Antonio Benetazzo morreu aos 30 anos, em 30 de outubro de 1972, depois de dois dias de tortura nas dependências do DOI-CODI de São Paulo. O regime militar divulgou outra versão: a de um militante que teria se jogado sob as rodas de um caminhão na rua João Boemer, no Brás. Décadas mais tarde, médicos consultados pela família apontaram um ferimento à bala na cabeça e queimaduras que o laudo da época ignorou, e a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo concluiu que ele foi preso, torturado e morto por agentes do próprio Estado. Filho de italianos que deixaram Verona perseguidos pelo fascismo de Mussolini, Benê, como era chamado pelos companheiros, foi líder estudantil, professor, jornalista e artista plástico, e viveu os anos mais duros da ditadura brasileira entre a universidade, os movimentos de cultura popular e a clandestinidade.
De Verona ao movimento estudantil
Antonio Benetazzo nasceu em 1º de novembro de 1941, em Verona, no Norte da Itália, filho de Pietro Benetazzo e Giulietta Sguazzardo Benetazzo. A família emigrou para o Brasil em 1950, quando ele tinha nove anos, e se estabeleceu no litoral paulista, onde ele fez os estudos ginasiais. O colegial foi em Mogi das Cruzes, no Instituto de Educação Washington Luiz, cidade onde começou a se envolver com o movimento estudantil.
Na Universidade de São Paulo, Benetazzo cursou Filosofia e Arquitetura ao mesmo tempo e chegou à presidência do Centro Acadêmico dos estudantes de Filosofia. Também dava aulas de história e educação artística em cursos preparatórios para o vestibular, trabalho que abandonaria apenas quando a militância o empurrou para a clandestinidade. Em 1962, ingressou no Partido Comunista Brasileiro e passou a atuar no setor estudantil da legenda, participando de movimentos de cultura popular ligados à União Nacional dos Estudantes, da qual se tornaria um dos dirigentes.
O jornal O Amanhã, o cinema e as artes plásticas
Além da política, Benetazzo cultivava a pintura e a fotografia e circulava pelos circuitos culturais paulistanos. Foi idealizador e um dos redatores do jornal alternativo O Amanhã, uma das publicações que prepararam o caminho da chamada imprensa nanica, a imprensa marginal que floresceu nos anos 1970. No cinema, trabalhou como ator em Menina Moça, filme de Francisco Ramalho Jr. rodado em super-8, e assinou a cenografia de Anuska, Manequim e Mulher, de 1968, do mesmo diretor, com Francisco Cuoco, Jairo Arco e Flecha, Ruthinéia de Moraes e Marília Branco no elenco. Fez também a capa do primeiro livro de Mário Prata, O Morto que Morreu de Rir, publicado em 1969.
Do racha no PCB à direção do MOLIPO
Em 1967, Benetazzo deixou o PCB e passou a militar na Dissidência Estudantil de São Paulo, a DISP. No ano seguinte, participou do 30º Congresso da UNE, realizado em Ibiúna, no interior paulista, e acabou preso com cerca de oitocentos delegados e dirigentes estudantis na operação que desarticulou o encontro. Em 1969, já integrado à Ação Libertadora Nacional, abandonou as aulas na universidade e no cursinho para viver na clandestinidade e viajou a Cuba, onde fez treinamento político e de guerrilha.
O período em Cuba coincidiu com a crise aberta na ALN depois da morte de Carlos Marighella e levou o grupo de Benetazzo a romper com a direção que assumiu a organização. De volta ao Brasil, em 1971, ele ajudou a organizar o Movimento de Libertação Popular, o MOLIPO, e integrou sua direção nacional. Na estrutura do movimento, ficou responsável por uma das frentes de imprensa: foi redator do jornal Imprensa Popular, órgão oficial de comunicação do grupo, que reunia cerca de trinta jovens militantes.
