Eduardo Nantes Bolsonaro foi o deputado federal mais votado da história do Brasil, com 1.843.735 votos em 2018, e se tornou um dos principais elos entre a família Bolsonaro e a política externa dos Estados Unidos. Uma década depois de assumir o primeiro mandato, perdeu o cargo por faltas, em dezembro de 2025, e foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo da trama golpista.
Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e de Rogéria Nantes, ele nasceu em Resende, no interior do Rio de Janeiro, e construiu a carreira política em São Paulo. A trajetória combina a formação em Direito, a passagem pela Polícia Federal e uma ascensão eleitoral incomum, impulsionada pelo sobrenome e por uma linguagem de confronto que o colocou no centro do debate nacional. Nos últimos anos, o perfil deixou de ser apenas o de parlamentar e passou a incluir a atuação no exterior, a cassação e uma condenação criminal.
De Resende ao concurso da Polícia Federal
Eduardo Bolsonaro nasceu em 10 de julho de 1984, terceiro filho de Jair Bolsonaro e Rogéria Nantes. A infância coincidiu com a carreira militar do pai, que na época servia no Rio de Janeiro. Estudou em colégios particulares e, mais tarde, ingressou no curso de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde se formou em março de 2009.
Aprovado em concurso público no ano seguinte, tornou-se escrivão da Polícia Federal. O cargo lhe deu uma credencial que ele passaria a acionar com frequência em debates sobre segurança pública, armas e combate ao crime. A experiência na corporação também ajudou a moldar a imagem de político jovem, ligado à área de segurança, que começaria a disputar espaço eleitoral poucos anos depois.
Em 2014, filiado ao Partido Social Cristão (PSC), disputou o primeiro mandato de deputado federal por São Paulo. Foi eleito com 82.224 votos e assumiu o cargo em fevereiro de 2015, aos 30 anos.
O recorde de 2018 e a consolidação na Câmara
O salto veio na eleição seguinte. Já pelo Partido Social Liberal (PSL), Eduardo foi reeleito em 2018 com 1.843.735 votos, o maior volume registrado por um deputado federal na história do país. O resultado foi obtido no mesmo pleito que levou o pai à Presidência e transformou a família em uma das principais forças da política brasileira.
Em 2022, já filiado ao Partido Liberal (PL), foi reeleito com 741.701 votos. Ao longo dos anos, passou por PSC, PSL, União Brasil e PL, mudanças que acompanharam as articulações do grupo bolsonarista e a reorganização partidária depois de 2018.
No Legislativo, ficou associado a pautas como a redução da maioridade penal, a flexibilização do porte de arma, o fim do auxílio-reclusão, a criminalização do comunismo e a valorização das forças armadas. Também votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff, da PEC do Teto dos Gastos Públicos e da reforma trabalhista de 2017.
O que ele defendeu e as polêmicas que o projetaram
A atuação de Eduardo Bolsonaro ficou marcada tanto pela agenda conservadora quanto pelo confronto com instituições. Em 2018, um vídeo gravado durante um curso em Cascavel (PR) o colocou no centro de uma crise ao sugerir que bastariam “um cabo e um soldado” para fechar o Supremo Tribunal Federal. Ele depois afirmou que nunca defendeu o fechamento da Corte e pediu desculpas caso tivesse ofendido alguém.
No ano seguinte, declarou que um “novo AI-5” era uma possibilidade em caso de “radicalização da esquerda”. A fala gerou reação de partidos de diferentes espectros e do próprio presidente da Câmara, e Eduardo recuou, dizendo ter sido mal interpretado. Em 2019, também foi cogitado pelo pai para a embaixada do Brasil em Washington, mas desistiu da indicação diante da falta de apoio no Senado e das acusações de nepotismo.
Na Câmara, apresentou projetos como a proposta que pretendia anular a resolução do Conselho Nacional de Justiça sobre audiências de custódia e um texto que equiparava a apologia ao comunismo à apologia ao nazismo. A produção legislativa acabou tendo menos espaço na cobertura do que a atuação em redes sociais, entrevistas e eventos políticos.
