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Contardo Calligaris

Contardo

Nascimento: 1948 São Paulo, Brasil
Psicanalista, escritor e colunista da Folha, Contardo Calligaris uniu clínica lacaniana, crônica cultural e a série Psi até 2021.

Milão formou Contardo Calligaris; a Folha de S.Paulo o tornou conversa de domingo no Brasil. Italiano de nascimento e brasileiro por escolha, ele atravessou psicanálise, crônica cultural, romance e televisão sem se tornar peça de vitrine: o que se busca nele é um modo de ler o mal-estar contemporâneo com precisão clínica e prosa de jornal.

Entre a formação europeia com Jean Piaget, Roland Barthes e Jacques Lacan e as décadas em São Paulo, Calligaris virou referência para quem quer entender adolescência, casal, individualismo, felicidade obrigatória e o estranho hábito brasileiro de mal se reconhecer no espelho. Morreu em 30 de março de 2021, aos 72 anos, internado no Hospital Albert Einstein, em tratamento de um câncer — e deixou um arquivo de colunas, livros e a série Psi, da HBO, que ainda circula como porta de entrada para o seu olhar.

Quem foi Contardo Calligaris

Contardo Luigi Calligaris nasceu em 2 de junho de 1948, em Milão, na Itália. Foi escritor, psicanalista e dramaturgo, com presença forte na imprensa brasileira como colunista da Folha de S.Paulo a partir de 1999, no caderno Ilustrada. A biografia pública o associa a um trânsito raro: epistemologia genética na Suíça, letras e teoria da literatura, doutorado em semiologia em Paris com Barthes, análise pessoal que o empurrou para a clínica, Escola Freudiana de Paris em 1975 e frequência às apresentações de casos de Lacan.

Doutor em psicologia clínica pela Universidade de Provença, defendeu a tese A Paixão de Ser Instrumento, estudo sobre a personalidade burocrática. Foi professor de antropologia na Universidade da Califórnia em Berkeley e de estudos culturais na The New School, em Nova York, além de ter lecionado em Paris. No Brasil, o primeiro contato veio em 1986, nas palestras em torno de Hipótese sobre o fantasma. A proposta de um grupo de analistas em São Paulo — quinze dias a cada dois meses para reanálise — o prendeu ao país; casou-se, dividiu-se entre continentes e acabou fixando residência aqui.

Formação, clínica e o caminho até o Brasil

A trajetória acadêmica de Calligaris não é decoração de currículo: explica o tom do que ele escrevia. A base em Piaget e nas ciências sociais, a passagem por Barthes e Foucault, a escuta lacaniana e o doutorado clínico se misturam na crônica semanal. Ele não se apresentava como guru de autoajuda; falava de desejo, norma, vergonha, amor e política do cotidiano com vocabulário acessível e recusa a soluções fáceis.

No consultório e na imprensa, a mesma pergunta voltava: o que a cultura faz com o sujeito quando exige performance, felicidade, juventude e coerência o tempo todo? Essa tensão liga a clínica às crônicas sobre cinema, literatura, relações e noticiário. Para o leitor que chega pelo nome, o mapa útil é simples — psicanalista com formação europeia densa, colunista de longa duração na Folha, autor de ensaios e ficção, roteirista de televisão.

  • Formação em epistemologia genética na Suíça e graduação em letras, com ensino de teoria da literatura.
  • Doutorado em semiologia em Paris e doutorado em psicologia clínica na Universidade de Provença.
  • Membro da Escola Freudiana de Paris (1975) e presença em círculos lacanianos.
  • Docência em Berkeley, The New School e Paris; clínica e residência no Brasil a partir do fim dos anos 1980.
  • Coluna semanal na Folha de S.Paulo de 1999 a 2021; série Psi na HBO a partir de 2014.

Crônicas, livros e a voz na Folha de S.Paulo

Quem busca Calligaris pela coluna encontra um crítico cultural que lia filmes, livros e costumes com ferramenta psicanalítica, sem transformar a página em jargão de consultório. Coletâneas como Terra de ninguém, Quinta-coluna e Todos os reis estão nus reúnem parte desse arquivo. Hello, Brasil! e outros ensaios permanece um clássico de leitura sobre a “estranha civilização” brasileira — ensaio de viagem e de psicanálise social ao mesmo tempo.

