Quando João Moreira Salles precisou da voz de Ana Cristina César para o filme Poesia é uma ou duas linhas e por trás uma imensa paisagem, o único registro existente havia sido gravado por Carlos Lima. O episódio diz muito sobre a marca do poeta carioca: a de quem trabalhou para que a poesia brasileira, inclusive a dos outros, continuasse audível.
Carlos Lima é o nome literário de Luiz Carlos do Rego Lima, nascido no Rio de Janeiro em 4 de setembro de 1945. Poeta, tradutor, ensaísta e articulista, integra a chamada Geração de 70 da poesia brasileira e leciona Introdução à Cultura Brasileira e Literatura Brasileira no Instituto de Letras da UERJ. Quem pesquisa o nome costuma chegar por três caminhos: a obra poética iniciada nos anos 1970, a publicação Alguma Poesia, que editou ao lado de Moacyr Félix e Márcio Schiavo, e o trabalho como professor e organizador de encontros de poesia.
Quem é Carlos Lima, o poeta da Geração de 70
Os versos de Carlos Lima circulam desde os anos 1970, quando o autor passou a publicar e a organizar iniciativas coletivas de poesia no Rio de Janeiro. A estreia em livro veio com Cantos órficos (1977), em edição mimeografada, seguida por obras que o colocaram entre os nomes associados à Geração de 70, faixa da poesia brasileira marcada pela convivência entre experimentação de linguagem e debate político.
Carioca, o autor construiu uma trajetória que mistura criação, edição, ensino e registro da memória literária. Sua produção não se limita aos versos: ele também publicou crítica literária, traduções e ensaios, entre eles um estudo sobre a recepção de Rimbaud no Brasil e um livro sobre a utopia lançado pela Contraponto em 2008.
Alguma Poesia: a editoria como ofício coletivo
Entre 1978 e 1986, Carlos Lima editou a publicação Alguma Poesia com os poetas Moacyr Félix e Márcio Schiavo. Saíram dois números no formato de revista e três no formato de jornal, dedicados à divulgação da poesia brasileira e também de autores latino-americanos.
As páginas da publicação abrigaram uma antologia da poesia cubana e nomes europeus como Dylan Thomas, Pier Paolo Pasolini e Cesare Pavese, além de traduções de Friedrich Hölderlin e Novalis. O trabalho de edição, feito de forma independente, transformou a dupla de poetas em ponte entre gerações e tradições literárias.
A gravação de poetas que chegou ao cinema
Uma frente menos visível da atuação de Carlos Lima foi o registro sonoro da poesia. Ele foi pioneiro na gravação de mais de trinta poetas brasileiros, entre eles Afonso Henriques Neto, Ana Cristina César, Angela Melim, Armando Freitas Filho, Ivan Junqueira, Lélia Coelho Frota, Octávio Mora, Olga Savary e Ronaldo Periassu.
O acervo ganhou alcance inesperado décadas depois: foi com essas gravações que João Moreira Salles montou o documentário Poesia é uma ou duas linhas e por trás uma imensa paisagem, sobre Ana Cristina César. Na época, o material era o único registro que preservava a voz da poeta, e sem ele o filme teria outro ponto de partida.
Anatomia da melancolia e o prêmio APCA de 1982
O reconhecimento editorial veio com Anatomia da melancolia, publicado pela Civilização Brasileira em 1982 e premiado naquele ano com o Revelação da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). O título é o segundo da trajetória do autor e marca a entrada definitiva de sua poesia no circuito brasileiro.
Nas décadas seguintes, Carlos Lima alternaria poesia e ensaio: vieram Terra (1988), Poemas esquerdos (1992), o estudo Rimbaud no Brasil (1993), Phosphoros (2007) e Genealogia Dialética da Utopia (2008), livro em que revisita os clássicos da utopia e dialoga com Walter Benjamin, Theodor Adorno, György Lukács, Baudelaire, Rimbaud, César Vallejo e Mário de Andrade.
Professor da UERJ e a oficina de poesia
No Instituto de Letras da UERJ, Carlos Lima leciona Introdução à Cultura Brasileira e Literatura Brasileira. Fora da sala de aula, organizou encontros voltados à discussão do fazer poético no ambiente universitário, atividade que aproximou gerações de leitores e autores.
Em 1998, assinou com Angela Melim e Renato Casimiro a organização da antologia Os Arcos e a Lira, publicada pela Oficina de Poesia Mário Faustino, do Instituto de Letras da UERJ, um retrato do que a universidade produzia e discutia em poesia naquele período.
O que Carlos Lima publicou
- Cantos órficos (1977) — poesia, edição mimeografada
- Anatomia da melancolia (1982) — poesia, Civilização Brasileira; prêmio APCA Revelação de 1982
- Terra (1988) — poesia
- Poemas esquerdos (1992) — poesia, coleção Poesia na UERJ
- Rimbaud no Brasil (1993) — crítica literária
- Phosphoros (2007) — poesia, Comunicarte
- Genealogia Dialética da Utopia (2008) — ensaio, Contraponto
Como encontrar a obra de Carlos Lima hoje
A produção do autor está espalhada entre editoras, coleções universitárias e catálogos de livros usados. O ensaio Genealogia Dialética da Utopia permanece em circulação e pode ser encontrado na Amazon; os livros de poesia aparecem com mais frequência em bibliotecas universitárias e acervos públicos. Já as gravações de poetas feitas por ele seguem preservadas em acervos sonoros e voltaram ao debate com a montagem do filme de João Moreira Salles.
Uma boa porta de entrada é a página do poeta no acervo Poesia dos Brasis, que reúne ficha biográfica, capas e poemas publicados em antologias. Para ampliar a leitura, vale navegar por outros perfis de escritores e poetas brasileiros reunidos no site.




