Eustáquio Gomes fez de Campinas o personagem central de boa parte do que escreveu. Nascido no povoado de Campo Alegre, então pertencente a Campos Altos, no interior de Minas Gerais, chegou à cidade paulista ainda jovem e transformou a história local em romance, ensaio, crônica e reportagem. A Febre Amorosa, publicado em 1984 e reeditado em 2001, levou para a ficção a Campinas de 1889 em plena epidemia de febre amarela e se tornou a obra pela qual seu nome é mais lembrado.
Jornalista de formação e escritor por escolha, assinou 16 livros entre poesia, conto, novela, ensaio, biografia e crônica. Foi repórter e editor desde os 19 anos, atuou na comunicação de empresas, colaborou por décadas no Correio Popular e coordenou a Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unicamp desde a criação, em 1982, até 2012.
De Campo Alegre ao jornalismo em Campinas
Filho de lavradores, Eustáquio contou com a ajuda de amigos para estudar: primeiro na cidade de Luz, em Minas Gerais, depois em Assis, no interior de São Paulo. Parte da infância transcorreu em colégios internos, e a passagem pelo seminário, experiência que ele próprio evocou em crônicas e no romance Jonas Blau, marcou esse período.
Formou-se em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Mais tarde, tornou-se mestre em letras pela Unicamp, com uma dissertação sobre os modernistas de província. A pesquisa não ficou restrita à academia: alimentou um de seus livros mais citados, Os Rapazes d'A Onda e Outros Rapazes, publicado em 1992.
O jornalista que estruturou a comunicação da Unicamp
Eustáquio iniciou suas atividades na Unicamp em 1982, quando implantou a Assessoria de Comunicação e Imprensa, a Ascom, segundo o perfil mantido pela própria universidade. Ficou na interface entre a instituição e a imprensa externa, coordenou a redação do Jornal da Unicamp e respondeu pelo conteúdo do portal da universidade até 2012. A relação com a Unicamp foi além do cargo: ele pesquisou e escreveu a história dos primeiros anos da instituição.
A passagem pela comunicação institucional veio depois de outras frentes. Entre 1973 e 1981, atuou na área de propaganda e publicidade, primeiro na Bosch do Brasil, em Campinas, e depois na White Martins, no Rio de Janeiro. Antes disso, já havia trabalhado em jornais do interior como repórter e editor.
O resgate dos modernistas de Campinas
No início dos anos 1980, ao lado do jornalista Roberto Goto, Eustáquio criou e articulou o suplemento literário Domingo Cultura, publicado entre 1982 e 1983 e mantido por cinquenta edições semanais. O suplemento reuniu intelectuais da cidade e abriu espaço para debates culturais, numa época em que a imprensa local reservava pouco lugar para a literatura.
Da pesquisa sobre aquele período nasceu Os Rapazes d'A Onda e Outros Rapazes, ensaio sobre o grupo de jornalistas, poetas e intelectuais que difundiu o ideário modernista em Campinas nos anos 1920, por meio da revista A Onda. O livro recupera o que pensavam e escreveram esses jovens e permanece como referência para quem estuda a história cultural da cidade.
A Febre Amorosa e a Campinas de 1889
Publicado em livro em 1984, depois de circular como folhetim na imprensa local, A Febre Amorosa é um romance ambientado na Campinas de 1889, às vésperas da epidemia de febre amarela que matou mais de um quarto da população da cidade. A trama amorosa serve de fio condutor para evocar ruas, monumentos e personagens históricos da Campinas imperial.
O romance ganhou segunda edição em 2001, foi adaptado para o teatro em 1996 e traduzido para o russo. Na biografia publicada no site Das Letras, o escritor Luiz Fernando Emediato o chama de um pequeno clássico do underground. É o título mais difundido de Eustáquio e a porta de entrada mais comum para a sua obra.
O Mandarim e a história da Unicamp
Em 2006, Eustáquio publicou O Mandarim: História da Infância da Unicamp, biografia do período de criação da universidade e de seu idealizador, Zeferino Vaz. O livro parte de documentos históricos e de depoimentos de quem participou da construção da instituição, reconstituindo os anos em que a universidade nasceu dentro do período da ditadura militar no Brasil.
Anos antes, ele já havia publicado Hemingway: Sete Encontros com o Leão, de 1983, ensaio biográfico sobre o escritor americano, e Um Andaluz nos Trópicos, de 1995, livro-entrevista com o pintor Bernardo Caro. As três obras mostram o interesse do autor por trajetórias alheias e por personagens que ajudaram a construir instituições e linguagens.
Crônicas, diários e os últimos romances
Como colaborador regular do Correio Popular, Eustáquio publicou mais de 800 crônicas, além de reportagens especiais e entrevistas culturais. Muitos desses textos saíram na revista Metrópole, encarte semanal do jornal, e tratavam de temas variados, com atenção especial à cidade e a seus habitantes. A infância no interior, os colégios internos e o universo dos livros aparecem com frequência nesse conjunto.
Dessa produção vieram livros como Viagem ao Centro do Dia, diário de 2007; Paisagem com Neblina e Buldôzeres ao Fundo, narrativas curtas do mesmo ano; A Biblioteca no Porão, crônicas sobre livros e leituras publicadas em 2009; e O Vale de Solombra, romance de 2011 e último título lançado em vida. Em 2010, um AVC interrompeu parte dos planos literários que ele pretendia intensificar depois da aposentadoria.
Como Eustáquio Gomes é lembrado
Eustáquio morreu em casa, em Campinas, em 31 de janeiro de 2014, aos 61 anos, vítima de infarto. A universidade em que trabalhou por cerca de três décadas o homenageou de várias formas. Em dezembro de 2014, a RTV Unicamp lançou o videodocumentário Eustáquio, dirigido por Amarildo Carnicel, com 38 minutos e 16 depoimentos de colegas, professores e amigos. O filme está disponível no canal da TV Unicamp.
Em 2017, o Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas exibiu a exposição Eustáquio Gomes: cronista, jornalista, escritor, que reuniu livros, crônicas e publicações. No mesmo período, o Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas publicou um perfil assinado pelo magistrado e escritor Luiz Carlos Ribeiro Borges, que o apresenta como o escritor de Campinas por excelência.
Obras de Eustáquio Gomes
- Cavalo Inundado (poemas, 1975)
- Mulher que Virou Canoa (contos, 1978)
- A Febre Amorosa (romance, 1984)
- Jonas Blau (romance, 1986)
- Os Rapazes d'A Onda e Outros Rapazes (ensaio, 1992)
- O Mandarim: História da Infância da Unicamp (biografia, 2006)
- A Biblioteca no Porão (crônicas, 2009)
- O Vale de Solombra (romance, 2011)
Quem procura os livros de Eustáquio Gomes hoje encontra títulos esgotados em livrarias e uma obra que segue despertando interesse por pelo menos duas razões: a reconstituição histórica de Campinas e a atenção às pessoas comuns da cidade. Para começar, A Febre Amorosa é a porta mais difundida; para entender a cidade e a universidade, O Mandarim e Os Rapazes d'A Onda cumprem esse papel. O leitor que quiser continuar no tema pode navegar pelos perfis de escritores brasileiros reunidos no site.






