Em outubro de 2011, quando Braço do Norte inaugurou o palco multiuso da praça Padre Roer, um mural do artista norte-americano Ed Trask, feito com a participação da braçonortense Nádya Becker, passou a registrar a história do município em espaço público. Entre as figuras retratadas estava o rosto de Enerzon Xuxa Harger, que compareceu à cerimônia e posou ao lado do próprio retrato dois meses antes de morrer. Nascido em Tubarão em 1941 e radicado em Braço do Norte, ele foi vereador por três mandatos e dedicou os últimos anos a reunir documentos, fotografias e relatos de famílias para escrever a história da cidade. Desde 2014, uma lei municipal leva seu nome: a Medalha Enerzon Xuxa Harger, concedida a moradores e visitantes que se destacam pela gentileza.
Quem procura o nome dele encontra duas frentes que se cruzam. De um lado, a política municipal, com três passagens pela Câmara de Vereadores e uma candidatura a deputado estadual. De outro, a pesquisa histórica, que resultou em livros sobre a colonização, o desenvolvimento e os personagens que marcaram a formação de Braço do Norte. Entender essa combinação, entre o parlamentar que virou pesquisador e o pesquisador que virou nome de lei, ajuda a explicar por que o nome dele aparece em arquivos municipais, listas de leitura e registros da memória do Vale do Braço do Norte.
Origem em Tubarão e vida em Braço do Norte
Enerzon Speck Harger nasceu em 10 de outubro de 1941, em Tubarão, filho de Leonardo Marino Harger e Hilda Speck Harger. Ainda jovem, fixou residência em Braço do Norte, cidade onde construiu a vida pública e a obra de historiador ao lado da esposa, Alda Maria Michels Harger.
O percurso escolar dele foi curto: em depoimento ao jornal Notisul, em 2009, contou ter estudado apenas até a quarta série. O ofício de pesquisador veio da prática. Para escrever sobre a história local, recorreu a arquivos de família, publicações antigas, fotografias cedidas por moradores e conversas com descendentes dos primeiros colonizadores. O método caseiro explica o tom direto dos livros e a presença de tantos nomes de moradores comuns nas páginas.
Três mandatos de vereador e a presidência da Câmara
Filiado à Aliança Renovadora Nacional (ARENA), Enerzon foi eleito vereador de Braço do Norte em três legislaturas:
- 4ª legislatura (1969–1973) — primeira passagem pela Câmara Municipal;
- 8ª legislatura (1989–1993) — período em que presidiu a Casa, em 1989 e 1990;
- 11ª legislatura (2001–2005) — terceiro mandato na Câmara Municipal.
Em 1990, disputou uma cadeira de deputado estadual pela coligação União por Santa Catarina. Recebeu 4.832 votos e terminou como suplente. Segundo o jornal Notisul, também disputou eleições para prefeito e vice-prefeito em outras ocasiões. O portal da Câmara Municipal mantém um perfil oficial dedicado a ele, com a biografia, os mandatos e a lista de publicações.
O historiador que reconstituiu a história do município
Nos últimos anos de vida, Enerzon dedicou-se à literatura. Em 2006, publicou "Os Homens que Fizeram nossa História", pela editora Coan, com perfis de personagens da política local. Em dezembro de 2009, lançou no salão nobre da paróquia dois títulos que circulam entre a história e a literatura regional: a segunda edição de "Expoentes da Política Braçonortense" e "Respingos da Nossa História".
"Respingos da Nossa História" levou oito anos para ficar pronto. A obra parte de 1838 e acompanha a colonização e o desenvolvimento do município, com mais de 200 nomes de representantes públicos e fotografias cedidas por famílias da região. O recorte vai dos povos indígenas que viviam na área até o início do século 20, chegando aos dias mais recentes. A tiragem de 500 exemplares foi pensada para circular em escolas e bibliotecas, como material de consulta sobre a formação da cidade.
A decisão de escrever tinha motivação declarada. "Apesar de ter apenas a quarta série, queria deixar algo que as futuras gerações pudessem aproveitar", disse ele ao Notisul em 2009. "Como um apaixonado pela história, decidi realizar o sonho de escrever a história do município para ser utilizada como fonte de pesquisa, nas escolas e bibliotecas."
Na época da morte, dois projetos estavam em andamento: um livro com relatos de uma parteira que atuou na região, em fase de impressão, e um quinto título praticamente pronto. As obras mais citadas são:
- Os Homens que Fizeram nossa História (2006) — perfis de personagens da política de Braço do Norte;
- Expoentes da Política Braçonortense (2ª edição, 2008) — panorama dos representantes públicos da cidade;
- Respingos da Nossa História (2009) — história do município a partir de 1838, com mais de 200 nomes e fotografias de acervos familiares.
A medalha, o dia da gentileza e o mural
Em 1º de julho de 2014, a Lei Ordinária Municipal nº 2.979 instituiu duas homenagens ligadas ao nome dele. A primeira é o Dia Municipal da Gentileza, comemorado em 10 de outubro, mesma data de nascimento do historiador. A segunda é a Medalha Enerzon Xuxa Harger, destinada a pessoas que se destacam por atos de gentileza no trato com moradores e visitantes. A cada ano, até 11 personalidades podem receber a condecoração, indicadas por vereadores e avaliadas pela Comissão Permanente de Educação, Saúde e Assistência Social. Pela lei, a entrega oficial ocorre na sessão ordinária mais próxima do dia 10 de outubro.
A primeira cerimônia aconteceu na sessão de 13 de outubro de 2014, com a presença de Alda Maria Michels Harger, viúva do homenageado, na mesa diretora. Antes disso, o reconhecimento público já tinha aparecido no mural da praça Padre Roer, inaugurado em 22 de outubro de 2011, durante as comemorações de emancipação do município. O painel pintado por Ed Trask com apoio da artista local Nádya Becker transformou o palco multiuso em uma espécie de linha do tempo da cidade, e o rosto de Enerzon está entre as figuras retratadas.
Morte e legado
Enerzon Xuxa Harger morreu em 25 de dezembro de 2011, em Tubarão, aos 70 anos, depois de anos de tratamento contra um câncer. O velório foi realizado na Câmara Municipal de Braço do Norte, e o sepultamento, no cemitério municipal da cidade. Ele deixou a esposa, quatro filhos e cinco netos.
O legado dele aparece em três lugares concretos: nos livros que reconstroem a história de Braço do Norte a partir de 1838, no mural do palco multiuso da praça Padre Roer e na medalha municipal que leva seu nome. Nos arquivos da Câmara, nas bibliotecas e no acervo das famílias que cederam fotografias, a história que ele ajudou a contar permanece disponível para consulta.