No campo da formação clínica e da orientação profissional, Cartas a um jovem terapeuta conversa com quem começa (ou repensa) o ofício. Já A Adolescência, na coleção Folha Explica, traduz para o público amplo uma fase que ele tratava como construção cultural poderosa, não só como etapa biológica. Na ficção, O conto do amor e A mulher de vermelho e branco, pela Companhia das Letras, giram em torno do psicanalista Carlo Antonini — figura que também ecoa na dramaturgia televisiva.

Publicações posteriores, reunindo crônicas e reflexões, seguem em circulação: títulos como O sentido da vida e Aproveitar a vida e suas dores prolongam o diálogo com leitores que descobrem o autor depois de 2021. A peça O homem da tarja preta, encenada em 2009, completa o arco entre literatura, teatro e clínica.

Série Psi, televisão e presença pública

Calligaris foi criador e roteirista da série Psi, da HBO, ao lado de Thiago Dottori, com direção de Marcus Baldini e de Max Calligaris, seu filho cineasta. Estreada em 2014, a trama acompanha o psicanalista Carlos Antonini, interpretado por Emílio de Mello, dentro e fora do consultório. A série levou ao horário nobre a mesma curiosidade que a coluna alimentava: o que acontece quando a escuta analítica encontra o mundo real, a família, o desejo e o ridículo do dia a dia.

Em entrevistas e palcos — inclusive no circuito do Fronteiras do Pensamento — ele voltava a temas como hedonismo distraído, obrigação da felicidade, sentido da vida e o valor do cotidiano. Não havia rede social pessoal dominando a figura pública: a autoridade se sustentava na imprensa, nos livros, na televisão e nas palestras. Companheira nos últimos anos da vida pública documentada foi a psicanalista Maria Lúcia Homem; o filho Maximilien (Max) Calligaris registrou a despedida com a frase que o pai teria dito perto da morte: “Espero estar à altura.”

Como ler Contardo Calligaris hoje

Para quem chega agora, o caminho depende da pergunta. Interesse em Brasil, identidade e mal-estar coletivo aponta para Hello, Brasil!. Quem está na clínica ou na psicologia costuma ir a Cartas a um jovem terapeuta e aos textos sobre psicose e fantasma. Pais, educadores e curiosos sobre juventude encontram em A Adolescência um mapa enxuto. Quem prefere o tom de crônica cultural se acomoda em Todos os reis estão nus ou nas coletâneas da Folha. E quem quer ver o método em movimento pode assistir a Psi e cruzar com a prosa jornalística.

No ecossistema brasileiro de psicanálise e cultura, Calligaris dialoga com um campo em que também atuam nomes como Christian Dunker, cada um com estilo e projeto próprios. Para navegar por mais perfis de psicologia e saúde mental, o diretório reúne autoridades vizinhas por tema. O que distingue Calligaris é a combinação de clínica europeia, crônica de jornal e ficção sem abrir mão do leitor comum.

Ele torcia para o Coritiba — detalhe menor e humano que a biografia pública registrou — e tratava o sofrimento psíquico sem hierarquia de “problemas pequenos”. Dinheiro, dizia, não deveria barrar o tratamento quando existissem portas públicas e gratuitas. Essa ética de escuta, mais do que qualquer rótulo de celebridade intelectual, explica por que o nome ainda é buscado: não para um veredito final sobre a vida, e sim para pensar melhor a vida que se tem.

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Projetos de Contardo Calligaris

Cartas a um jovem terapeuta
Cartas a um jovem terapeuta
Cartas de Contardo Calligaris a quem inicia a escuta clínica: ética, limites e o ofício do terapeuta sem manual milagroso.
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Hello Brasil e outros ensaios
Hello Brasil e outros ensaios
Ensaios de Contardo Calligaris sobre a civilização brasileira: identidade, mal-estar coletivo e o olhar de quem chegou de fora.
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Todos os reis estão nus
Todos os reis estão nus
Crônicas e ensaios de Calligaris sobre o sujeito sem essência fixa, o olhar alheio e o mal-estar de ser alguém hoje.
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A Adolescência
A Adolescência
Volume enxuto da coleção Folha Explica em que Calligaris lê a adolescência como formação cultural, não só como fase.
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O sentido da vida
O sentido da vida
Calligaris enfrenta a busca por sentido, felicidade obrigatória e a liberdade de inventar a própria vida sem fórmula pronta.
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