Carlos Reichenbach fez da Boca do Lixo, o polo cinematográfico popular do centro de São Paulo, o ponto de partida de uma obra que atravessou quase cinco décadas: foram mais de vinte filmes entre longas, curtas e episódios, de comédias eróticas rodadas com orçamento mínimo a dramas premiados em Brasília, Gramado e Pesaro, na Itália.
Gaúcho de Porto Alegre criado em São Paulo, Reichenbach foi roteirista, diretor, diretor de fotografia, professor, músico e crítico — e morreu em 14 de junho de 2012, o dia em que completava 67 anos. Quem chega ao nome dele por causa de uma obra específica, como Alma Corsária ou Falsa Loura, encontra uma filmografia que costuma ser lida em três fases: a formação marginal no fim dos anos 1960, os anos de mercado na Boca do Lixo e a maturidade do "cinema de alma", expressão que ele usava para definir os dramas de personagens em busca de sentido. Dos curtas rodados na Rua Augusta ao reconhecimento póstumo, a trajetória passa pelos prêmios, pelos roteiros publicados em livro e pelo trabalho de formação de gerações de cinéfilos.
De Porto Alegre à Rua Augusta: como o cineasta se formou
Filho de um editor e industrial gráfico, Reichenbach cresceu cercado de livros e de música erudita — formação que a crítica aponta como raiz do caráter erudito de seus filmes. Chegou a São Paulo com um ano de idade e virou frequentador de cinema ainda criança, dos cinemas de bairro às sessões da Sociedade Amigos da Cinemateca e às salas japonesas da Liberdade.
Na Escola Superior de Cinema das Faculdades São Luís, onde estudou entre 1966 e 1967, teve como professores nomes como Roberto Santos, Anatol Rosenfeld, Paulo Emílio Salles Gomes e Décio Pignatari. Foi incentivado pelo cineasta Luís Sérgio Person a dirigir seu primeiro curta, Esta Rua Tão Augusta, rodado no fim da década de 1960 como trabalho de escola.
Na mesma época, passou a frequentar a Boca do Lixo e travou amizade com nomes que logo fariam história, como Rogério Sganzerla e Ozualdo Candeias. Com João Callegaro e o crítico Antônio Lima, fundou a Xanadu Produções Cinematográficas, pela qual dirigiu episódios das antologias As Libertinas (1968) e Audácia! — A Fúria dos Desejos (1969).
Boca do Lixo, cinema marginal e a fotografia dos colegas
Os primeiros trabalhos colocaram Reichenbach no campo do cinema marginal, o movimento que radicalizou a produção brasileira com poucos recursos e muita invenção, em paralelo ao Cinema Novo de Cacá Diegues e de outros cineastas da mesma geração. A diferença é que Reichenbach fez da precariedade um ofício completo: a partir de 1969, assinou a fotografia de mais de 25 filmes rodados na Boca do Lixo, entre eles obras de Jean Garrett, que o considerava seu fotógrafo favorito.
Ele também cuidou da imagem e, em alguns casos, da trilha sonora de projetos próprios. Em paralelo à ficção, sustentou a carreira na publicidade: como sócio da Jota Filmes, trabalhou em mais de 150 comerciais e chegou a imaginar usar a estrutura da produtora para viabilizar filmes baratos de amigos e parceiros. Em 1989, tentou reunir de novo o grupo em torno de uma produtora, a Casa de Imagens.
Lilian M., Filme Demência e os filmes que definiram cada fase
O primeiro crédito solo de direção veio com Corrida em Busca do Amor, no início dos anos 1970, mas foi Lilian M. — Relatório Confidencial (1974) que consolidou o cineasta entre os mais expressivos do grupo paulistano: rodado de forma independente e lançado também como Confissões Amorosas, o filme acompanha uma mulher que abandona a família no campo e organiza a narrativa de maneira episódica, misturando gêneros para fazer crítica social. Em 1984, o filme foi exibido no Festival de Rotterdam.
Na segunda metade da década de 1970, mergulhou no mercado da Boca do Lixo e assinou sucessos de bilheteria como A Ilha dos Prazeres Proibidos (1978), com erotismo elegante e personagens intelectuais — a marca que o diferenciava da pornochanchada convencional. Em Filme Demência (1986), que ele considerava seu trabalho mais pessoal, fez uma livre adaptação da lenda de Fausto em um road movie noturno por São Paulo, cidade homenageada em vários de seus filmes. No fim da década, Anjos do Arrabalde (1987) venceu o Festival de Gramado com um retrato das professoras do ensino público paulistano.
