Claudio Tognolli ajudou a fundar a Abraji e assinou, com Romeu Tuma Jr., um dos livros de jornalismo mais vendidos de 2014. Nascido no Tatuapé, na zona leste de São Paulo, em 1963, ele morreu em 3 de março de 2024, aos 60 anos, após complicações de um transplante cardíaco realizado em janeiro daquele ano.
Jornalista, professor concursado da Escola de Comunicações e Artes da USP e autor de 27 livros, Tognolli passou por redações, estúdios de rádio e salas de aula ao longo de mais de três décadas. Foi diretor-fundador da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, integrou o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) e foi um dos idealizadores da Cátedra Otávio Frias Filho, instalada no Instituto de Estudos Avançados da USP. Quem procura seu nome costuma chegar pelos livros sobre crime organizado e corrupção, mas a trajetória dele também passa pela música e pela docência.
Quem foi Claudio Tognolli
Filho do Tatuapé, Tognolli escolheu o jornalismo ainda adolescente, quando fez o curso de Redator-Auxiliar no Colégio São Vicente de Paulo, na Penha. Prestou vestibular para cinco faculdades e ficou com a Escola de Comunicações e Artes da USP, onde mais tarde faria doutorado em Ciências da Comunicação.
A música entrou cedo e nunca saiu. Ele estudou violão clássico e composição com o maestro Hans Joachim Koellreutter, colecionava guitarras e teve participação nos primórdios do RPM, de Paulo Ricardo, quando os dois montaram a banda Pif Paf. Essa mistura entre apuração e música aparece em vários de seus livros, da biografia do Lobão ao perfil do engenheiro de som Roy Cicala.
Abraji, prêmios e o jornalismo investigativo
A ligação de Tognolli com a Abraji começou na fundação da entidade, em 2002, quando ele atuou como diretor-fundador ao lado de outros repórteres que queriam profissionalizar a apuração no Brasil. Anos depois, o trabalho em rede o levou ao ICIJ, consórcio que reúne jornalistas de vários países em investigações de documentos vazados.
A atuação na cobertura de poder rendeu prêmios e sociedades duradouras. Em 1993, ao lado de Fernando Rodrigues, recebeu o Grande Prêmio Folha de Jornalismo pela série Conexão Manágua, com cerca de 500 reportagens. Também recebeu o Prêmio Esso com a Abraji e o Prêmio Jabuti de Literatura de 1997 pelo livro O Século do Crime.
Passou por algumas das principais redações do país: Folha de S.Paulo, onde foi correspondente nos Estados Unidos, Jornal da Tarde, O Estado de S. Paulo, Veja e Caros Amigos. Fez reportagens em 35 países e foi repórter especial da revista Consultor Jurídico, para a qual continuou colaborando até os últimos anos.
Rádio, internet e presença no debate público
No rádio, Tognolli ficou conhecido por bancadas de programas de notícia e debate. Trabalhou nas emissoras Jovem Pan, CBN, Eldorado e Energia 97 e, na Jovem Pan, integrou o Morning Show e ancorou o programa Os Pingos nos Is ao lado de Joice Hasselmann e Felipe Moura Brasil, em 2017.
Na internet, foi colunista da AOL Brasil, co-fundou o site Brasil 247, manteve um blog no portal Yahoo a partir de 2014 e escreveu para plataformas como o TopBuzz. Na USP, foi editor-responsável da Revista Babel e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados. A soma de redação, rádio e docência fez dele uma figura presente em mesas de debate sobre imprensa, segurança pública e política.
Os principais livros de Claudio Tognolli
A bibliografia dele mistura jornalismo investigativo, biografia e ensaio. Os títulos mais procurados hoje são os que tratam de corrupção, crime organizado e música:
- O Século do Crime (1996), escrito com José Arbex Jr. e vencedor do Prêmio Jabuti de 1997;
- 50 Anos a Mil (2010), biografia do músico Lobão;
- Milton Neves, uma biografia (2013);
- Assassinato de Reputações: Um Crime de Estado (2014), com Romeu Tuma Jr.;
- Assassinato de Reputações II: Muito Além da Lava Jato (2016);
- Laços de Sangue: A História Secreta do PCC (2017), com o procurador Márcio Sérgio Christino;
- Nome aos Bois: A História das Falcatruas da JBS (2018), com Bernardino Coelho da Silva;
- A Porta Mágica (2018), sobre o engenheiro de som Roy Cicala.
Os livros de temática musical conversam com o universo da música brasileira, enquanto as obras de investigação se aproximam da literatura de não ficção e do jornalismo de dados e documentos.
USP, Cátedra Otávio Frias Filho e os últimos anos
Como professor concursado da ECA-USP, Tognolli formou gerações de repórteres e manteve vínculo com a pesquisa acadêmica. No Instituto de Estudos Avançados, foi um dos responsáveis pela Cátedra Otávio Frias Filho, criada em parceria com o Grupo Folha e inaugurada em 18 de fevereiro de 2021, data em que o grupo completou 100 anos.
Ele morreu em março de 2024, dois meses depois de passar por um transplante de coração. Na ocasião, veículos como Folha de S.Paulo, G1, Conjur e Metrópoles destacaram a passagem dele por redações e rádios e o papel na formação de jornalistas. Segundo o obituário publicado pela Conjur, ele deixou 27 livros publicados e oito ainda não lançados.
Por que Claudio Tognolli continua sendo buscado
O interesse pelo trabalho dele segue em três frentes. A primeira é a bibliografia: os livros sobre PCC, Lava Jato e JBS continuam sendo citados em reportagens e trabalhos acadêmicos. A segunda é a Abraji, entidade que ajudou a criar e que hoje é referência em segurança de jornalistas e transparência. A terceira é a produção musical e biográfica, que aproxima leitores interessados em rock, rádio e indústria cultural.
Para quem quer aprofundar, o Currículo Lattes e a página mantida pelo Instituto de Estudos Avançados da USP reúnem dados acadêmicos e a produção científica. As redes sociais oficiais e o obituário da Conjur completam o retrato de uma carreira que atravessou a imprensa impressa, o rádio e a internet sem abandonar a apuração.