Principais marcos da trajetória pública:
- 2014 — eleito deputado federal por São Paulo com 82.224 votos;
- 2018 — reeleito com 1.843.735 votos, recorde nacional para o cargo;
- 2019 — indicado pelo pai para a embaixada em Washington, mas desiste após falta de apoio no Senado;
- 2022 — reeleito com 741.701 votos pelo PL;
- 2025 — pede licença do mandato e se muda para os Estados Unidos; tem o mandato cassado em dezembro;
- 2026 — é condenado pelo STF e demitido do cargo de escrivão da Polícia Federal.
A saída do Brasil e a cassação do mandato
Em março de 2025, Eduardo anunciou nas redes sociais que tiraria licença do mandato para morar nos Estados Unidos. Na justificativa pública, falou em “perseguições políticas” contra ele e contra o pai. A licença terminou em julho daquele ano, mas ele não retornou ao Brasil, e as faltas passaram a ser contabilizadas pela Câmara.
Em 18 de dezembro de 2025, a Mesa Diretora da Câmara cassou o mandato dele por excesso de faltas não justificadas. O suplente Missionário José Olímpio assumiu a vaga. Dias depois, a Câmara cancelou o passaporte diplomático de Eduardo, que já estava fora do país.
A perda do mandato também reabriu a questão do cargo na Polícia Federal. Em 2 de janeiro de 2026, a corporação determinou o retorno imediato dele ao posto de escrivão. Eduardo não se apresentou e, em 27 de janeiro, a PF abriu processo administrativo disciplinar por abandono de cargo. Em julho, a corporação recomendou a demissão; em 21 de setembro de 2026, o Ministério da Justiça efetivou o desligamento.
A condenação no Supremo Tribunal Federal
Em 16 de junho de 2026, a Primeira Turma do STF condenou Eduardo Bolsonaro por coação no curso do processo que investigava a tentativa de golpe de 2022. A acusação sustentou que, nos Estados Unidos, ele articulou sanções comerciais e punições contra autoridades brasileiras para tentar interferir no julgamento do pai.
A pena foi fixada em quatro anos e dois meses de prisão, em regime semiaberto, mais 50 dias-multa, cada um equivalente a dois salários mínimos, o que somou cerca de R$ 162 mil. A decisão também impôs inelegibilidade por 12 anos, até 2038. O relator, ministro Alexandre de Moraes, afirmou que a atuação não estava protegida pela imunidade parlamentar.
Eduardo classificou a sentença como “nula” e disse que o objetivo do julgamento era retirá-lo das eleições. Ele também afirmou que tomou conhecimento dos fatos pela imprensa e que não teria sido citado regularmente. A decisão foi divulgada em junho de 2026 e ainda cabe recurso.
O que Eduardo Bolsonaro faz hoje
Desde 2025, Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos. Sem mandato e demitido da Polícia Federal, ele mantém a presença pública principalmente pelo canal no YouTube, onde publica entrevistas, análises e material de campanha. O canal é a base de dois projetos que ele apresenta: o programa de entrevistas O Brasil Precisa Saber e a versão em inglês The World Needs to Know.
Na vida pessoal, casou-se em 2019 com Heloísa Wolf, com quem teve a filha Geórgia, nascida em 2020. A família permanece como um dos eixos centrais da sua imagem pública, ao lado do irmão Carlos Bolsonaro e de outros nomes do grupo político formado em torno do pai.
Presença digital e projetos
Eduardo mantém perfis oficiais no Instagram, no Facebook e no X, além do canal no YouTube. Nesses espaços, alterna comentários sobre política brasileira, divulgação de entrevistas e mensagens dirigidas ao público internacional. A comunicação é marcada pela linguagem direta e pelo tom de oposição ao governo e ao Judiciário, característica que o acompanha desde os primeiros mandatos.
Para quem acompanha a trajetória política, o acervo de vídeos funciona como um registro das posições dele sobre segurança pública, economia, política externa e os embates institucionais dos últimos anos. Para quem chegou ao nome agora, a leitura da biografia ajuda a separar o parlamentar que fez o recorde de votos em 2018 do político que, em 2026, acumula cassação, demissão e condenação criminal.
Fotografias: Gage Skidmore e Câmara dos Deputados / Wikimedia Commons.



