Foi no fim dos anos 1960, nas páginas da revista Quatro Rodas, que Domingos Meirelles assinou uma das reportagens mais lembradas da imprensa brasileira: ao apurar irregularidades no Detran do Rio de Janeiro, obteve uma carteira de habilitação para um homem cego, provando que o órgão emitia licenças sem qualquer verificação. A apuração rendeu a ele um dos três prêmios Esso da carreira e inaugurou uma trajetória que passaria por redações como O Globo e O Estado de S. Paulo, por dois livros premiados com o Jabuti e por programas como o Linha Direta.
Domingos João Meirelles nasceu no Rio de Janeiro, em 8 de maio de 1940, em uma família de imigrantes europeus que chegou ao Brasil depois da Revolução de 1930. O pai, João Américo Meirelles, foi condutor de bonde antes de se estabelecer como comerciante; a mãe, Maria Adelaide Félix Meirelles, trabalhou como doméstica.
Do estágio na Última Hora à revista Realidade
Em 1965, depois de passar por vários empregos, Meirelles pediu uma vaga de estagiário no jornal Última Hora, no Rio. Seis meses depois já era repórter contratado e permaneceu no jornal até 1968, quando se transferiu para a revista Quatro Rodas, da Editora Abril. Foi ali que assinou a reportagem sobre o Detran. Em seguida, foi convidado a integrar a equipe da revista Realidade, em São Paulo, onde trabalhou até 1972.
Coluna Prestes, O Globo e o Estadão
De volta ao Rio de Janeiro em 1972, passou brevemente por O Jornal e chegou ao Jornal da Tarde, onde assinou uma série de reportagens sobre os 50 anos da Coluna Prestes. O material reunido na apuração — entrevistas, depoimentos e documentos — ficaria guardado por mais de duas décadas antes de virar livro. Em 1975, Meirelles foi para O Globo, participou da seção Plantão Globo, que registrava queixas de moradores dos bairros cariocas, e cobriu o terremoto da Guatemala em 1976. No mesmo ano, transferiu-se para O Estado de S. Paulo, onde atuou como repórter especial por quase dez anos.
Globo, Linha Direta e os anos na televisão
Em dezembro de 1985, a convite do então diretor da Central Globo de Jornalismo, Armando Nogueira, Meirelles estreou na Rede Globo, no Jornal Nacional — na época apresentado por Cid Moreira — e em seguida passou a fazer reportagens para o Fantástico e o Globo Repórter.
Em 1989, ganhou o Prêmio Líbero Badaró de telejornalismo com uma reportagem do Globo Repórter sobre o contrabando de carros roubados na fronteira entre Brasil e Paraguai. Em 1992, outra reportagem do mesmo programa, sobre a violência de donos de terra no Pará, conquistou o prêmio Rei de Espanha de Televisão. No mesmo ano, seu trabalho para o Fantástico sobre o desaparecimento do pianista Tenório Júnior, na noite do golpe que derrubou Isabelita Perón, na Argentina, venceu o Prêmio Vladimir Herzog — depois da exibição, o governo argentino decidiu indenizar famílias de brasileiros vítimas da ditadura no país.
Meirelles deixou a Globo em 1996 e se transferiu para o SBT, onde integrou a equipe do SBT Repórter. Voltou à emissora carioca em 1999 e, no ano seguinte, assumiu a apresentação do Linha Direta, no lugar de Marcelo Rezende. O programa de reconstituição de crimes ficou no ar até 6 de dezembro de 2007 e ganhou duas edições especiais: Linha Direta Justiça (2003) e Linha Direta Mistério (2005). Em 2003, a equipe recebeu a Medalha Tiradentes, maior comenda do poder legislativo do Rio de Janeiro; em 2007, o programa chegou à final do Emmy Internacional, na categoria documentário, com medalha e diploma da Academia Internacional de Televisão, Artes e Ciências.
Em 2014, fechou contrato com a Record e apresentou o Repórter Record Investigação, no ar até 2016. Na emissora, também narrou o Câmera Record, entre 2015 e 2021. O vínculo terminou em fevereiro de 2021, quando a Record encerrou o contrato.
