Cazuza morreu em 7 de julho de 1990, aos 32 anos, e deixou 126 canções gravadas — entre elas "Exagerado", "Ideologia", "Brasil" e "O Tempo Não Para", versos que seguem sendo cantados em shows, novelas e rodas de violão. Antes disso, foi vocalista e principal letrista do Barão Vermelho, banda que ajudou a definir o rock brasileiro dos anos 1980, e depois seguiu sozinho em uma carreira solo de apenas cinco anos que mudou a forma como o público ouvia letras de música no país.
Quem pesquisa Cazuza hoje chega por caminhos diferentes: quem quer entender o rock nacional daquela década, quem se interessa pela poesia dele reunida em livro, quem acompanha os relançamentos e as homenagens póstumas. Em todos os casos, a história começa no Rio de Janeiro, passa pela Som Livre, pelo Circo Voador e pelo Canecão, e desemboca em um apartamento de Ipanema. O que ficou, porém, é maior que a biografia: um conjunto de canções que atravessou gerações e um símbolo da luta contra a aids no Brasil.
Quem foi Cazuza
Cazuza nasceu Agenor de Miranda Araújo Neto, em 4 de abril de 1958, no Rio de Janeiro. O apelido veio antes do nascimento: a família já o chamava assim quando o menino chegou, e o registro como Agenor foi uma insistência da avó paterna. Filho único do produtor musical João Araújo, fundador e presidente da Som Livre, e da cantora Lucinha Araújo, cresceu no Leblon, entre estúdios e artistas, e começou a escrever letras e poemas por volta de 1965, ainda criança.
A formação passou pelo Colégio Santo Inácio e pelo Colégio Anglo-Americano. Em 1976, entrou no curso de Comunicação, que abandonou três semanas depois. Trabalhou no departamento artístico da Som Livre, onde fazia triagem de fitas de novos cantores, e depois na assessoria de imprensa da gravadora, escrevendo textos de divulgação. No fim de 1979, fez um curso de fotografia na Universidade da Califórnia, em Berkeley, onde descobriu a literatura da geração beat. De volta ao Rio, em 1980, entrou no grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, no Circo Voador — foi ali que cantou em público pela primeira vez.
Barão Vermelho: o começo do rock brasileiro
O convite para integrar a banda que se formava no Rio Comprido tinha sido feito a Leo Jaime, que recusou e indicou Cazuza para os vocais. Dos ensaios na casa do tecladista Maurício Barros nasceu o Barão Vermelho, com Roberto Frejat na guitarra, Dé Palmeira no baixo e Guto Goffi na bateria. Frejat passou a musicar os poemas que Cazuza escrevia, formando uma das duplas mais celebradas do rock nacional.
O primeiro álbum, Barão Vermelho, saiu em 1982 e vendeu cerca de sete mil cópias. O segundo, de 1983, chegou a 500 mil. Nessa fase, durante um show no Canecão, Caetano Veloso apontou Cazuza como o maior poeta da geração. O impulso definitivo veio quando Ney Matogrosso gravou "Pro Dia Nascer Feliz" e a canção estourou nas rádios. Em 1984, veio Maior Abandonado, com o tema do filme Bete Balanço, e o disco conquistou certificação de ouro. Em janeiro de 1985, a banda subiu ao palco da primeira edição do Rock in Rio.
Meses depois, em julho de 1985, Cazuza anunciou que deixava o grupo. Disse que era egoísta demais para dividir palcos e atenção, e que queria liberdade para compor. A saída abalou a amizade com Frejat, que ficou meses sem falar com ele.
Carreira solo: de Exagerado a Burguesia
Exagerado e os primeiros prêmios
O primeiro álbum solo saiu em novembro de 1985 e chegou ao público apenas como Cazuza, mas o sucesso da faixa-título, composta com Leoni, rebatizou o disco: Exagerado. O trabalho vendeu cerca de 50 mil cópias e emplacou "Codinome Beija-Flor" e "Medieval II". Em 1986, numa roda de violão, Cazuza, Dé Palmeira e Bebel Gilberto criaram "Preciso Dizer que Te Amo", que virou sucesso na voz de Marina Lima e venceu o Prêmio Sharp de 1988 na categoria Melhor Música de Pop-Rock. Na mesma cerimônia, Cazuza recebeu o troféu de Melhor Cantor de Pop-Rock. Em 1987, lançou Só Se For a Dois pela PolyGram, um disco mais melódico e romântico.
Ideologia e a virada política
Em 1988, Ideologia marcou a fase mais reflexiva e politizada da carreira, com letras que falavam do país sem abrir mão do lado romântico. O álbum rendeu hits como "Ideologia", "Blues da Piedade", "Faz Parte do Meu Show" e "Brasil", um samba-rock que ficou conhecido na versão de Gal Costa e abriu a novela Vale Tudo. A turnê do disco teve direção de Ney Matogrosso e percorreu o Brasil.
