Elmano de Freitas da Costa disputou a primeira eleição em 1996 e terminou como o candidato menos votado do próprio partido em Baturité: quatro votos. Trinta anos depois, foi reeleito governador do Ceará no primeiro turno, com quase 2,9 milhões de votos. Entre os dois resultados, o advogado formado na Universidade Federal do Ceará (UFC) construiu a carreira na defesa jurídica de sindicatos e movimentos sociais, dirigiu o PT em Fortaleza, comandou a Secretaria Municipal de Educação da capital e passou dois mandatos na Assembleia Legislativa antes de chegar, em 2023, ao comando do Executivo cearense.
Filiado ao Partido dos Trabalhadores desde 1989, Elmano governa o Ceará desde 1º de janeiro de 2023, quando sucedeu Izolda Cela. O primeiro mandato ficou marcado pelo lançamento do Ceará Sem Fome e pela continuidade da expansão do ensino em tempo integral, mas também pela pressão em torno da segurança pública, tema que dominou as críticas da oposição e as mudanças na cúpula das forças estaduais.
De Baturité para Fortaleza: infância, igreja e Direito na UFC
Elmano de Freitas nasceu em 12 de abril de 1970 em Baturité, cidade serrana a cerca de 100 quilômetros de Fortaleza. É um dos cinco filhos da professora Elma de Freitas da Costa e do agricultor Francisco Feitosa da Costa. A militância começou cedo, nas Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica, onde participou de trabalhos de alfabetização de crianças que estavam fora da escola.
Aos quinze anos, mudou-se com os irmãos para a capital cearense para continuar os estudos e formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Como advogado, atuou na defesa de sindicatos e movimentos sociais, com trabalho ligado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e coordenou a Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares entre 2001 e 2009.
A educação municipal e a primeira candidatura à prefeitura
A aproximação com a máquina pública começou na Prefeitura de Fortaleza. Em 2008, Elmano coordenou a campanha de reeleição de Luizianne Lins e, no segundo mandato dela, dirigiu a Comissão de Participação Popular do gabinete. Entre setembro de 2011 e dezembro de 2012, foi secretário municipal de Educação, pasta da qual se licenciou para disputar a prefeitura.
Na eleição de 2012, foi o candidato mais votado do primeiro turno em Fortaleza, com 318.262 votos (25,44%). No segundo turno, perdeu para Roberto Cláudio: 576.435 votos, 46,98% dos válidos, contra os 650 mil do adversário. No ano seguinte, assumiu a presidência do diretório municipal do PT, onde permaneceu até 2017.
Dois mandatos na Assembleia Legislativa do Ceará
Eleito deputado estadual em 2014, com 44.292 votos, e reeleito em 2018, com 68.594, Elmano ocupou uma cadeira na Assembleia Legislativa do Ceará entre 2015 e 2022. No período, teve mais de trinta projetos de lei aprovados, liderou a bancada do PT, presidiu a Comissão de Defesa Social e o Conselho de Altos Estudos e Assuntos Estratégicos e dirigiu a Escola Superior do Parlamento Cearense em 2017.
Foi como relator da CPI do motim, instaurada em 2020 para investigar a participação de associações de policiais militares na paralisação da segurança pública no estado, que passou a ser citado com mais frequência no noticiário estadual. Antes disso, em 2016, havia sido candidato a vice-prefeito de Fortaleza na chapa de Luizianne Lins, terceira colocada com 193.687 votos. Em 2020, disputou a prefeitura de Caucaia e terminou em quarto lugar, com 13.018 votos.
A eleição de 2022 e a chegada ao governo do Ceará
A candidatura ao governo nasceu de uma ruptura na base aliada. Com a saída de Camilo Santana do governo para disputar o Senado, o PT rompeu a aliança estadual com o PDT, que lançou a então governadora Izolda Cela, e escolheu Elmano como candidato, com Jade Romero (MDB) na vice. Apoiado por Camilo e pelo presidente Lula, venceu no primeiro turno, com 2.808.300 votos, 54,02% dos válidos, contra Capitão Wagner e Roberto Cláudio. Tomou posse em 1º de janeiro de 2023.
Ceará Sem Fome, tempo integral e outras frentes do mandato
O principal programa social do governo é o Ceará Sem Fome, criado em 2023 para enfrentar a insegurança alimentar no estado. O desenho combina transferência de renda para famílias em situação de vulnerabilidade e uma rede de cozinhas solidárias que serve refeições gratuitas, operada com municípios e organizações da sociedade civil. Em outubro de 2025, o governo contabilizava 55 milhões de refeições distribuídas pelo programa.
Na educação, a gestão deu continuidade à política iniciada com Camilo Santana e trabalhou para universalizar o ensino em tempo integral nas escolas estaduais de ensino médio, com novas unidades e ampliação de vagas. As frentes mais visíveis do mandato podem ser resumidas assim:
- Ceará Sem Fome — cartões para famílias em extrema pobreza e cozinhas solidárias;
- Ensino em tempo integral — expansão da jornada nas escolas estaduais de ensino médio;
- Segurança pública — operações policiais, concursos e trocas na cúpula da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social.
Segurança pública: a frente mais pressionada
O primeiro mandato teve na segurança pública seu ponto mais sensível, com episódios de violência ligados a organizações criminosas — ataques, homicídios e disputas por território — e críticas frequentes de oposicionistas ao crescimento da sensação de insegurança. O governo respondeu com mudanças no comando da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social, ampliação de operações e reforço de efetivo por meio de concursos e convocações. Em fevereiro de 2025, o comando da Polícia Militar foi substituído horas depois de o governador dizer publicamente que estava insatisfeito com os resultados.
Reeleição em 2026 e o novo mandato
Em 2026, Elmano disputou a reeleição com a vice-prefeita de Fortaleza Gabriella Aguiar, do PSD, na chapa. O principal adversário foi o ex-governador Ciro Gomes, que reuniu setores da direita cearense em torno de sua candidatura. Em 4 de outubro de 2026, Elmano venceu no primeiro turno com 2.875.573 votos (53,19%) contra 2.498.891 (46,22%), resultado semelhante ao do correligionário Jerônimo Rodrigues na Bahia, também reeleito no primeiro turno.
No discurso da vitória, no Comitê Central do PT, em Fortaleza, ele atribuiu o resultado à militância: “Essa vitória é nossa, da militância da esquerda do Ceará”. O novo mandato começa em janeiro de 2027, quando o governador inicia o segundo ciclo de quatro anos à frente do estado.