- 1962 — ingressa no PCB e atua no setor estudantil;
- 1967 — deixa o PCB e se junta à DISP;
- 1968 — é preso no 30º Congresso da UNE, em Ibiúna;
- 1969 — entra na ALN, passa à clandestinidade e viaja a Cuba;
- 1971 — volta ao Brasil e integra a direção do MOLIPO;
- 1972 — é preso na Vila Carrão e morto no DOI-CODI de São Paulo.
A prisão na Vila Carrão e a versão do atropelamento
No dia 28 de outubro de 1972, Benetazzo entrou na casa do operário e militante Rubens Carlos Costa, na Vila Carrão, zona leste de São Paulo, e foi surpreendido por policiais que montavam campana no imóvel. Segundo depoimentos prestados à Comissão da Verdade, Rubens Carlos tentou incendiar a casa para avisar o companheiro do cerco, mas a operação tinha agentes dentro e fora do local. Preso, Benetazzo foi levado à sede do Destacamento de Operações de Informações — Centro de Operações de Defesa Interna, o DOI-CODI do II Exército, onde permaneceu até ser morto, em 30 de outubro. Ele não chegou a conhecer a filha que sua companheira, Maria Aparecida Horta, esperava.
O corpo foi enterrado como indigente no cemitério Dom Bosco, em Perus, no dia 31 de outubro, dois dias antes de a morte ser divulgada. A versão oficial, publicada no Diário da Noite de 2 de novembro de 1972, dizia que ele havia conduzido os agentes a um suposto ponto de encontro na rua João Boemer, no Brás, e que teria se jogado sob as rodas de um caminhão Scania Vabis, cometendo suicídio. A farsa ganhou reforço no ano seguinte: em 16 de janeiro de 1973, já morto, Benetazzo foi indiciado e condenado pela 2ª Auditoria da Justiça Militar.
O que a Comissão da Verdade concluiu
As investigações sobre o caso se estenderam por décadas. Em 1993, relatórios dos ministérios da Marinha e da Aeronáutica encaminhados ao Ministério da Justiça repetiram a versão do atropelamento, enquanto o relatório do Exército, em cujas dependências funcionava o DOI-CODI, afirmou não ter registros sobre o destino do militante. Anos depois, a pedido da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, legistas convocados a reavaliar o exame necroscópico contestaram o laudo: não havia escoriações típicas de atropelamento, faltavam marcas de pneus no corpo e um ferimento à bala na região da orelha direita sugeria um disparo encostado ao crânio.
O caso de Benetazzo, registrado sob o número 261/96, havia sido aprovado por unanimidade pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos em 14 de maio de 1996. Na ocasião, os conselheiros Nilmário Miranda e Suzana K. Lisbôa fizeram constar em ata a convicção de que ele fora preso e morto sob torturas, e que a versão oficial de suicídio era falsa. Em 12 de agosto de 2013, a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva dedicou uma audiência pública ao caso, com depoimentos de ex-militantes e da família. A conclusão publicada pela comissão é direta: Benetazzo foi atraído a uma emboscada, preso arbitrariamente, torturado e morto nas dependências do DOI-CODI, e sua certidão de óbito deveria ser retificada.
A memória do militante também tem endereço na cidade que o prendeu: a Prefeitura de São Paulo batizou com o nome dele uma praça atrás do Museu de Arte de São Paulo, o MASP. Os restos mortais, enterrados às pressas em Perus, foram trasladados anos depois a pedido da família, e os documentos do caso — da ficha do DOPS às fotos e ao laudo necroscópico — estão reunidos no acervo da Comissão da Verdade paulista.
Quem se debruça sobre a ditadura brasileira encontra a trajetória de Benetazzo ao lado de outras histórias de militantes presos em São Paulo. A então militante Dilma Rousseff, presa em janeiro de 1970, foi torturada na Operação Bandeirante, estrutura que antecedeu o DOI-CODI do II Exército. O exílio e a luta armada também aproximam o nome de Benetazzo do de Fernando Gabeira, outro jovem daquela geração que pegou em armas contra o regime e só voltou ao Brasil com a anistia.

