morreu ali em 11 de outubro de 2021.
Dom Wilson Angotti, bispo de Taubaté, disse ao O São Paulo que a passagem dele pela diocese ficou marcada pelo equilíbrio entre responsabilidade e generosidade. O recorte público cabe em três dioceses, numa congregação sacramentina e no encargo dado a Jonas Abib em Lorena, do sacerdócio em 1945 à morte em 2021.