O Tempo Não Para, Burguesia e os últimos discos
No fim da turnê, "O Tempo Não Para", composta com Arnaldo Brandão, virou um hino de protesto e deu nome ao primeiro álbum ao vivo, gravado no Canecão e lançado em 1989 — o maior sucesso comercial de Cazuza, com mais de 500 mil cópias. Em 13 de fevereiro de 1989, em entrevista à Folha de S.Paulo, ele declarou publicamente que era soropositivo, ajudando a enfrentar o preconceito em torno da doença.
Em abril de 1989, compareceu de cadeira de rodas ao Prêmio Sharp, onde venceu com Ideologia e com "Brasil" e discursou: "Estou vivo por causa do meu trabalho". Ainda naquele ano, gravou Burguesia, álbum duplo dividido entre rock e MPB, produzido em ritmo de urgência para ser lançado em vida. O disco vendeu 250 mil cópias e o clipe da faixa-título recebeu prêmio de ouro no 32º New York Festival. Em 1990, veio um Prêmio Sharp póstumo por "Cobaias de Deus", composta com Angela Ro Ro.
A doença e os últimos meses
O diagnóstico do HIV chegou em 29 de abril de 1987, uma semana antes da estreia da turnê de Só Se For a Dois. Cazuza fez tratamento com AZT em Boston, voltou ao Brasil e seguiu gravando e se apresentando enquanto a saúde permitia. Nos últimos meses, pesava 38 quilos e ainda frequentava shows e visitava amigos. Morreu na manhã de 7 de julho de 1990, no apartamento dos pais, em Ipanema, por choque séptico causado pela aids. O enterro, no cemitério de São João Batista, reuniu mais de mil pessoas, e no tampo de mármore do túmulo está gravada a canção "O Tempo Não Para", como epitáfio.
Poesia, legado e presença hoje
Em dez anos de carreira, Cazuza deixou 126 canções gravadas, 78 inéditas e 34 compostas para outros intérpretes. Em 2008, a revista Rolling Stone Brasil o colocou na 34ª posição entre os cem maiores artistas da música brasileira. A obra continua circulando: em 1991 saiu Por Aí..., último disco com canções inéditas; em 1997, Cássia Eller lançou Veneno AntiMonotonia, só com composições dele; em 2004, o filme Cazuza — O Tempo Não Para, dirigido por Sandra Werneck, levou a história ao cinema; em 2022, o show do Canecão foi relançado na íntegra como O Tempo Não Para — O Show Completo. No Leblon, uma estátua mantém a presença do cantor no bairro onde ele cresceu.
Os pais de Cazuza fundaram em 1990 a Sociedade Viva Cazuza, que atende crianças soropositivas com assistência à saúde, educação e lazer, e mantém o arquivo de documentos e manuscritos do artista. Desse acervo saíram livros recentes como Cazuza: Meu Lance É Poesia (2024), que reúne 238 poemas, e a fotobiografia Cazuza: Protegi Teu Nome Por Amor. A relação com outros nomes do rock brasileiro da mesma geração, como Renato Russo, também ajudou a consolidar o período como um marco da música nacional.
Uma lista rápida de marcos:
- 1958 — nasce Agenor de Miranda Araújo Neto, no Rio de Janeiro;
- 1981 — entra no Barão Vermelho, onde forma a parceria com Frejat;
- 1982 — primeiro álbum da banda, com "Todo Amor Que Houver Nessa Vida";
- 1985 — deixa o grupo, participa do Rock in Rio e lança Exagerado;
- 1987 — descobre ser portador do HIV e lança Só Se For a Dois;
- 1988 — lança Ideologia, com "Brasil" e "Faz Parte do Meu Show";
- 1989 — declara publicamente a soropositividade e lança Burguesia;
- 1990 — morre em 7 de julho, aos 32 anos;
- 2004 — estreia o filme Cazuza — O Tempo Não Para;
- 2024 — sai o livro de poesia Meu Lance É Poesia.
Perguntas rápidas sobre Cazuza
Qual era o nome verdadeiro de Cazuza? Agenor de Miranda Araújo Neto. O apelido, dado pela família antes do nascimento, virou o nome artístico.
Por que Cazuza ainda é tão lembrado? Pela força das letras, pelo papel no rock brasileiro dos anos 1980 e pela forma como expôs publicamente sua soropositividade, num momento em que o assunto era tratado com preconceito.
Quais são as músicas mais conhecidas? "Exagerado", "Codinome Beija-Flor", "Ideologia", "Brasil", "Faz Parte do Meu Show", "Preciso Dizer que Te Amo" e "O Tempo Não Para" estão entre as mais regravadas e tocadas.
Como ouvir Cazuza hoje? Os discos estão nas plataformas de streaming, e o site oficial cazuza.com.br reúne discografia, vídeos e novidades sobre a obra. Para conhecer a produção escrita, vale procurar a obra poética e os relançamentos comentados acima.






