Quem foi Danuza Leão
Em 1992, um livro de etiqueta escrito por uma ex-modelo que comandava as noites do Rio ficou um ano inteiro entre os mais vendidos do país. A autora era Danuza Leão, nome que já circulava havia décadas na vida social e cultural carioca antes de se tornar também fenômeno editorial. Modelo, atriz, entrevistadora, promotora de festas, colunista e escritora, ela atravessou a bossa nova, o cinema novo e a imprensa brasileira com a mesma desenvoltura com que recebia em casa.
Danuza Lofego Leão nasceu em Itaguaçu, no interior do Espírito Santo, em 26 de julho de 1933, e mudou-se com a família para o Rio de Janeiro aos dez anos. Morreu na mesma cidade em 22 de junho de 2022, aos 88 anos, em consequência de insuficiência respiratória agravada pelo enfisema pulmonar que a acompanhava havia anos.
De Itaguaçu a Paris: a trajetória na moda
Ainda na década de 1950, Danuza começou a trabalhar como modelo e foi considerada a primeira brasileira a desfilar no exterior. Viveu em Paris, onde atuou profissionalmente, e voltou ao Brasil com trânsito fácil entre estilistas, fotógrafos e jornalistas. Esse período na moda nunca deixou de aparecer em sua obra: as roupas, os gestos e as convenções sociais seriam assunto recorrente de suas crônicas.
Antes disso, aos quinze anos, frequentava a casa do pintor Di Cavalcanti, segundo relato que a própria autora transformou em livro de memórias anos depois. A convivência precoce com artistas plásticos, músicos e gente de imprensa ajudou a formar o repertório que ela usaria na maturidade.
Copacabana, Nara Leão e a bossa nova
Irmã mais velha da cantora Nara Leão, Danuza participou do ambiente que deu origem à bossa nova. Em seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, reuniam-se artistas da época, num circuito doméstico que se tornou marco da música brasileira. A proximidade com a irmã e com compositores do período deu a Danuza uma posição singular: dentro do movimento, sem ser instrumentista ou cantora, e testemunha de sua consolidação. A bossa nova aparece em suas memórias como cenário de juventude e de amizades que atravessaram décadas.
Cinema, televisão e a noite carioca
Danuza também atuou no cinema. Em 1967, interpretou Sílvia em Terra em Transe, de Glauber Rocha, um dos filmes centrais do cinema novo. Voltaria às telas em A Idade da Terra (1980), do mesmo diretor. Na televisão, foi jurada de programa de auditório e entrevistadora, além de colaboradora de novelas da Rede Globo.
Fora das câmeras, tornou-se presença constante nas boates cariocas. Foi dona de boutique, produtora de arte e promotora de festas em casas como Regine's e Hippopotamus, período em que ganhou capa de revista com o título "A grande dama da noite". Mais tarde, transformaria essa fase em material de livro.
Na sala com Danuza e a virada editorial
O reconhecimento como escritora veio em 1992, com Na sala com Danuza, livro de etiqueta social que liderou listas de mais vendidos por cerca de um ano. O sucesso abriu espaço para uma produção constante: As aparências enganam (2004), que reúne 101 crônicas publicadas na Folha de S.Paulo; Quase tudo (2005), autobiografia premiada com o Prêmio Jabuti; Fazendo as malas (2008), também vencedor do Jabuti; De malas prontas (2009) e É tudo tão simples (2011).
A obra dela ocupa um lugar próprio na literatura brasileira: não é ficção, nem manual, nem pura reportagem. É crônica de comportamento escrita por quem viveu aquilo que descreve, com humor seco e franqueza que a tornaram reconhecível à primeira linha.
A colunista: 12 anos na Folha de S.Paulo
Danuza foi colunista do Jornal do Brasil, da Folha de S.Paulo e do caderno Ela, de O Globo. Na Folha, assinou uma coluna por 12 anos, até 2013, escrevendo sobre relacionamentos, família, etiqueta, política e cotidiano. Alguns de seus textos continuam disponíveis no arquivo de colunas do jornal.
A saída do jornal, em 2013, ocorreu após declarações que geraram polêmica, incluindo comentários sobre Nova York e sobre a PEC das Domésticas. O episódio não encerrou sua presença pública: ela seguiu publicando livros e participando de entrevistas até os últimos anos de vida.
Casamentos, filhos e vida familiar
Danuza foi casada três vezes. Com o jornalista Samuel Wainer, fundador do jornal Última Hora, teve três filhos: a artista plástica Pinky Wainer, o jornalista Samuel Wainer Filho e o empresário do cinema Bruno Wainer. Depois, casou-se com o compositor e cronista Antônio Maria e, mais tarde, com o jornalista Renato Machado. O ator Gabriel Wainer é seu neto.
Ela deixou sete netos e sete bisnetos, segundo informações divulgadas na época de sua morte.
Como morreu Danuza Leão
Danuza Leão morreu no Rio de Janeiro em 22 de junho de 2022, aos 88 anos. Ela sofria de enfisema pulmonar e a causa da morte foi insuficiência respiratória. O corpo foi cremado no Crematório e Cemitério da Penitência, no Caju, em cerimônia restrita à família e a amigos.
Por onde começar a ler Danuza Leão
A porta de entrada depende do interesse do leitor:
- etiqueta e comportamento: Na sala com Danuza, o best-seller de 1992, e É tudo tão simples, escrito duas décadas depois;
- memórias: Quase tudo, autobiografia premiada com o Jabuti;
- crônicas: As aparências enganam, com textos publicados na Folha de S.Paulo;
- viagens: Fazendo as malas, que percorre Sevilha, Lisboa, Paris e Roma.
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