Ernesto Paglia foi contratado pela TV Globo em junho de 1979 para trabalhar na madrugada. Deixou a emissora em dezembro de 2022, com 43 anos de reportagens no currículo e oito Copas do Mundo cobertas. Duas temporadas como correspondente em Londres e dois programas com marca própria, o Globo Mar e o JN no Ar, cabem no mesmo período. Desde janeiro de 2026, ele apresenta o Roda Viva, na TV Cultura.
Fora da Globo, o jornalista montou uma agenda de documentários ambientais, palestras e projetos independentes. Quem procura o nome dele chega por caminhos diferentes: pela trajetória de repórter na principal emissora do país, pelos documentários sobre o Ártico e a Amazônia ou pela curiosidade sobre o entrevistador que assumiu o Roda Viva. Os fatos que ligam esses pontos começam em 1979, na greve que o demitiu da Rádio Jovem Pan, e vão até o estúdio da TV Cultura.
Da Argentina a Ribeirão Preto: a formação do repórter
Ernesto George Paglia nasceu em São Paulo, em 9 de abril de 1959. Filho do jornalista italiano Gerardo Paglia e da argentina Haida Alcira Frias Paglia, passou a primeira infância na Argentina, até o pai conseguir emprego em um dos jornais dos Diários Associados e a família voltar ao Brasil. Em pouco tempo, todos se mudaram para Ribeirão Preto, no interior paulista, onde o jovem Ernesto colaborava no orçamento de casa.
Aos 17 anos, mudou-se para a capital e se formou em jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da USP. Também cursou Ciências Sociais na mesma universidade, sem concluir. Em 1979 veio o primeiro emprego, na Rádio Jovem Pan. Dois meses e meio depois, aderiu à greve dos jornalistas de São Paulo e foi demitido. Na semana seguinte, um contato feito no movimento sindical, o jornalista Carlos Monforte, o apresentou à chefia de reportagem da Globo. A carreira na emissora começou em junho de 1979, no turno da madrugada: “Comecei pela madrugada, de meia-noite às 7h”, lembrou ele em depoimento ao Memória Globo.
Em dois meses, cinco matérias no Jornal Nacional o levaram ao Bom Dia São Paulo e ao Café da Manhã, quadro em que a equipe entrava na casa do entrevistado de madrugada. Entre as entrevistas da época, ele recorda a do general Milton Tavares e a de Franco Montoro no dia da posse como governador de São Paulo, em 1983.
Londres, as guerras e os personagens do caminho
O início dos anos 1980 colocou o repórter em coberturas que definiram a década: as greves dos metalúrgicos do ABC paulista, a primeira visita do Papa João Paulo II ao Brasil, quando entrevistou dom Hélder Câmara, e o movimento das Diretas Já, com o comício da Praça da Sé registrado em 1984.
Em 1983, passou um mês no escritório da Globo em Londres e voltou como repórter exclusivo da equipe que reestruturou o Globo Repórter. No ano seguinte, recebeu o prêmio do Festival Internacional de Televisão de Sevilha pela reportagem sobre a trajetória do cacique e deputado Mário Juruna.
Em 1986, o Globo Repórter o enviou a uma expedição de 20 dias por Fernando de Noronha e o Atol das Rocas. O veleiro contratado como apoio se perdeu no trecho final e a equipe foi resgatada pela Marinha. Ainda naquele ano, ele foi convidado a trabalhar no escritório de Londres e se tornou, aos 27 anos, um dos mais jovens correspondentes da emissora. Foram três anos na capital inglesa, até 1989.
Nesse posto, acompanhou a viagem do então presidente José Sarney a Moscou e entrevistou o líder soviético Mikhail Gorbachev. Entrevistou também a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher e participou, ao lado de Pedro Bial, da cobertura do cessar-fogo que pôs fim à Guerra Irã-Iraque. Estava em Belgrado, acompanhando a prisão de Slobodan Milosevic, quando foi convocado às pressas para Jerusalém, no início da Primeira Intifada. “Quando saí de Londres, em 1989, atrás de mim estava caindo o Muro de Berlim”, contou ao Memória Globo.
De volta ao Brasil, cobriu a libertação de Nelson Mandela, na África do Sul, em 1990, e explicou no Jornal Nacional, com um mapa em cena, os ataques da Guerra do Golfo, em 1991. Em 1992, cobriu a Rio-92 e entrevistou Fidel Castro, François Mitterrand e Helmut Kohl. Em 1997, idealizou e apresentou o Painel, na GloboNews, um resumo de notícias da semana nos moldes dos programas da emissora britânica Channel 4, que editou até 2000.
Em 2000, foi enviado às pressas para Islamabad, no Paquistão, para cobrir os ataques americanos ao Afeganistão. Entre 2000 e 2002, viveu a segunda temporada como correspondente em Londres, desta vez ao lado da mulher, a jornalista Sandra Annenberg, com quem é casado desde 1994.
