Quem busca Darcy Ribeiro quase nunca quer só uma ficha de antropólogo. Quer entender por que o Brasil virou o que virou — e por que um mineiro de Montes Claros passou a vida tentando transformar essa explicação em universidade, escola de tempo integral e lei. Ele escreveu O Povo Brasileiro, fundou a Universidade de Brasília ao lado de Anísio Teixeira e, no governo de Leonel Brizola no Rio, desenhou os CIEPs. A busca pelo nome costuma misturar vestibular, indigenismo e política, e o risco é reduzir o homem a uma dessas gavetas.
O nome civil é Marcos Darcy Silveira Ribeiro. Nasceu em 26 de outubro de 1922, filho de Reginaldo Ribeiro dos Santos e de Josefina Augusta da Silveira, a professora que ele chamava de Mestra Fininha. A avenida principal de Montes Claros leva o nome da mãe. O detalhe não é folclore: Darcy cresceu no rastro de uma mestra primária e, décadas depois, insistiria que o atraso brasileiro se mede menos em discurso do que na escola que o país oferece — ou deixa de oferecer — à criança pobre.
De Montes Claros às aldeias: o etnólogo antes do reitor
Foi para Belo Horizonte pensar em Medicina e mudou de rumo ao cruzar com as Ciências Sociais. Em 1946, formou-se em antropologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Os dez anos seguintes, que ele próprio descreveu como os melhores da vida, foram de campo: aldeias do Pantanal, do Brasil Central e da Amazônia, rede, língua, parentesco e o choque cotidiano entre povos indígenas e a expansão nacional. Assessou Cândido Rondon no Rio, dirigiu o Museu do Índio e criou o primeiro curso brasileiro de pós-graduação para antropólogos.
No Serviço de Proteção ao Índio, redigiu o projeto do Parque Indígena do Xingu, criado em 1961. Os ensaios sobre os Kadiwéu e o trabalho com os Kaapor — inclusive Arte Plumária dos Índios Kaapor, com Berta Ribeiro — não são prefácio decorativo da carreira pública. São a matéria de que saíram o romance Maíra e o ensaio Os Índios e a Civilização. Quem lê Darcy só como educador perde o etnólogo que dormiu em aldeia antes de assinar ministério.
Essa fase também explica por que seu nome reaparece quando o Brasil discute povos originários. A etnologia de Darcy é de meados do século XX, com os limites e as apostas daquela antropologia aplicada. Ainda assim, o fio que liga campo, museu e política indigenista continua útil para quem, hoje, lê vozes indígenas contemporâneas como a de Ailton Krenak e quer saber de onde veio o debate público anterior.
UnB, ministério, golpe e o exílio que virou livro
Seduzido por Anísio Teixeira, Darcy deixou o campo para a educação. No começo dos anos 1960, os dois pensaram a Universidade de Brasília: Darcy foi o primeiro reitor e assinou o Plano Orientador da UnB. Em abril de 1962, discursou na inauguração. A universidade nascia como projeto de país, não como campus isolado. O campus principal da UnB leva hoje o nome dele.
No governo João Goulart foi ministro da Educação (18 de setembro de 1962 a 23 de janeiro de 1963) e, depois, chefe da Casa Civil (18 de junho de 1963 a 2 de abril de 1964). O golpe militar cassou direitos, mandou-o ao exílio e interrompeu a UnB que ele havia ajudado a inventar. Com Berta, foi para o Uruguai. Voltou em 1968, ficou preso cerca de oito meses na Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói, e saiu de novo: Venezuela, Chile, Peru, com passagem também pela Argélia. Nesses anos escreveu A Universidade Necessária e os Estudos de Antropologia da Civilização, além de romance. O exílio não o silenciou: empurrou-o para o papel de reformador de universidades na América Latina e para a ficção.
