Carla Zambelli Salgado de Oliveira nasceu em Ribeirão Preto, em 3 de julho de 1980, e chegou à Câmara dos Deputados em 2019 depois de ajudar a organizar protestos de rua contra o governo Dilma Rousseff. A militância que a projetou, no entanto, começou em outro campo: no início da década de 2010, ela participou de ações do Femen, coletivo feminista conhecido por protestos com os seios à mostra. Hoje, Zambelli nega vínculo com o grupo; reportagens da época a identificaram como fundadora e porta-voz do Femen no Brasil.
A conversão do ativismo em política eleitoral passou pelo Movimento Nas Ruas, que ela ajudou a fundar e que organizou as manifestações de 2015 e 2016 pelo impeachment. Em 2015, Zambelli trabalhava como gerente de projetos na KPMG Consultoria, enquanto se destacava nas manifestações. Em 2017, declarou-se monarquista. No ano seguinte, filiou-se ao PSL e disputou a eleição.
A eleição de 2018 e a passagem pela Câmara
Zambelli foi eleita deputada federal por São Paulo em 2018, pelo PSL, e reeleita em 2022, pelo PL. Antes do PSL, passou por PEN e NOVO; depois, por União Brasil, até chegar ao PL.
Na Câmara, dizia que sua atuação teria três pilares: "menos Estado, mais justiça e educação de verdade". Defendia uma agenda liberal na economia e conservadora nos costumes, era contrária à política de cotas, exceto para pessoas com deficiência, e se apresentava como uma parlamentar de combate à corrupção. Em 2022, foi escolhida pelo público como melhor deputada na categoria "Melhores na Câmara", do prêmio Congresso em Foco. Naquele ano, foi a segunda candidata mais votada de São Paulo e a terceira do país.
A presença nas redes sociais, que começou na época do Nas Ruas, continuou central no mandato. Publicações e vídeos dela alimentaram embates com adversários e com o Supremo Tribunal Federal, que mais tarde se converteriam em processos e condenações.
O livro "Não Foi Golpe"
Em 2018, Zambelli publicou Não Foi Golpe: os bastidores da luta nas ruas pelo impeachment de Dilma, pela LVM Editora. O livro tem 277 páginas, prefácio de Ives Gandra da Silva Martins e textos de apresentação de Joice Hasselmann, Geraldo Rufino, Janaina Conceição Paschoal e Luiz Calado. A obra organiza a versão dela sobre as manifestações, o papel das redes sociais e a tese de que o impeachment seguiu o rito constitucional.
O lançamento ocorreu no mesmo ano em que ela se elegeu deputada, o que ajuda a entender a função do livro na trajetória: ele fixa uma narrativa sobre o ativismo que a projetou e antecipa o discurso que ela levaria ao Congresso. O aprofundamento sobre a obra está na página do livro.
As condenações no STF
Em maio de 2025, o Supremo Tribunal Federal condenou Zambelli a dez anos de reclusão por invasão de dispositivo informático e falsidade ideológica. O caso envolvia a inserção de dados falsos no sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Em agosto do mesmo ano, veio a segunda condenação: cinco anos e três meses de prisão por porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal com emprego de arma de fogo.
A segunda pena se refere ao episódio de 29 de outubro de 2022, véspera do segundo turno da eleição presidencial. Na ocasião, Zambelli perseguiu armada o jornalista Luan Araújo, que apoiava Luiz Inácio Lula da Silva, no bairro dos Jardins, em São Paulo. O caso foi filmado e teve grande repercussão. A defesa dela alega perseguição política e questiona a imparcialidade do processo.
A saída do Brasil e a disputa pela extradição
Em junho de 2025, Zambelli anunciou que havia deixado o Brasil e pediu licença do mandato. Ela foi presa em Roma em julho do mesmo ano e ficou mais de nove meses na penitenciária feminina de Rebibbia. Em dezembro de 2025, o STF anulou a votação da Câmara dos Deputados que havia mantido seu mandato e decretou a perda do cargo.
Em maio de 2026, a Corte de Cassação da Itália negou a extradição referente ao caso do CNJ e determinou a soltura dela. O governo brasileiro mantém outro pedido de extradição, ligado à condenação pelo porte de arma. Em julho de 2026, a mesma corte anulou a autorização anterior e ordenou um novo julgamento. A audiência marcada para 27 de outubro foi adiada para novembro.
Zambelli está em liberdade na Itália desde maio de 2026 e é considerada foragida pela Justiça brasileira. A extradição segue em aberto: o pedido ligado ao CNJ foi negado, enquanto o processo relativo à condenação por porte de arma voltou à Justiça italiana.
Datas que ajudam a entender a trajetória
- 1980 — nasce em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.
- 2013 a 2014 — participa de protestos do Femen no Brasil.
- 2015 — ajuda a fundar o Movimento Nas Ruas e trabalha na KPMG.
- 2018 — publica "Não Foi Golpe" e é eleita deputada federal.
- 2022 — é reeleita e protagoniza o episódio da perseguição armada.
- 2025 — é condenada pelo STF, deixa o Brasil, é presa em Roma e perde o mandato.
- 2026 — deixa a prisão, tem extradição negada no caso do CNJ e enfrenta novo julgamento no caso da arma.
As relações que explicam seu peso político
A trajetória de Zambelli se confunde com a ascensão do bolsonarismo. Ela foi eleita na onda de 2018, alinhou-se ao governo de Jair Bolsonaro e ficou conhecida pela atuação nas redes sociais. Em 2022, depois do episódio da arma, Bolsonaro atribuiu a ela parte da derrota eleitoral, o que expôs a tensão entre os dois.
Em 2020, mensagens reveladas pelo ex-ministro Sergio Moro mostraram Zambelli tentando convencê-lo a permanecer no Ministério da Justiça em troca de apoio a uma indicação ao STF. O episódio rendeu pedidos de cassação apresentados por partidos de oposição. Em 2023, ela foi multada pelo Tribunal Superior Eleitoral junto com Nikolas Ferreira e outros parlamentares por compartilhar um vídeo descontextualizado sobre Lula durante a campanha de 2022.
O ministro Alexandre de Moraes relatou o caso do CNJ e assinou as decisões sobre a prisão e a extradição. A defesa de Zambelli questiona a imparcialidade dele nos processos italianos.
Onde Carla Zambelli está hoje
Zambelli vive em Roma e mantém perfil no Instagram e um canal no YouTube, onde publica conteúdo político e atualizações sobre o próprio caso. A presença digital, que a projetou no Nas Ruas, continua sendo o principal canal dela com o público. Para quem acompanha a política brasileira, o perfil dela reúne três histórias que se cruzam: a ascensão do ativismo digital de direita, a profissionalização desse campo no Congresso e o confronto entre políticos e o STF.


