David Coimbra fez da crônica um jeito de contar o Rio Grande do Sul. Nascido em Porto Alegre em 28 de abril de 1962, cresceu no IAPI, na Zona Norte da cidade — bairro que reaparece em dezenas de seus textos — e morreu na mesma Porto Alegre em 27 de maio de 2022, aos 60 anos, depois de anos de tratamento contra um câncer renal diagnosticado em 2013. Entre a infância no conjunto habitacional e a coluna diária no jornal Zero Hora, passou por mais de dez redações no Sul do país e publicou mais de 15 livros.
Quem busca o nome dele costuma chegar por dois caminhos: a lembrança das crônicas de futebol e a curiosidade sobre uma trajetória que cruzou jornalismo, rádio, televisão e literatura. David Coimbra foi repórter, editor, cronista, radialista e autor de romances, reportagens e ensaios. Na imprensa gaúcha, ficou conhecido por uma ideia simples e teimosa: o resultado do jogo importa, mas a história que o jogo produz importa mais.
Quem foi David Coimbra
David Wagener Coimbra nasceu em Porto Alegre, no Hospital Cristo Redentor, e foi o filho mais velho de três irmãos. Cresceu no IAPI, conjunto habitacional da Zona Norte da capital que se tornaria cenário recorrente de suas colunas, o mesmo bairro onde viveu Elis Regina. Formou-se em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) em 1984, mas já trabalhava na área antes de receber o diploma.
Na Livraria e Editora Sulina, foi assessor de imprensa: escrevia resenhas, entrevistava autores e acompanhava escritores em suas visitas ao Rio Grande do Sul. A rotina entre livros e redação definiu o que ele faria pelo resto da vida. Depois vieram as redações do Correio do Povo, do Diário Catarinense, do Jornal da Manhã, do Jornal NH e do Jornal de Santa Catarina, além das rádios Eldorado e Guaíba e da RCE TV.
Como David Coimbra mudou a editoria de Esportes da Zero Hora
Nos anos 1990, David Coimbra assumiu a editoria de Esportes do jornal Zero Hora e liderou uma mudança de forma e de conteúdo que ficou marcada na imprensa gaúcha. Para ele, tão relevante quanto o resultado em campo eram as histórias que o futebol proporcionava. A equipe passou a perseguir personagens e detalhes humanos atrás do placar, e o próprio editor acompanhou a Seleção Brasileira em coberturas internacionais.
Foi na Copa do Mundo de 1998 que ele estreou a função que o tornaria mais conhecido: a de cronista. O texto direto, com humor e crítica, transformou o futebol em assunto de vida — e rendeu polêmicas que ele nunca evitou.
O cronista do cotidiano e do futebol
A partir de 2014, David Coimbra passou a assinar uma coluna diária no jornal Zero Hora e a participar do programa Timeline, da Rádio Gaúcha, onde também integrava a equipe do Sala de Redação. Na televisão, foi presença frequente em programas do extinto canal TV Com, como o Bate-Bola e o Café TV Com.
Nas colunas, o IAPI, o futebol, a família e a cidade apareciam lado a lado. Era comum que um texto sobre o Gre-Nal terminasse falando de medo, de vizinhança ou de memória. Sobre o ofício de escrever, deixou uma frase que resume seu método:
“A história é tua enquanto tu estás escrevendo. Depois que tu escreve, ela saiu de ti. Ela é do leitor, do telespectador, do roteirista, do ator. Ela não é mais tua.”
Os livros de David Coimbra
Ao longo de mais de três décadas, David Coimbra publicou mais de 15 livros, a maioria pela L&PM Editores, misturando crônicas, romances, reportagens e ensaios de história. O primeiro romance, Canibais: Paixão e Morte na Rua do Arvoredo (2004), revisita um crime célebre da Porto Alegre do século XIX. Depois vieram títulos como Mulheres! (2005), Jogo de Damas (2007), Jô na Estrada (2010), Um Trem para a Suíça (2011) e Uma História do Mundo (2012).
Alguns marcos ajudam a organizar a trajetória:
- 1984 — formou-se em jornalismo pela PUC-RS;
- anos 1990 — assumiu a editoria de Esportes da Zero Hora;
- 1998 — estreou como cronista na cobertura da Copa do Mundo;
- 2014 — passou a assinar coluna diária no Zero Hora e a participar do programa Timeline, na Rádio Gaúcha;
- 2018 — lançou Hoje eu venci o câncer, sobre o tratamento contra a doença;
- 2019 — recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura pela obra;
- 2022 — teve lançado, depois de sua morte, Crônicas dos Anos da Peste & Outras Histórias.
O câncer, Boston e o livro Hoje eu venci o câncer
Em 2013, David Coimbra foi diagnosticado com um tumor em estágio avançado no rim esquerdo, que exigiu a retirada do órgão e tratamento contra metástases ósseas. A partir de 2014, passou a dividir temporadas entre Porto Alegre e Boston, nos Estados Unidos, onde participou de um estudo clínico. A experiência virou livro em 2018.
Hoje eu venci o câncer não é um manual de saúde nem um relato heroico. É a crônica de um homem que precisou aprender a conviver com exames, viagens e incerteza sem abrir mão do humor. A obra recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura de 2018, na Categoria Especial, entregue pela Prefeitura de Porto Alegre no ano seguinte.
Ele seguiu escrevendo até o fim. Em maio de 2022, dias antes de ser internado, publicou a coluna “Quando quis morrer”, em que falou do medo, da dor e da gratidão — e deixou uma defesa teimosa da vida: “A vida é boa.”
Por que David Coimbra continua sendo lido
Depois da morte, em 27 de maio de 2022, a cidade tratou de manter o nome dele em circulação. Em dezembro de 2024, a Prefeitura de Porto Alegre entregou o Largo David Coimbra, no bairro Menino Deus. Nas livrarias, os livros continuam sendo procurados por leitores de crônica, de futebol e de história de Porto Alegre.
A obra dele transita entre a literatura e o esporte, dois campos que ele nunca tratou como separados. Quem chega pelo Gre-Nal acaba encontrando o cronista da cidade; quem chega pela crônica acaba encontrando o repórter de esportes. É nesse cruzamento que a escrita de David Coimbra segue reconhecível: uma voz que preferia a história ao placar.