CIEPs, LDB e o retorno à política
De volta, filiou-se ao PDT. No primeiro governo Brizola no Rio (1983-1987), como vice-governador, criou, planejou e dirigiu a implantação dos Centros Integrados de Ensino Público. Os CIEPs eram escola de tempo integral com alimentação, esporte e cultura — uma tentativa de dar concretude à escola pública que Anísio Teixeira defendera décadas antes. Idealizou a Universidade Estadual do Norte Fluminense, hoje UENF Darcy Ribeiro. Em 1989, o Memorial da América Latina, em São Paulo, saiu de seu projeto cultural. Em 1986, candidatou-se ao governo do Rio e perdeu para Moreira Franco.
Senador pelo Rio de 1991 até a morte, em 1997, Darcy foi relator da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a Lei 9.394/96. A foto que resta do plenário, nos óculos redondos, é a de um homem já doente e ainda teimoso: a LDB que o país debate até hoje carrega a marca desse mandato. Eleito para a cadeira 11 da Academia Brasileira de Letras em 8 de outubro de 1992, tomou posse em 15 de abril de 1993. Recebeu doutor honoris causa da Sorbonne em 1978 e da própria UnB em 1995. No mapa da educação brasileira do século XX, o nome dele não substitui o de Paulo Freire: ocupa outro flanco — universidade, tempo integral, lei e Estado.
- Primeiro reitor da Universidade de Brasília e autor do plano orientador da instituição.
- Ministro da Educação e chefe da Casa Civil no governo João Goulart.
- Idealizador dos CIEPs no Rio e da UENF.
- Relator da LDB de 1996 no Senado.
- Autor de O Povo Brasileiro, Maíra e da série de antropologia da civilização.
O povo-novo e a briga com as teorias importadas
Darcy desconfiava de Ciências Sociais que ou se perdiam em microanálise ou copiavam esquemas europeus sem caber na América. Em O Processo Civilizatório, publicado no exílio em 1968, propôs revoluções tecnológicas e formações socioculturais para explicar por que sociedades mudam de tipo. Em As Américas e a Civilização, classificou os povos americanos em configurações: povos-novo, povos-testemunho, povos-transplantado e povos-emergente. O Brasil, nessa chave, é povo-novo: híbrido nascido de dominação, miscigenação e desculturação forçada — e, ao mesmo tempo, “velho” porque existe como provedor colonial de mercadorias, não para si mesmo.
O Povo Brasileiro, de 1995, é o livro que a busca mais pede. Darcy dizia ter levado cerca de trinta anos para escrevê-lo. Ali está a tipologia de classes que ele recusou importar pronta: patronato, patriciado, estamento gerencial das empresas estrangeiras, setores intermediários, classes subalternas e a massa das classes oprimidas. Não é manual de autoajuda nacional. É ensaio de antropólogo que passou a vida no SPI, no ministério e no exílio e, no fim, quis deixar um sentido do Brasil.
O que ficou depois de 1997
Darcy morreu em Brasília em 17 de fevereiro de 1997, aos 74 anos, de falência múltipla de órgãos após câncer com metástase. Foi sepultado no Cemitério de São João Batista, no Rio. O campus da UnB, o da Unimontes em Montes Claros, a UENF, a passarela do samba no Rio e a sede da Controladoria-Geral da União em Brasília carregam o nome dele. Em novembro de 2024, a Lei 15.020 inscreveu-o no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. A Fundação Darcy Ribeiro guarda o acervo, a bibliografia e o tom inconfundível dos textos em que ele falava de si na terceira pessoa.
O que permanece útil não é o mito do intelectual que “fez o Brasil”. É o recorte: um etnólogo de aldeia que virou reitor, ministro, vice-governador e romancista, e que insistiu em tratar índio, escola e povo como o mesmo problema. Quem chega agora pelo livro, pelo CIEP ou pela UnB está, no fundo, perguntando a mesma coisa que ele passou a vida a responder — e a tentar construir.




