Cacá Diegues entrou no cinema por um cineclube. No fim dos anos 1950, quando cursava Direito na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, ele fundou o cineclube do diretório estudantil e começou a rodar curtas ao lado de David Neves e Arnaldo Jabor. Desse grupo de estudantes saiu um dos núcleos do Cinema Novo, movimento que Diegues ajudou a liderar com Glauber Rocha, Leon Hirszman, Paulo Cesar Saraceni e Joaquim Pedro de Andrade e ao qual permaneceu ligado até morrer, em 14 de fevereiro de 2025, no Rio de Janeiro, aos 84 anos.
Carlos José Fontes Diegues nasceu em Maceió, em 19 de maio de 1940, e chegou ao Rio de Janeiro aos 6 anos, quando a família se instalou em Botafogo. Estudou no Colégio Santo Inácio e, na universidade, dirigiu o jornal O Metropolitano e integrou o Centro Popular de Cultura da UNE. Ao longo de mais de seis décadas, realizou 37 filmes entre curtas, médias e longas-metragens, escreveu críticas e ensaios em jornais e revistas no Brasil e no exterior e assinou uma coluna dominical no jornal O Globo. Em 2018, foi eleito imortal da Academia Brasileira de Letras.
Da PUC ao Cinema Novo
Antes de estrear na direção profissional, Diegues fez os curtas "Fuga" (1959), "Brasília" (1960) e "Domingo" (1961), este último em colaboração com David Neves e Affonso Beato e considerado um dos filmes pioneiros do Cinema Novo. Em 1962, dirigiu no CPC da UNE seu primeiro filme profissional em 35 mm, "Escola de Samba Alegria de Viver", episódio do longa "Cinco Vezes Favela", que reuniu também Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Marcos Farias e Miguel Borges.
Os três primeiros longas — "Ganga Zumba" (1964), "A Grande Cidade" (1966) e "Os Herdeiros" (1969) — carregam o voluntarismo e as utopias daquele período. Em paralelo, ele trabalhou como jornalista e escreveu críticas, ensaios e manifestos cinematográficos. Com o AI-5, deixou o Brasil em 1969 e viveu na Itália e depois na França, ao lado da cantora Nara Leão, então sua esposa.
Xica da Silva, Bye Bye Brasil e os anos de maior público
De volta ao país, Diegues dirigiu "Quando o Carnaval Chegar" (1972) e "Joanna Francesa" (1973) antes de alcançar seu maior sucesso popular: "Xica da Silva" (1976), com Zezé Motta no papel da escrava que se torna Rainha do Diamante no Distrito Diamantino do século XVIII. O filme venceu o Candango de melhor filme e melhor diretor no Festival de Brasília e o Prêmio Molière de melhor filme, direção e atriz.
Em 1978, numa entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Diegues cunhou a expressão "patrulhas ideológicas" para criticar setores que desqualificavam produções culturais fora de certo cânone político — termo que entrou para o debate público brasileiro. No mesmo período, dirigiu "Chuvas de Verão" (1978) e "Bye Bye Brasil" (1979), road movie sobre a Caravana Rolidei, com José Wilker, Betty Faria, Zaira Zambelli e Fábio Júnior e músicas de Chico Buarque, Roberto Menescal e Dominguinhos. Produzido pela LC Barreto, com Bruno Barreto entre os produtores associados, o filme competiu no Festival de Cannes e levou o Prêmio Coral especial de ficção e direção no Festival de Havana, além do prêmio de melhor filme do ano no Festival de Londres.
Em 1981, foi convidado para o júri do Festival de Cannes — honra que, antes dele, só outro brasileiro havia recebido, o poeta Vinicius de Moraes. Voltaria ao júri em 2010. Em 1984, realizou "Quilombo", épico produzido pela francesa Gaumont, e concorreu à Palma de Ouro com "Bye Bye Brasil", "Quilombo" e "Um Trem para as Estrelas" (1987).
