Clóvis Rossi passou mais de 50 anos nas redações e ficou marcado por uma especialidade rara no jornalismo brasileiro: cobrir de perto a queda de regimes autoritários. Acompanhou a redemocratização na Argentina e no Chile, a abertura política no Brasil, o fim do apartheid na África do Sul e processos semelhantes na Bolívia, no Uruguai, no Paraguai, na América Central, na Espanha e em Portugal. Quando morreu, em junho de 2019, era o decano da Redação da Folha de S.Paulo, jornal em que trabalhava desde 1980.
Paulistano do Bixiga, descendente de italianos, era filho de Olavo Rossi, vendedor de máquinas pesadas, e de Olga Favaron, artesã. Formou-se pela Faculdade Cásper Líbero e iniciou a carreira em 1963, aos 20 anos. Nas décadas seguintes, assinou reportagens nos principais veículos do país, construiu uma reputação ligada à cobertura internacional e se tornou autor de livros sobre história política e sobre o próprio jornalismo.
Do Bixiga às grandes redações
Rossi trabalhou em três dos quatro grandes jornais do país. Passou pelo Jornal do Brasil e pelo Correio da Manhã, no Rio, e foi editor-chefe de O Estado de S. Paulo — o mesmo jornal em que a carreira nacional do paulistano ganhou corpo. Também teve passagens pelas revistas Isto É e Autoesporte e pelo Jornal da República, que circulou em São Paulo entre 1979 e 1980 sob a direção do jornalista Mino Carta. A formação na Cásper Líbero, nos anos 1960, colocou Rossi na geração que atravessou a ditadura militar e chegou à redemocratização dentro das redações.
O correspondente das transições democráticas
Foi na Folha de S.Paulo, onde entrou em 1980, que Rossi se firmou como enviado especial. Correspondente do jornal em Buenos Aires e em Madri, ele tem textos produzidos nos cinco continentes e uma agenda rara de coberturas da passagem do autoritarismo para a democracia. A lista inclui:
- a redemocratização na Argentina, no Chile, no Uruguai, no Paraguai e na Bolívia;
- a abertura política brasileira, a Constituição de 1988 e as posses de presidentes da República;
- processos de transição na América Central, na Espanha e em Portugal;
- o fim do apartheid na África do Sul;
- mudanças na política externa brasileira acompanhadas ao longo de décadas.
Esse conjunto de coberturas fez da Folha um dos jornais brasileiros com mais presença própria no noticiário internacional do período, e rendeu a Rossi um repertório que ele passou a destilar em análises constantes sobre a política latino-americana. Ele foi um dos poucos jornalistas brasileiros a acompanhar de perto tantos processos de transição democrática.
Colunista, conselho editorial e o blog no El País
Além das reportagens, Rossi escreveu colunas e integrou o Conselho Editorial da Folha. A política e as relações internacionais eram o terreno central de seus textos, que continuam disponíveis no arquivo de colunas do jornal. Entre 2017 e 2019, assinou a coluna que levava seu nome; no mesmo período, manteve no diário espanhol El País o blog Algo mais que samba.
Prêmios e condecorações
Em 2001, Rossi recebeu o Prêmio Maria Moors Cabot, concedido pela Escola de Jornalismo da Universidade Columbia e considerado um dos mais antigos e prestigiados do jornalismo nas Américas — um reconhecimento à carreira dedicada, em boa parte, à política do continente. Também foi homenageado pelo conjunto da obra pela Fundação para um Novo Jornalismo Iberoamericano, em cerimônia com o escritor Gabriel García Márquez, criador da entidade. Entre as condecorações oficiais, foi cavaleiro da Ordem do Rio Branco, no Brasil, e da Ordem do Mérito, na França.
Os livros de Clóvis Rossi
Rossi publicou em fases distintas da carreira. Nos anos 1980, assinou introduções históricas e profissionais: Militarismo na América Latina (1982), pela coleção Tudo é História, da Brasiliense; A contra-revolução na América Latina (1986), na coleção Discutindo a História; e Vale a pena ser jornalista? (1986), pela Editora Moderna. Também pela Brasiliense escreveu O que é jornalismo, volume da Coleção Primeiros Passos que segue em catálogo. Em 1999, publicou Enviado Especial: 25 anos ao redor do mundo, pela Editora Senac São Paulo, livro em que revisita as próprias reportagens internacionais.
O conjunto revela duas linhas que atravessam a carreira: a história política latino-americana, matéria dos ensaios dos anos 1980, e a explicação do ofício de jornalista, tema dos guias e das memórias de cobertura.
Os últimos dias e a morte em 2019
Em 7 de junho de 2019, Rossi sofreu um infarto e foi internado no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Passou por duas angioplastias, recebeu cinco stents e teve alta em 13 de junho. No dia seguinte, passou mal em casa e morreu, aos 76 anos. Dois dias antes de morrer, havia publicado na Folha o que seria seu último texto, a coluna "Boletim Médico".
A morte teve ampla repercussão na imprensa brasileira, que destacou a longevidade e a marca internacional de sua trajetória.






