Erwin Kräutler sobreviveu, em outubro de 1987, a um atentado numa rodovia do Pará. Um caminhão atingiu de frente o carro em que o bispo viajava; um de seus acompanhantes morreu e ele ficou gravemente ferido. Os autores e o mandante do ataque foram condenados anos depois, mas o mandante acabou libertado em um segundo julgamento. A violência nunca mais saiu da rotina de quem passou décadas denunciando grilagem, trabalho escravo e ataques a povos indígenas na Amazônia. É essa combinação de fé, presença no território e enfrentamento público que fez de Erwin Kräutler uma das vozes mais conhecidas do Xingu no Brasil e no exterior.
Nascido em Koblach, na Áustria, em 12 de julho de 1939, ele é missionário da Congregação dos Missionários do Preciosíssimo Sangue, bispo emérito da Prelazia do Xingu e vencedor do Prêmio Right Livelihood, o chamado Nobel Alternativo, em 2010. Vive no Pará desde 1965 e tornou-se cidadão brasileiro naturalizado em 1978.
Quem é Erwin Kräutler
Kräutler é um religioso austríaco que construiu toda a sua vida pública no Brasil. Ainda jovem, entrou para a Congregação dos Missionários do Preciosíssimo Sangue e, depois de estudar filosofia e teologia em Salzburgo, foi ordenado padre em 1965. No mesmo ano, partiu para o Pará, onde dois tios missionários atuavam desde a década de 1930. Cartas e fotografias enviadas por eles fizeram parte da infância da família, e foi esse vínculo que aproximou o futuro bispo da realidade dos povos indígenas do Xingu antes mesmo de conhecê-la de perto.
No Brasil, Kräutler ficou conhecido pela defesa dos direitos dos povos indígenas, pela oposição à Usina Hidrelétrica de Belo Monte e pela atuação à frente do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), entidade que presidiu em dois períodos. Também ganhou projeção internacional ao relatar ameaças de morte, conflitos fundiários e a destruição ambiental na região amazônica em entrevistas, livros e conferências.
Da Áustria ao Xingu: formação e primeiros anos no Brasil
Erwin Kräutler estudou em Feldkirch, no oeste da Áustria, e fez o noviciado em Liechtenstein. Em Salzburgo, cursou filosofia e teologia antes de receber a ordenação presbiteral em 3 de julho de 1965, na catedral da cidade. A primeira missa solene foi celebrada em sua cidade natal, Koblach, no dia 18 de julho daquele ano.
A viagem ao Brasil começou em novembro de 1965. Já no Pará, o jovem padre atuou como vigário cooperador em Altamira, lecionou filosofia, psicologia e inglês, foi reitor de escola apostólica, pároco em São Francisco Xavier de Souzel e ecônomo da Prelazia do Xingu. Nesse período, acompanhou de perto o trabalho do tio, dom Eurico Kräutler, então bispo da região, e naturalizou-se brasileiro.
Bispo da maior prelazia do Brasil
Em 7 de novembro de 1980, o papa João Paulo II nomeou Erwin Kräutler bispo coadjutor da Prelazia do Xingu, com direito de sucessão. A ordenação episcopal aconteceu em Altamira, em 25 de janeiro de 1981, e meses depois ele assumiu a prelazia, uma área de cerca de 350 mil quilômetros quadrados, a maior do país em extensão. Adotou como lema Servus Christi Iesu, servo de Cristo Jesus.
Como bispo, consolidou uma atuação que unia assistência social e denúncia. Entre as iniciativas ligadas ao seu trabalho estão a construção de casas para famílias pobres, a criação de um espaço de acolhimento para mães e gestantes, o apoio a escolas e o suporte jurídico a comunidades atingidas por conflitos de terra. À frente do CIMI, entre 1983 e 1991 e novamente a partir de 2006, participou do esforço que garantiu na Constituição de 1988 direitos dos povos indígenas, como o reconhecimento de suas terras.
A trajetória também teve custos. Em 1983, foi detido e agredido por policiais militares após participar de um ato de solidariedade a plantadores de cana. Anos depois, o atentado de 1987 quase o matou. Em 1995, seu confrade e colaborador Hubert Mattle foi assassinado em Altamira.