A crise do cinema nacional e a retomada
Na fase mais crítica da economia cinematográfica brasileira, Diegues dirigiu os filmes de baixo custo "Um Trem para as Estrelas" (1987) e "Dias Melhores Virão" (1989) e, em parceria com a TV Cultura, "Veja Esta Canção" (1994). Com a Lei do Audiovisual, assinou adaptações de grandes obras da literatura nacional: "Tieta do Agreste" (1996), de Jorge Amado; "Orfeu" (1999), inspirado na peça de Vinicius de Moraes e eleito melhor filme no Festival de Cartagena; e "Deus É Brasileiro" (2003), baseado no conto "O Santo que não Acreditava em Deus", de João Ubaldo Ribeiro, com Antônio Fagundes como Deus e Wagner Moura como o pescador Taoca. Já "O Maior Amor do Mundo" (2006), com roteiro original escrito apenas por ele, venceu o Grand Prix des Amériques, em Montreal.
Jornal, Academia e reconhecimento internacional
Desde 2010, Diegues assinou uma coluna dominical no jornal O Globo, reunida no livro "Todo domingo", da editora Cobogó, organizado pelo crítico Rodrigo Fonseca. Em 2018, foi eleito imortal da Academia Brasileira de Letras para a cadeira nº 7, antes ocupada por Nelson Pereira dos Santos; no ano seguinte, encabeçou o CineAcademia Nelson Pereira dos Santos, com sessões de clássicos do cinema brasileiro seguidas de debate. Também em 2018 lançou "O Grande Circo Místico", musical baseado no poema de Jorge de Lima com músicas de Chico Buarque e Edu Lobo, escolhido candidato brasileiro ao Oscar 2019 e vencedor do Grande Otelo de melhor roteiro adaptado.
Entre as honrarias, recebeu da França o título de Officier de l'Ordre des Arts et des Lettres, em 1998, e integrou a Cinemateca Francesa; do governo brasileiro, a Ordem do Mérito Cultural e a Medalha da Ordem de Rio Branco. A Câmara de Vereadores do Rio concedeu-lhe a Medalha Pedro Ernesto. No exterior, recebeu prêmios pelo conjunto da obra, como o Roberto Rossellini, em Roma, em 2008, e o "Vida y Trabajo", na Bolívia, em 2007.
Os últimos anos e o que fica
Em 2022, Diegues rodou em Alagoas o vigésimo longa-metragem, "Deus Ainda É Brasileiro", spin-off de "Deus É Brasileiro" com Antônio Fagundes novamente no papel principal. As gravações foram paralisadas em 2024 por questões orçamentárias, e o filme ainda não tinha data de estreia quando o cineasta morreu, em 14 de fevereiro de 2025, no Rio de Janeiro. O velório foi realizado na sede da Academia Brasileira de Letras.
Depois de sua morte, a obra seguiu em circulação: "Xica da Silva" ganhou cópia restaurada em 4K, exibida na CineOP e relançada nos cinemas; o documentário "Para Vigo Me Voy!", de Lírio Ferreira e Karen Harley, sobre sua trajetória, estreou na seleção Cannes Classics de 2025; o Rio de Janeiro inaugurou uma estátua de bronze em sua homenagem no Alto da Boa Vista; e Maragogi, em Alagoas, anunciou um polo de cinema e cultura com seu nome. Sua trajetória também foi celebrada em mostras como a retrospectiva "Cacá Diegues – Cineasta do Brasil", no Sesc Palladium, em Belo Horizonte.
Por onde começar a conhecer a obra
- "Ganga Zumba" (1964) — primeiro longa-metragem, sobre o Quilombo dos Palmares;
- "Xica da Silva" (1976) — o maior sucesso de público, com Zezé Motta;
- "Bye Bye Brasil" (1979) — o país visto pela estrada, com a Caravana Rolidei;
- "Quilombo" (1984) — épico sobre Palmares produzido pela Gaumont;
- "Deus É Brasileiro" (2003) — comédia sobre um Deus à procura de um santo no sertão;
- "O Grande Circo Místico" (2018) — musical que representou o Brasil na disputa pelo Oscar 2019.