Oito Copas e o abraço de Enzo Bearzot
A primeira Copa do Mundo de Ernesto Paglia foi a da Espanha, em 1982. Como fala italiano fluentemente, acompanhou a seleção italiana, que chegou desacreditada e terminou campeã. Na final, o técnico Enzo Bearzot rompeu o círculo de fotógrafos para abraçá-lo e conceder uma entrevista. A cena abriu uma rotina: o repórter integrou as equipes da Globo nas Copas de 1986, no México, 1990, na Itália, 1994, nos Estados Unidos, 2002, no Japão e na Coreia, 2006, na Alemanha, 2010, na África do Sul, e 2014, no Brasil, quando acompanhou a seleção de Portugal.
Nas Olimpíadas, esteve em Barcelona 1992, Atlanta 1996, Pequim 2008 e Rio 2016, ano em que fez a entrevista com a ginasta americana Simone Biles para o Globo Esporte, além dos Jogos Pan-Americanos do Rio, em 2007. Na segunda passagem pelo Globo Repórter, entre 2002 e 2010, assinou reportagens como as expedições à Groenlândia, aos Andes e às florestas do Canadá.
Globo Mar: o estúdio vira oceano
Em 2009 ele começou a gravar o Globo Mar, que estreou no ano seguinte como série de documentários jornalísticos sobre a vida marinha e a pesquisa oceanográfica. O projeto exigiu consultoria especializada e uma equipe acostumada às dificuldades do mar, como navegar cerca de cem horas até o arquipélago de São Pedro e São Paulo, ou dormir em camas tipo prateleira em pesqueiros, ao lado de cientistas e tripulação.
O trabalho rendeu à TV Globo uma menção honrosa no Prêmio de Reportagem SOS Mata Atlântica, em 2013, e duas condecorações da Marinha do Brasil ao jornalista: a Ordem do Mérito Naval, em 2011, e o Mérito Tamandaré, em 2015.
JN no Ar: 39 dias, 27 cidades e um livro
Em 2010, nas cinco semanas que antecederam o primeiro turno da eleição presidencial, Paglia comandou o JN no Ar. A bordo de um jato executivo, a equipe era enviada a uma cidade sorteada a cada noite, cobrindo todos os estados e o Distrito Federal para mostrar problemas e características de cada região. O projeto teve continuidade no ano seguinte, com as séries Blitz da Educação e Blitz da Saúde.
No fim de 2011, o repórter publicou O Diário de Bordo do JN no Ar — Cruzando o País numa Cobertura Histórica, pela Editora Globo, livro em que relata os bastidores da série. Depois dele vieram o quadro Vai Fazer o Quê?, exibido pelo Fantástico em 2013, a série de 50 anos de jornalismo da Globo, em 2015, e a reportagem especial sobre o garimpo ilegal na Reserva Nacional do Cobre e Associados, na Amazônia, que foi ao ar em 2017. Ele permaneceu como repórter especial do Fantástico, com base em São Paulo, até dezembro de 2022.
Depois da Globo: Ártico, tempestades e o Roda Viva
No ano seguinte à saída da emissora, Ernesto Paglia voltou à Groenlândia pela terceira vez, depois das viagens de 1995 e 2007, para gravar o documentário 3 X Ártico — O Alerta do Gelo, sobre a mudança climática global, lançado no Globoplay. Ele foi acompanhado pelos mesmos companheiros das outras expedições: o repórter cinematográfico Marco Antonio Gonçalves e o guia canadense Jim Allan.
Em 2024, tornou-se embaixador e divulgador do Museu CARDE — Carros, Arte, Design e Educação —, em Campos do Jordão, para o qual realiza um documentário sobre a história da indústria automobilística brasileira. Em 2025, apresentou Caçadores de Tempestades — Amazônia, exibido pelo Discovery Channel e, na sequência, pelo Canal Futura. Em janeiro de 2026, foi anunciado como novo apresentador do Roda Viva, na TV Cultura, no lugar de Vera Magalhães.
Prêmios, reconhecimento e onde vive
Ernesto Paglia recebeu cinco vezes o Prêmio Comunique-se na categoria melhor repórter de TV — em 2004, 2007, 2009, 2011 e 2017 — e recebeu o título de Mestre do Jornalismo pelo conjunto de premiações. Entre os reconhecimentos da carreira:
- 1984: prêmio do Festival Internacional de Televisão de Sevilha pela reportagem sobre Mário Juruna, no Globo Repórter;
- 2004, 2007, 2009, 2011 e 2017: Prêmio Comunique-se de melhor repórter de TV;
- 2011 e 2015: Ordem do Mérito Naval e Mérito Tamandaré, condecorações da Marinha do Brasil;
- 2013: menção honrosa no Prêmio de Reportagem SOS Mata Atlântica, pelo trabalho no Globo Mar.
Casado desde 1994 com Sandra Annenberg, também jornalista, ele vive em São Paulo e mantém uma agenda de palestras e projetos de documentários independentes. O trabalho mais recente é a bancada do Roda Viva, na TV Cultura, onde entrevista personalidades todas as segundas-feiras.