Alma Corsária: o filme-síntese
Em 1993, em pleno período de escassez após a extinção da Embrafilme, Reichenbach concluiu Alma Corsária, um dos poucos longas brasileiros que chegaram ao circuito comercial naquele ano. A história de dois amigos poetas, da adolescência no Jabaquara ao lançamento de um livro, mistura comédia, drama, musical e experimental dentro da mesma cena e levou quatro prêmios Candango no Festival de Brasília — melhor filme, direção, roteiro e montagem — além do Prêmio da Crítica. Veio ainda o Premio del Trentennale na Mostra de Pesaro, na Itália, e o Troféu APCA de melhor filme em 1995.
Dois Córregos, Garotas do ABC e Falsa Loura
Na última fase, Reichenbach concentrou-se em dramas existenciais e em personagens femininas. Dois Córregos — Verdades Submersas no Tempo (1999) leva uma mulher de volta à adolescência em uma cidade do interior paulista, ao lado de um tio que se esconde da ditadura militar. Garotas do ABC (2003) retrata operárias têxteis de São Bernardo diante de uma gangue neonazista, e Bens Confiscados (2005) venceu como melhor filme de ficção no Cine PE. O último longa, Falsa Loura (2007), acompanha uma operária que se envolve com o vocalista de uma banda em ascensão e se decepciona com o mundo que idealizava.
- Esta Rua Tão Augusta — curta de estreia, no fim dos anos 1960;
- Lilian M. — Relatório Confidencial (1974);
- A Ilha dos Prazeres Proibidos (1978);
- Filme Demência (1986);
- Alma Corsária (1993);
- Dois Córregos (1999);
- Garotas do ABC (2003);
- Falsa Loura (2007).
Professor, blogueiro e a Sessão do Comodoro
Fora do set, Reichenbach foi professor de cinema e divulgador incansável. Manteve blogs como o Reduto do Comodoro e o Olhos Livres, onde escrevia com regularidade sobre filmes antigos, lançamentos, música e festivais. Entre 2004 e 2012, organizou no CineSESC da Rua Augusta a Sessão do Comodoro, que exibia cópias em DVD de filmes do seu acervo pessoal em sessões abertas ao debate.
A atividade resume um traço que a crítica destacou depois da morte dele: Reichenbach gostava de falar dos filmes alheios tanto quanto dos próprios. O crítico Inácio Araujo, que foi corroteirista e montador de vários filmes dele, lembra da capacidade de Reichenbach de conversar sobre cinema com qualquer pessoa, sem distinguir crenças ou posições. Essa generosidade o transformou em mestre informal de gerações de cineastas, cinéfilos e críticos.
Os livros: do roteiro de Dois Córregos ao projeto ABC Clube Democrático
A relação de Reichenbach com a palavra escrita não terminava nos roteiros de filmagem. Em 2004, a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo publicou o roteiro de Dois Córregos dentro da Coleção Aplauso. Em 2009, ele lançou ABC Clube Democrático: 4 Roteiros de Carlos Reichenbach, livro que reúne os quatro longas interligados sobre trabalhadoras da indústria têxtil do ABC paulista — um projeto de tetralogia jamais filmado por inteiro, do qual nasceram Garotas do ABC e Falsa Loura.
Ele também escrevia ensaios e, no fim da vida, trabalhava no roteiro de Um Anjo Desarticulado, que ficou quase pronto. Os livros e as edições em DVD de filmes como Lilian M., Garotas do ABC e Falsa Loura são, hoje, as vias mais acessíveis para conhecer a obra de perto.
Morte, legado e a redescoberta da obra
Reichenbach morreu em 14 de junho de 2012, em São Paulo, aos 67 anos — no mesmo dia do próprio aniversário. A obra dele, no entanto, seguiu viva e cresceu: em 2015, Alma Corsária e Dois Córregos entraram na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos organizada pela Abraccine; em 2022, a Cinemateca do MAM do Rio de Janeiro montou a retrospectiva Uma Década sem Carlão, com curadoria de Ruy Gardnier; e, em 2026, um júri convidado pela Folha de S.Paulo elegeu Falsa Loura o 24º melhor filme brasileiro do século 21.
Para quem quer entender o cinema brasileiro feito fora do eixo das grandes produtoras, o percurso de Reichenbach funciona como um mapa: a Boca do Lixo, o cinema marginal, a retomada difícil dos anos 1990 e a busca de um cinema popular sem concessões. Os livros de roteiro e as edições em DVD ligados ao nome dele ajudam a acompanhar esse percurso pelos itens que continuam disponíveis.






