Antônio Dirceu Rabelo de Vasconcelos, conhecido como Dirceu Rabelo, nasceu em 14 de junho de 1939, em Tuparetama, no sertão de Pernambuco, e construiu uma obra poética que atravessa mais de cinco décadas. Advogado, professor e ensaísta, ele publicou O canto antecedente em 1974 e chegou a 2021 com Poesia completa, volume que reúne seus sonetos, pantuns, sextinas, triolés, sátiras e glosas. Ocupa a cadeira 21 da Academia Pernambucana de Letras desde 1996 e é uma das vozes que mantêm viva a tradição do verso medido e da poesia de circunstância no estado.
Quem pesquisa Dirceu Rabelo costuma chegar pela poesia: pelos sonetos de forma rigorosa, pelas glosas escritas para celebrar amigos, cidades e datas, pelos versos que falam de chuva e de memória. Mas a trajetória dele é maior do que o verso. Antes de se firmar como poeta, foi assistente jurídico de instituições pernambucanas, lecionou português, matemática e noções de Direito, e se autodenomina um poeta "bissexto": alguém que cultiva a poesia sem dela fazer profissão, mantendo o ofício jurídico e o magistério como base da vida.
De Tuparetama ao Recife: formação e atuação profissional
Dirceu Rabelo nasceu em Tuparetama, localidade que em 1939 ainda era o distrito de Bom Jesus, subordinado a Afogados da Ingazeira, no interior de Pernambuco. O sertão natal aparece em sua poesia e na leitura que a crítica fez dela: o escritor Waldemar Lopes o apresentou como um poeta identificado ao mesmo tempo com as matrizes telúricas da cultura popular e com as fontes mais nobres da arte poética, capaz de participar das criações espontâneas dos cantadores e de demonstrar pleno domínio da técnica moderna do poema.
Formado em Direito, exerceu a advocacia como assistente jurídico do Banco do Brasil e da Cooperativa de Crédito dos Plantadores de Cana de Pernambuco. Foi também diretor executivo para assuntos jurídicos da Empresa Melhoramentos Habitacionais de Pernambuco. Na docência, ensinou português e matemática em colégios de Garanhuns e noções de Direito Público e Privado nas faculdades de Economia e Administração de Mossoró, no Rio Grande do Norte. No Recife, cidade onde se radicou e onde publicou a maior parte de seus livros, sua vida literária ganhou corpo: a capital pernambucana é sede das editoras que lançaram sua obra e da academia que o acolheu.
Por que Dirceu Rabelo é chamado de poeta bissexto
A expressão é dele. Ao se definir como "poeta bissexto", Dirceu Rabelo assume que a poesia ocupou na vida dele o lugar do intervalo, do tempo extraordinário, sem deixar de ser levada a sério. O resultado é uma obra construída ao longo de décadas, em paralelo à advocacia e ao ensino, e publicada em editoras pernambucanas como Bagaço, Comunicarte e Comunigraf.
Como ensaísta, publicou trabalhos na Revista de Poesia e Crítica, em São Paulo, Brasília e no Recife, e na Revista da Academia Pernambucana de Letras. Nesses textos e nos livros, a reflexão sobre o próprio fazer poético aparece com frequência: métrica, rima, formas fixas e o lugar da poesia no mundo contemporâneo são temas recorrentes de quem domina a técnica e a discute com clareza.
Os livros de Dirceu Rabelo e a poesia de circunstância
A bibliografia do poeta começa em 1974 e se estende até a reunião de sua obra em Poesia completa. Entre os títulos principais estão:
- O canto antecedente (Recife: Bagaço, 1974);
- Método prático de análise sintática (Recife, 1989);
- Chuva bissexta (Recife: Comunicarte, 1991);
- Glosas, epigramas e outros versos de circunstância (Recife: Comunicarte, 1992);
- Livro de cantares (de lembrança e louvação) (Recife: Comunicarte, 1995);
- Elegias e outros poemas reunidos (Recife: Bagaço, 1996);
- Canto no fim da tarde (Recife: Comunigraf, 2000);
- Versos de circunstância (Recife: Comunigraf, 2003);
- 30 poemas escolhidos (Recife: Fac-Form, 2008);
- Poemaquático (Recife: Bagaço, 2009);
- Uma dezena de sonetos e Livro de sonetos (Recife, 2012);
- Trilogia de poemas (Recife: Edições Bagaço, 2012);
- Terceira dezena de poemas (Recife, 2014);
- 35 sonetos escolhidos (Recife: Novo Horizonte, 2016);
- Poesia completa (2021).
Além dos livros de poesia, o Método prático de análise sintática, de 1989, revela outra face do autor: a do professor de português que organizou em livro o conteúdo que ensinava. A obra didática convive, na bibliografia, com os volumes de versos de circunstância, poemas escritos para uma ocasião específica, como homenagens, aniversários e celebrações, gênero que ele praticou com constância e refinamento.
Formas fixas, humor e memória
Na apresentação de Poesia completa, a obra é descrita como o lugar em que o autor exibe seus conhecimentos de poesia em estruturas variadas: sonetos, pantuns, sextinas, triolés, sátiras e glosas. A diversidade formal é um traço do perfil de Dirceu Rabelo. Ele escreve o soneto clássico, a glosa de mote alheio, a paródia e a paráfrase, e transita entre o registro lírico e o tom brincalhão sem perder a métrica.
A chuva é um dos motivos que atravessam essa produção, a ponto de batizar um de seus livros, Chuva bissexta, e de inspirar versos citados na apresentação de sua poesia reunida. Mais do que tema literário, a chuva funciona como marca de um olhar sertanejo sobre o tempo, a espera e a lavoura, uma paisagem interior que o poeta levou para a cidade grande.
Academias de letras e reconhecimento público
Dirceu Rabelo integra entidades literárias do Recife e do Nordeste, o que ajuda a medir sua presença na vida cultural pernambucana:
- Academia Recifense de Letras;
- Academia de Letras e Artes do Nordeste, cadeira 19, eleito em dezembro de 1987;
- Academia Pernambucana de Letras, cadeira 21, eleito em 10 de junho de 1996, com passagem pela secretaria-geral;
- Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, regional de Pernambuco, sócio honorário desde 1996.
A atuação nas academias se traduz em participação em sessões literárias, noites de poesia e leituras públicas. Registros em vídeo mostram o acadêmico recitando sonetos de autoria própria em eventos da Academia Pernambucana de Letras, o que mantém sua obra em circulação para além do livro impresso. Em 2016, o lançamento de 35 sonetos escolhidos foi noticiado pela imprensa pernambucana, sinal de que a produção do poeta continua encontrando espaço na agenda cultural do estado.
Por que a obra de Dirceu Rabelo segue sendo lida
Ler Dirceu Rabelo hoje é entrar em contato com uma linhagem da poesia brasileira que não abre mão da forma: o soneto, o pantum, a sextina, o triolé, a glosa. É também conhecer um autor que nunca se levou a sério demais, daí o "bissexto", e que fez da poesia de ocasião um gênero nobre, capaz de registrar afetos, homenagens e a vida de uma cidade.
Para quem se interessa por literatura pernambucana, a obra completa funciona como panorama de mais de cinco décadas de trabalho; para quem pesquisa formas fixas, os livros de sonetos e a trilogia de poemas oferecem um material de estudo raro. A produção do autor dialoga com outros nomes da literatura brasileira, e os títulos ainda em catálogo permitem começar a leitura sem depender de bibliotecas ou sebos.