Fora das câmeras, Meirelles manteve atuação institucional: foi diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro entre 1975 e 1981, presidente da Cooperativa dos Profissionais de Imprensa do Estado do Rio de Janeiro (1982–1986), editor do Boletim ABI, assessor de imprensa da OAB-RJ, diretor financeiro da Associação Brasileira de Imprensa (2004–2013) e presidente da entidade entre 2014 e 2019.
Os livros: história do Brasil em forma de reportagem
O material apurado para o Jornal da Tarde virou As Noites das Grandes Fogueiras: Uma História da Coluna Prestes, publicado pela Editora Record em 1995 e vencedor do Prêmio Jabuti de 1996 na categoria Reportagem. A obra reconstrói a marcha da Coluna Prestes pelo interior do país, entre 1925 e 1927, a partir de testemunhos, relatórios oficiais e documentação americana reunida pelo autor.
Em 2005, lançou 1930: Os Órfãos da Revolução, no qual acompanha os tenentes da Coluna Prestes desde o exílio, em 1927, até o retorno clandestino ao Brasil para deflagrar o movimento que depôs o presidente Washington Luís e levou Getúlio Vargas ao poder. O livro venceu o Prêmio Jabuti de 2006 na categoria Ciências Humanas.
Meirelles participou ainda de obras coletivas como Repórteres e As Guerras dos Gaúchos, esta última premiada com o Prêmio Açorianos de 2009. Atualmente, trabalha em três projetos simultâneos: um livro sobre os bastidores de suas principais reportagens, outro sobre o levante da Força Pública de São Paulo em 1924 e um terceiro sobre a máquina de guerra construída pelos paulistas na Revolução Constitucionalista de 1932.
Prêmios e reconhecimento
Ao longo de mais de 60 anos de carreira, acumulou mais de 40 prêmios. Entre os principais:
- três Prêmios Esso e quatro Prêmios Vladimir Herzog de Direitos Humanos;
- duas vezes o Prêmio Rei de Espanha de Televisão, em 1992 e 2016 — único brasileiro a receber a honraria em duas ocasiões;
- Prêmio Jabuti em 1996, na categoria Reportagem, e em 2006, na categoria Ciências Humanas;
- Medalha do Pacificador, do Exército (1994), e Ordem do Mérito Policial (2006);
- título de Cidadão Carioca, concedido pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro, e professor honoris causa da Faculdade de Minas (2007);
- Medalha Miguel Costa (2011), Medalha JK (2015) e Ordem do Mérito Judiciário do TRT-1 (2015).
Desde 2012, ocupa a cadeira número dois do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil, um dos cinco historiadores civis da instituição. Também ministra cursos livres de jornalismo investigativo, jornalismo literário, técnicas de redação e estruturas narrativas para mídia impressa e TV, além de palestras sobre história contemporânea e gestão de crise.
Destino Brasil TV: o retorno à televisão
Depois de cinco anos longe da TV, Meirelles voltou ao ar em janeiro de 2026, aos 85 anos, para apresentar o Destino Brasil TV, na TV Serra Dourada, afiliada do SBT em Goiás. O programa estreou em 11 de janeiro, vai ao ar semanalmente aos domingos, às 10h30, e tem 52 episódios de 30 minutos previstos na primeira temporada.
Voltado ao turismo brasileiro, o Destino Brasil TV combina informação, análise de dados e linguagem acessível para tratar de infraestrutura, hotelaria, mobilidade, planejamento urbano, atrativos turísticos e a experiência do viajante. As gravações percorrem diferentes regiões do país — a escolha de Goiás como ponto de partida tem relação com a presença de estâncias termais, parques aquáticos e grandes complexos hoteleiros no estado. O formato abre espaço para debates com especialistas, empresários, representantes do poder público e da sociedade civil. Para quem está fora de Goiás, os episódios ficam disponíveis no canal oficial do programa no YouTube.




