Antes de Hollywood descobrir o rosto que interpreta Eunice Paiva em Ainda Estou Aqui, o público brasileiro já conhecia outra Fernanda Torres: a atriz que transformou o cotidiano em humor em Os Normais, a monologuista que encheu teatros com A Casa dos Budas Ditosos e a romancista que, aos quarenta, estreou em prosa com o livro Fim.
Quem busca o nome dela hoje costuma chegar por caminhos diferentes — o Globo de Ouro, a indicação ao Oscar, a filha de Fernanda Montenegro, a Vani de calcinha estampada, a autora da Companhia das Letras. O que une essas rotas é a mesma presença: uma artista carioca que atravessa teatro, cinema, televisão e literatura sem se fixar em um único registro.
Quem é Fernanda Torres
Fernanda Pinheiro Monteiro Torres nasceu no Rio de Janeiro em 15 de setembro de 1965. Filha dos atores Fernanda Montenegro e Fernando Torres, cresceu no ambiente do teatro e, aos treze anos, entrou para o Tablado. Estreou nos palcos ainda adolescente e, na televisão, apareceu em novelas da TV Globo ainda na adolescência, antes de consolidar uma carreira que se espalha por décadas e formatos.
Não se trata só de herança de sobrenome. A trajetória dela se construiu em papéis de peso no cinema brasileiro, em comédias que viraram referência de linguagem na TV e em uma segunda carreira como cronista e romancista. Em 2024 e 2025, o papel de Eunice Paiva no filme de Walter Salles — baseado na memória familiar de Marcelo Rubens Paiva — colocou seu nome no centro do debate internacional de cinema, com Globo de Ouro de melhor atriz em drama e indicação ao Oscar de melhor atriz.
Cinema: de Cannes a Ainda Estou Aqui
No cinema, a estreia veio cedo, com Inocência (1983). Em poucos anos, o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes por Eu Sei que Vou Te Amar (1986), de Arnaldo Jabor, já a colocava em um patamar raro para atrizes brasileiras no circuito internacional.
A filmografia inclui trabalhos com Walter Salles (Terra Estrangeira, O Primeiro Dia, Ainda Estou Aqui), Andrucha Waddington (Gêmeas, Casa de Areia — este último dividindo tela com Fernanda Montenegro) e outras produções que marcaram o cinema nacional. Em Ainda Estou Aqui, a interpretação de Eunice Paiva — mulher que busca o marido desaparecido na ditadura militar — somou reconhecimento de críticos e de premiações: Globo de Ouro, prêmios no Brasil e indicação ao Oscar, em um momento em que o filme também levou o país de volta ao centro da conversa global sobre cinema.
- Prêmio de interpretação feminina em Cannes por Eu Sei que Vou Te Amar (1986)
- Globo de Ouro de melhor atriz em filme dramático por Ainda Estou Aqui (2025)
- Indicação ao Oscar de melhor atriz pelo mesmo papel
- Parcerias recorrentes com Walter Salles e Andrucha Waddington
Televisão e o humor que entrou na casa do brasileiro
Se o cinema deu prêmios e prestígio, a televisão deu familiaridade. Em Os Normais (2001–2003), ao lado de Luiz Fernando Guimarães, Fernanda Torres viveu Vani: o humor de casal, o diálogo seco e o cotidiano sem verniz viraram marca de época. Depois vieram os filmes da franquia e, entre 2011 e 2015, Tapas & Beijos, com Andrea Beltrão, outra série de comédia de longa duração na Globo.
A lista de trabalhos em TV é mais ampla — de novelas dos anos 1980 a participações posteriores em séries como Sob Pressão e à adaptação de seu próprio romance Fim para o Globoplay, em que ela também atuou. O ponto comum é a versatilidade: drama, comédia, apresentação e, mais tarde, podcast e formatos de entrevista.
Teatro: o monólogo que virou fenômeno
No teatro, o monólogo A Casa dos Budas Ditosos, a partir do romance de João Ubaldo Ribeiro, ocupa lugar especial. Estreado em 2003, o espetáculo foi visto por mais de dois milhões de espectadores, rendeu prêmios e manteve presença de longa duração no repertório. Antes e depois, a atriz passou por montagens de peso, incluindo trabalhos com a mãe e com diretores como Gerald Thomas e Bia Lessa.
Quem só a conhece pela TV ou pelo filme recente costuma se surpreender com a escala desse trabalho cênico: não é peça de temporada curta, e sim um marco de público e de carreira.
Literatura: romances e crônicas
A partir de 2007, Fernanda Torres passou a publicar como cronista em jornais e revistas. Em 2013–2014 chegou o romance de estreia, Fim, pela Companhia das Letras: cinco amigos cariocas confrontados com a morte, o envelhecimento e as contas em aberto da vida adulta. O livro vendeu centenas de milhares de exemplares, foi traduzido e, anos depois, ganhou série no Globoplay.
Em 2017 veio A Glória e Seu Cortejo de Horrores, romance centrado em um ator de meia-idade e nas engrenagens do prestígio, do mercado e do desejo de reconhecimento no mundo artístico. Juntos, os dois livros mostram uma escritora que conhece o bastidor da fama por dentro e prefere a ironia à biografia autocelebratória.
Por que o nome dela continua em alta busca
Parte da busca atual vem do impacto de Ainda Estou Aqui e do debate sobre a ditadura, a memória e o papel de Eunice Paiva. Outra parte vem de quem redescobre Os Normais, quem lê Fim depois da série ou quem quer entender a linhagem Montenegro–Torres no teatro e no cinema brasileiros.
Em qualquer desses caminhos, o perfil se sustenta em obra concreta: prêmios, livros publicados, séries de TV com anos de exibição, monólogo de enorme público e uma filmografia que vai de Cannes nos anos 1980 a Veneza e Hollywood na década de 2020. Não é um nome que depende de um único momento viral — é uma carreira longa, com picos em mídias diferentes.
Onde acompanhar e o que ler primeiro
No Instagram, o perfil oficial é @oficialfernandatorres. Na literatura, o ponto de partida mais comum é o romance Fim; quem prefere o olhar sobre o meio artístico costuma ir em seguida para A Glória e Seu Cortejo de Horrores. No audiovisual, Ainda Estou Aqui e as séries de humor da Globo concentram a maior parte das conversas recentes.
Para quem chega pelo filme sobre a família Paiva, o livro e a trajetória de Marcelo Rubens Paiva completam o contexto histórico e literário da história que Fernanda Torres interpreta na tela.



