Cunha Neto (Campo Maior, 2 de junho de 1924 — Campo Maior, 7 de fevereiro de 2010) foi um cordelista, poeta, radialista e político brasileiro. Autor de cerca de 130 folhetos, transformou a literatura de cordel em crônica da vida de Campo Maior, no Piauí: versos sobre festas religiosas, vaqueiros, a Batalha do Jenipapo e o cotidiano do sertão. Seu nome de registro era José Cunha Neto, e o apelido Zé Cunha Neto acompanhou boa parte de sua produção, iniciada nos anos 1940 e mantida até os últimos anos de vida.
Quem foi Cunha Neto
Filho de Antônio José da Cunha e Mariana Leite Cunha, nasceu em Campo Maior em 2 de junho de 1924. Morou em Belém do Pará entre 1957 e 1961, quando retornou ao Piauí. Foi comerciante, lavrador, radialista e contador de causos, atividades que dividiu com a escrita. Em 1944, começou a publicar cordéis e passou a integrar entidades ligadas à poesia popular, como a Ordem Brasileira dos Poetas da Literatura de Cordel, a Academia dos Poetas de Literatura de Cordel e a Casa de Poetas e Provadores de Brasília. Em Campo Maior, ocupou a cadeira 12 da Academia Campomaiorense de Ciências, Artes e Letras (ACALE).
Os folhetos, escritos em linguagem simples e popular, tratavam de política, amor, família e assuntos regionais. A Câmara Municipal de Campo Maior resume a produção dele como um retrato em versos da cidade: poesias sobre a história local, as pessoas, os costumes e as paisagens do município.
O cronista de Campo Maior em versos
A produção de Cunha Neto acompanha a história da cidade. Seus cordéis falaram da festa de Santo Antônio do Surubim, dos vaqueiros, da lagoa do Corró, das belezas naturais e arquitetônicas de Campo Maior e dos episódios ligados à Batalha do Jenipapo, marco da independência no Piauí. Esse conjunto virou objeto de estudo acadêmico: o trabalho de conclusão de curso "A história contada em versos: a cidade de Campo Maior nas poesias de Cunha Neto", apresentado na Universidade Estadual do Piauí, analisa os cordéis que ele escreveu entre 1984 e 2004 como fonte para compreender a história local, das questões econômicas às manifestações religiosas.
O poema "Bom Dia Campo Maior" resume esse olhar de cronista. Nele, o poeta saúda o Santo Antônio do Surubim, o Açude Grande, a Serra Azul, o pescador, o lavrador e o vaqueiro, e reserva uma estrofe ao monumento dos heróis do Jenipapo:
Bom dia, meu monumento
marco da libertação
Teus heróis tombaram em guerra
Para a glória da Nação.
O cordel é um gênero feito para circular em folhetos e para ser recitado, e a obra de Cunha Neto segue essa tradição: versos diretos, de leitura fácil, que funcionam como uma forma de o campomaiorense reconhecer a própria história por dentro, misturando memória, opinião e crônica do cotidiano.
Do cordel à vida pública
Cunha Neto foi vereador em Campo Maior por duas legislaturas, na década de 1970. No primeiro mandato, foi o vereador mais votado da história do município até então, e chegou a presidir a Câmara. Quando concorreu pela terceira vez e não foi eleito, respondeu com bom humor: escreveu o folheto "E a porca me comeu", que circulou pela cidade e teve grande repercussão. A história mostra como o cordel funcionava, na obra dele, como conversa direta com o público, e não apenas como gênero literário.
Folhetos, poemas e entidades
Entre os títulos citados em registros públicos sobre o autor estão "Amigos de Campo Maior" e "Nossa Terra, Nossa Gente", além do já mencionado "E a porca me comeu". Cunha Neto também assinou o cordel "Saudosa Memória de Ribamar Lopes — Ligeiro Retrospecto de Sua Vida", feito em homenagem ao amigo e compadre José Ribamar Osório Lopes, patrono da ACALE. A produção reúne ainda poemas lembrados em publicações e blogs da região, como "Adeus Belém do Pará" e "Advertência". Alguns desses versos foram reproduzidos por portais e blogs do Piauí, como o poema "Bom Dia Campo Maior".
Homenagens, morte e legado
Ao longo da vida, o poeta recebeu comendas, entre elas a Medalha do Mérito Heróis do Jenipapo. Morreu em 7 de fevereiro de 2010, em sua casa, no centro de Campo Maior, aos 85 anos, depois de enfrentar problemas de saúde. O escritor Elmar Carvalho, que o conheceu desde a infância, lembrou dele como um "autêntico cordelista" e um "poeta de gabinete", que trabalhava a palavra escrita em vez de improvisar como os repentistas.
Em texto de despedida, Elmar recorda que viu um folheto do poeta sobre o festejo de Santo Antônio do Surubim quando tinha nove anos e que sentiu orgulho do conterrâneo. Anos depois, ao tomar posse em uma academia de letras, foi homenageado por Cunha Neto, que declamou um poema feito para ele.
A memória do poeta continua viva na cidade dos heróis do Jenipapo. Em 2016, o primeiro Salão Literário de Campo Maior (SALICAM) exibiu no outdoor do evento o "Ano Cunha Neto", com o retrato dele em destaque. Em 2024, o centenário de nascimento foi lembrado por moradores e por páginas dedicadas à história do município. A cadeira 12 da ACALE, que ele ocupou, passou para a filha, a pedagoga e escritora Ana Maria Cunha, autora de uma carta pública de saudade ao pai.
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