Em 8 de julho de 1991, Sandra Annenberg entrou no Jornal Nacional para ler a previsão do tempo e foi a primeira mulher a entrar todo dia no telejornal. Em 1º de junho de 2026, a paulistana marcou 35 anos no jornalismo da TV Globo já na apresentação do Globo Repórter.
Quem procura o nome quer a apresentadora que ficou anos no Jornal Hoje, a jornalista que soltou “Que deselegante!” no ar e a atriz que existia antes da bancada. O intervalo que explica essa busca vai do teleteatro da TV Cultura à faculdade feita no meio do expediente e ao programa semanal que ela apresenta desde outubro de 2019.
Quem é Sandra Annenberg
Sandra Annenberg nasceu em 5 de junho de 1968, na Avenida Paulista, em São Paulo. O pai, Alexandre Annenberg Neto, era engenheiro eletrônico. A mãe, Débora Takser, produzia televisão na TV Cultura, e Sandra cresceu nos estúdios da emissora. É irmã mais nova do político Daniel Annenberg. Os avós chegaram ao Brasil na década de 1930, fugindo do nazismo na Europa: poloneses pelo lado materno, russo-ucranianos e romenos pelo lado paterno.
É casada com o jornalista Ernesto Paglia. Em setembro de 2026 o casal completou 30 anos de casamento. A filha dos dois, Elisa, nasceu em 2003. Sandra segue baseada em São Paulo, cidade para a qual voltou quando o trabalho a levava ao Rio.
A menina do teleteatro e a repórter de 14 anos
A estreia em vídeo foi em 1974, aos seis anos, num teleteatro da TV Cultura ao lado de Luis Gustavo e Elizabeth Savalla. A passagem para o jornalismo aconteceu cedo. Aos 14 anos, em 1982, foi repórter do Crig-Rá, programa da TV Gazeta feito pela produtora Olhar Eletrônico e dirigido por Fernando Meirelles. Entrevistava pessoas na rua sobre sexualidade, para um público jovem. Em depoimento ao Memória Globo, contou que naquela altura achava que ia ser jornalista.
Aos 15 apresentou o Show do Esporte na Bandeirantes, com Luciano do Valle e Juarez Soares, e no ano seguinte o infantil TV Criança. Na Cultura comandou o esportivo Vitória, o Grandes Concertos e festivais de MPB. Na Record, fez o Esporte Shopping Show com Osmar Santos e o Super Esportes.
O palco puxou de volta. Um papel pequeno em Um Dia Muito Especial, com Tarcísio Meira e Glória Menezes, a levou à Escola de Arte Dramática da USP. Cursou a ECA e não se formou. A atuação ocupou o fim dos anos 1980: o humorístico Bronco, na Bandeirantes, ao vivo, com Ronald Golias, Renata Fronzi e Nair Bello; a minissérie Chapadão do Bugre, de Walter Avancini; na Globo, o seriado Tarcísio & Glória, a novela Pacto de Sangue e as minisséries República e A, E, I, O... Urca, em que fez uma empregada doméstica. Em 1990, Cortina de Vidro, novela de Walcyr Carrasco no SBT, encerrou essa fase de atriz. O motivo que ela deu foi prático: só seguiria na ficção se fosse para o Rio, e queria ficar em São Paulo.
O teste que tirou Sandra da ficção
Ainda na Record, o TV Franchising, aos domingos às 7h, chamou a atenção do jornalismo da Globo. Veio o teste de moça do tempo. Em junho de 1991, aos 23 anos, estreou no telejornal São Paulo Já. No dia 8 de julho a previsão passou para o Jornal Nacional. No depoimento ao Memória Globo ela trata o quadro como corte de caminho: abriu mão da ficção e abraçou o jornalismo. O curso começou ao mesmo tempo em que trabalhava. Formou-se em 1994 nas Faculdades Integradas Alcântara Machado, a FIAM, em São Paulo.
Em abril de 1993 passou a dividir o Fantástico com Celso Freitas e Fátima Bernardes. A edição da morte de Ayrton Senna, em 1994, ficou marcada para ela por um detalhe de bancada: ela e Fátima não se olharam durante o programa. Cada uma lia para a própria câmera. No fim, as duas estavam com a voz embargada e choraram quando se encararam.
Depois de três anos no Fantástico, gravado no Rio, pediu para voltar a São Paulo. Entre 1996 e 1997 foi apresentadora e editora-executiva do SPTV 1ª edição, período em que diz ter aprendido a fechar um jornal. Em 1996 integrou a equipe dos Jogos Olímpicos de Atlanta. No ano seguinte acumulou apresentação e edição-executiva do Jornal da Globo. Em 1998 assumiu as mesmas funções no Jornal Hoje e estava na bancada quando a redação do telejornal foi transferida para São Paulo, em janeiro de 1999. Deixou o comando em outubro daquele ano para ser repórter da rede.
Londres e a bancada longa do Jornal Hoje
Em 2000 assumiu a correspondência internacional e a coordenação do escritório da Globo em Londres. A estrutura era enxuta: três repórteres, dois cinegrafistas, dois editores de imagem e dois produtores, para atender do Bom Dia Brasil ao Jornal da Globo, passando por esporte, Globo Repórter e Fantástico.