Belo Monte, Dorothy Stang e as ameaças
O assassinato da irmã Dorothy Stang, em 2005, marcou uma nova fase de pressão sobre o bispo. Kräutler trabalhou com a missionária por mais de duas décadas e cobrou a investigação dos mandantes do crime, o que ampliou as ameaças contra ele. Desde 2006, vive sob proteção policial.
Na mesma época, tornou-se uma das principais lideranças contrárias à construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, projeto que classificava como ameaça ao modo de vida de comunidades indígenas e ribeirinhas de Altamira. Segundo relatou em entrevistas, a obra afetaria diretamente povos que dependem do rio para pescar e se locomover. A resistência ao empreendimento foi um dos motivos que o levaram a receber, em 2010, o Prêmio Right Livelihood, entregue pelo trabalho de uma vida em favor dos direitos humanos e ambientais dos povos indígenas e da preservação da floresta amazônica.
Sínodo da Amazônia e a Igreja que ele defende
Em abril de 2014, Kräutler foi recebido em audiência pelo papa Francisco, ocasião em que relatou a situação do Xingu e a pressão econômica sobre a região. Suas experiências e reflexões sobre ecologia ajudaram a alimentar o debate que resultou na encíclica Laudato si', publicada em 2015. No fim daquele ano, em 23 de dezembro, o papa aceitou seu pedido de renúncia por idade, e ele se tornou bispo emérito, sucedido por dom João Muniz Alves.
Longe de se retirar, passou a atuar como vice-presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) e integrou a preparação da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, realizada no Vaticano em outubro de 2019. Defende publicamente que comunidades distantes tenham acesso regular à eucaristia, o que inclui discutir a ordenação de homens casados e o acesso de mulheres a ministérios ordenados. Também denunciou grupos criminosos envolvidos em abuso sexual de menores em Altamira, tema que o colocou em conflito direto com poderosos locais.
Prêmios e reconhecimento internacional
O trabalho de Erwin Kräutler foi reconhecido por organizações de direitos humanos, universidades e governos ao longo de mais de quatro décadas. Entre as principais distinções estão:
- Prêmio Oscar Romero de Direitos Humanos (1988), do Movimento Católico de Homens da Áustria;
- Grande Prêmio Binding de Natureza e Meio Ambiente (1989), de Liechtenstein;
- Prêmio Bruno Kreisky de Direitos Humanos (1991), de Viena;
- Doutorados honoris causa pela Universidade de Innsbruck (1992), pela Universidade de Lucerna (1992) e pela Universidade de Bamberg (1993);
- Prêmio Konrad Lorenz (2002), do governo austríaco, pela defesa do meio ambiente;
- Medalha de Ouro com Estrela da Ordem de Honra da República da Áustria (2009);
- Prêmio Right Livelihood (2010), conhecido como Nobel Alternativo;
- Prêmio de Honra do Comércio Livreiro Austríaco pela Tolerância no Pensamento e na Ação (2014);
- Prêmio Liberdade de Memmingen 1525 (2016);
- Prêmio Herbert Haag (2026), concedido pelo conjunto da obra.
Livros e legado
Kräutler escreveu e organizou obras que funcionam como registros de sua atuação, com edições em alemão e em português. Entre os títulos estão 500 Jahre Lateinamerika, Kirche mit indianischem Antlitz, Die Nacht ist noch nicht vorüber, a autobiografia Mein Leben ist wie der Amazonas, Mein Leben für Amazonien, Rot wie Blut die Blumen e Erneuerung jetzt, escrito às vésperas do Sínodo da Amazônia. No Brasil, publicou Testemunha de Resistência e Esperança, com discursos em defesa dos povos indígenas, e teve suas memórias reunidas no livro Servo de Cristo Jesus, organizado pelo teólogo Paulo Suess.
Na defesa pública da floresta e de quem vive nela, a atuação de Erwin Kräutler soma-se à de outras lideranças brasileiras, como a ambientalista e política Marina Silva, que também se opôs ao projeto da usina de Belo Monte. O bispo emérito segue morando em Altamira, escrevendo e participando de encontros sobre a Amazônia e os direitos dos povos indígenas.