Das coberturas daquele posto, destaca a queda do Concorde em 2000, o acidente do submarino russo Kursk no mesmo ano, a queda de Slobodan Milosevic e as repercussões dos ataques de 11 de setembro de 2001 em Nova York. Dez anos depois dos atentados, voltou à cidade para uma série do Jornal Hoje sobre como Nova York estava e sobre pessoas marcadas pela tragédia.
Em 2003 reassumiu o Jornal Hoje ao lado de Carlos Nascimento. Com a saída dele da Globo, passou a dividir a bancada com Evaristo Costa. Em abril de 2005 também virou editora-chefe e apresentadora da faixa da manhã do Globo Notícia, no ar até 2014. O Jornal Hoje concentrou algumas das coberturas mais citadas por ela. No Pan do Rio, em 2007, entrou no Maracanã pela primeira vez no dia da final do futebol feminino, Brasil e Estados Unidos, e falou ao vivo depois da partida. Em 2005, na escolha de Bento XVI, gritou “Habemus Papam” e traduziu Benedictus como Benedito, sem se tocar na hora de que o nome em português era Bento. Em 13 de março de 2013 coube a ela anunciar ao vivo o sucessor, o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, eleito papa Francisco. Ficou quase duas horas no ar com o padre Marcial Maçaneiro.
Plantões e transmissões que o público associa ao nome
- 31 de outubro de 2011: no Jornal Hoje, ao lado de Evaristo Costa, reagiu com “Que deselegante!” quando dois homens interromperam o link ao vivo de Monalisa Perrone, na porta do hospital em que Lula começava tratamento.
- 28 de janeiro de 2013: ancorou o Jornal Hoje em Santa Maria, no dia seguinte ao incêndio da boate Kiss.
- Março de 2014: com Patrícia Poeta, fez a primeira apresentação do Jornal Nacional só com mulheres, no Dia Internacional da Mulher.
- Agosto de 2016: apresentou o Jornal Hoje de um estúdio no Parque Olímpico da Barra, durante a Olimpíada do Rio.
- Junho de 2018: apresentou o Jornal Hoje da Praça Vermelha, em Moscou, com Alex Escobar, na Copa do Mundo da Rússia.
- 25 de janeiro de 2019: deu no Jornal Hoje as primeiras informações sobre o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho.
Em agosto de 2014, a morte do então candidato Eduardo Campos entrou em plantão do Jornal Hoje. A cobertura do telejornal e do Jornal Nacional foi indicada ao Emmy Internacional de notícia no ano seguinte.
De junho de 2012 em diante, Sandra acumulou o Jornal Hoje com a faixa Globo Cidadania, no lugar de Serginho Groisman. A atração de sábado de manhã reunia Globo Ecologia, Globo Ciência, Globo Educação, Globo Universidade e Ação. De agosto de 2014 a dezembro de 2019, o formato virou o Como Será?, ainda aos sábados, com educação, trabalho, cidadania e sustentabilidade.
Globo Repórter e a atriz que voltou a dizer o próprio ofício
Em 9 de agosto de 2019, a Globo anunciou a aposentadoria de Sérgio Chapelin e a saída de Sandra do Jornal Hoje no mês seguinte. Ali Kamel, diretor de jornalismo, a convidou para o Globo Repórter. Ela conta que Chapelin queria se aposentar e que o nome dela surgiu quando a emissora buscava quem poderia ocupar o lugar. A despedida da bancada do JH foi em 13 de setembro de 2019. Maria Júlia Coutinho assumiu a vaga. Em 4 de outubro, Sandra estreou no Globo Repórter ao lado de Glória Maria.
Meses depois, a pandemia de Covid-19 mudou a gravação. Para evitar a viagem entre Rio e São Paulo, ela passou a apresentar o programa a partir de São Paulo, com a outra apresentadora em outra cidade. O primeiro Globo Repórter inédito dela, sobre o tempo, sugerido pelo editor Paulo Sampaio, foi ao ar em 18 de dezembro de 2020.
Em 2026 ela segue no programa. William Bonner passou a dividir com ela essa fase e, em junho, a entrevistou no videocast do Globo Repórter sobre os 35 anos de casa. No mesmo mês, no Instagram, ela contabilizou quatro troféus de Melhor Jornalista no Melhores do Ano e lembrou copas, Olimpíadas e o Criança Esperança entre as coberturas.
A atriz não ficou arquivada no currículo antigo. Em 2023 narrou o espetáculo Pedro e o Lobo. Em 2025 entrou no The Masked Singer Brasil como Carminha. Numa entrevista publicada pelo Globo em abril daquele ano, disse que por quase 30 anos se apresentava só como jornalista e que voltava a se apresentar também como atriz. A fórmula que usou foi direta: uma atriz sem exercício, com vontade de atuar de novo, sem saber se isso caberia ao lado do jornalismo.
Quem quiser o depoimento dela, e não só a ficha dos programas, encontra o arquivo no perfil do Memória Globo, com entrevistas de 2004, 2010 e 2023.

